Dois pra lá, dois pra cá

14/06/2012    Postado em Contos, Idéias

Ela estava sozinha. Nem todo mundo que vai ao cinema desacompanhado está solitário, mas ela parecia só. Comprou um copo de guaraná e um chocolate, nenhuma pipoca. A sessão tinha pouca gente, ela sentou no meio de uma fila e, três degraus acima e abaixo de sua poltrona, não havia ninguém.

Era um filme triste, um romance desses para ser visto com alguém que se possa abraçar com ternura, desses feitos para que se dê valor ao que se tem. Mas sua única companhia era o copo gelado. Tão logo as luzes se apagaram e o som das vinhetas invadiu a sala, destampou-o e derramou sobre o guaraná duas garrafinhas de uísque, daquelas de hotel. Lembrou da voz de Elis Regina, mexeu o copo con o canudo e deu um longo gole.

O interessante desses grandes cinemas é que, mesmo com poucas pessoas na sala, ninguém parece lhe notar. Ela estava, naquele momento, grata por isso, pois ninguém tentaria entender o que fazia uma mulher, tão bonita e bem arrumada, numa sala de cinema, no meio da tarde, completamente sozinha. E ela não teria de esconder de ninguém o vermelho em seus olhos, o nó na garganta, o sulco profundo no dedo anular da mão esquerda, denunciando que ela não deveria estar só, que ela já teve um motivo para estar ali.

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O Hiato

07/06/2012    Postado em Crônicas, Textos

O hiato. Um tipo especial de angústia que nos visita em momentos variados da vida e expõe nossa vulnerabilidade diante de nossa mente e do ambiente em que vivemos. Aquela pergunta que você nunca fez, aquela frase que terminaria um conflito, a última peça de um quebra-cabeça, a ideia que completaria aquele trabalho. Às vezes, nenhuma dessas coisas aparece quando precisamos e aquele vazio se instala, um vazio que se materializa no estômago, frio e retorcido, impotente.

 Não faz muito tempo, algumas pessoas conversavam e uma delas falou que a melhor maneira de ter um filho é parar de tentar. Entenda-se como não esperar mais que aconteça. O mesmo conselho parece valer para outras coisas na vida. Se alguma coisa da vida empaca, o melhor a fazer é ignorá-la até que ela pare de agir como uma criança mimada e faça progressos. Sozinha. Resistir a essa parada forçada, via de regra, prolonga o atraso. Às vezes, as coisas são como massa de pão, não podem ir ao forno sem descansar um pouco, sem fermentar.

É um pouco como artes marciais de defesa. Você usa a força e o movimento do oponente para derrota-lo. Ao contrário de ficar inerte ou resistir, você usa aquilo que é forçado em sua direção como impulso para fazer seu movimento. Funciona, porque, curiosamente, as coisas e pessoas parecem abaixar a guarda quando não enxergam resistência e isso abre campo para fazer aquilo que precisava ser feito desde o início.

Diante de um trabalho que empacou, você pode tentar atravessar a parede usando sua testa ou pode tratar o trabalho como uma carne dura, coloca-la para marinar no tempero e descobrir que isso a deixou mais macia, mais fácil de lidar. Usar o hiato em seu favor ao invés de deixar uma angústia sem causa lhe invadir. Você dorme algumas horas toda noite por um motivo. Às vezes, esse mesmo motivo é tudo que precisamos. Em tudo na vida. Uma pena que nem sempre essa lição venha palatável como uma bandeja de petiscos. Mas tenha por certo: quem a aprendeu, de verdade, a valoriza muito.

 

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Um pouco de emoção

31/05/2012    Postado em Contos, Textos

As noites de domingo são um cenário propício para alguém desejar um pouco de emoção. A segunda-feira logo ali na esquina, a programação hediondamente tediosa da televisão, um sentimento meio que universal de tédio, várias olhadas no relógio para saber se já é hora de ir deitar. Não se deve dormir cedo demais no domingo ou a segunda começará antes do sol nascer. E ninguém quer que um dia aborrecido dure mais do que o estritamente necessário. Mas aquele sentimento de “falta um pouco de emoção” permanece, e o filme porcamente dublado de algum ator bombado e decadente explodindo coisas definitivamente não é a resposta.

Um zumbido grave e um vulto entram pela janela. Desafiando a aerodinâmica, ela entra voando de pé e pousa na parede. Mexe as antenas. Queria emoção, eu cheguei. Não era essa a emoção que você queria, mas ela trouxe. Num pinote, você levanta da cadeira, corre, apanha a vassoura. Ela não está mais naquele lugar. Onde? Onde foi parar? E de quem foi a ideia brilhante de incluir na criação do mundo um bicho tão nojento, feio e que voa tão mal? Voa, a
lazarenta voa. Pega o veneno. Uma arma em cada mão, mas nenhum escudo. Ela aparece, vem em sua direção, você desvia e quase dá com a cabeça na parede. Ela se esconde atrás do sofá. Hora da ginástica, toca arrastar o sofá. O cheiro do veneno se espalha depressa, parece que o fabricante quer espantar o inseto pelo nariz. Ela se esconde no cortineiro. E tome vassourada no pobre, quem mandou dar guarida a inseto terrorista?

Ela começa a voar de novo, de um lado para o outro, e você lembra da raquete elétrica que serve para matar mosquitos. Estica o braço com a raquete na mão. Ouve um estalo. Isso costuma significar vitória. Mas vem o segundo, o terceiro, quarto… e nada. Borrifa a garrafa de veneno e… a barata pega fogo. E, para seu espanto, sai voando pela janela, em chamas. E a vizinha lhe conta, pela manhã, que uma barata ateou fogo em suas cortinas na noite daquele domingo.

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