A terra do siri

02/08/2012    Postado em Crônicas, Idéias, Textos

Seguindo o exemplo de Portugal, Espanha e outros, o Brasil deveria adotar um animal-símbolo para o turismo. Sugiro o siri, para combinar com a forma como lidamos com nossos problemas. Nunca vamos adiante, nunca pegamos exemplos d’outrora. Andamos de lado. E, quando a coisa ameaça empenar, basta se enfiar num buraco e esperar que tudo se acalme.

Sou contra essa modinha estúpida de politicamente correto (até porque nada de correto há em nossa política), mas não me lembro de ter xingado aqui algum dia. É que eu não posso controlar quem vai ler e não quero dar mau exemplo pra crianças, mas tem horas que a gente precisa desopilar, então eu quero fazer uma proposta: vamos parar de agir como quem nasceu com o aparelho digestivo montado de ponta-cabeça. E não estou falando de novela, do cabelo do Neymar nem da gaiola das loucas do Bial (embora estes dois últimos talvez merecessem alguma regulação).

Estou falando é de meio semestre letivo na lata do lixo porque o governo não cumpre seu papel. De um julgamento histórico acontecendo enquanto a imprensa só mostra os culpados pelo nome, sem NENHUMA menção ao partido governista ou ao então presidente ou à atual. Em período de eleição, a cidade tá parecendo uma feira gigante, com cartazes saídos de algum concurso de feiúra espalhados por todo canto, em cavaletes. E o assunto se resume a Carminha, empreguetes e jogadores de futebol. Por que diabos ninguém, salvo uma dúzia de gatos pingados, esboça qualquer reação aos problemas verdadeiros? Talvez porque a Globo não mostrou nenhum deles.

Não estou criticando o gosto alheio. Tem coisa que gosto de ler e ver e sei que muita gente não gosta. Pagodão baixaria fere meus ouvidos. Vivemos em sociedade, não em simbiose. Cabelo moicano é um negócio hediondo pra mim, mas tem mãe que acha uma gracinha o filho imitar o ídolo. E tudo bem, porque as pessoas precisam de ídolos. Numa época em que os ídolos políticos estão todos mortos ou se corromperam e os famosos se vendem até para propaganda de aspirina, a criançada gostar de um cara que faz bem o que é pago para fazer é bom, sim.

O que me preocupa é ver que estamos tão entretidos com a vingança da cozinheira psicótica que estamos deixando passar algo – isso sim, verdadeiramente hediondo – como um sujeito que caiu de paraquedas na Corte Suprema do país participar do julgamento daqueles que um dia defendeu. E tudo isso enquanto a maior emissora do país nomina os réus pessoalmente e joga o resto debaixo do tapete. Um tapete que, pelo andar da carruagem, vai pedir um rolo compressor muito em breve.

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Colocar para fora

12/07/2012    Postado em Crônicas

Alguma vez lhe ocorreu, caro leitor, que a profissão que você tanto quer seguir é, na verdade, a que mais lhe angustia? Quando você simplesmente tem de fazer aquilo ou não vai dormir bem à noite, e, se deixar esse impulso de ação represado por muito tempo, pode chegar à meia idade com uma ferida interna feita de um sentimento triste, de não ter cumprido com seu propósito? E, quando senta diante de suas ferramentas por horas a fio, pondo para fora o que lhe atormenta o cérebro qual um louco na camisa de força que se debate contra as paredes espumadas de sua cela, essa angústia se esvai, e… paz.

Uma paz que dura pouco, bem verdade. Porque o cérebro é uma daquelas máquinas que repousam em baixa rotação mas nunca realmente param. O incômodo é como um balão posto na garganta e inflado. À medida em que ganha pressão, vai se tornando intolerável, e a única maneira de pôr um fim à agonia é colocando para fora. Se você der sorte, tudo flui rapidamente. Mas pode levar tempo. Um dia, um mês, um tempo que ninguém se atreva a estimar. E não importa, realmente, de que prática se está falando. Ela é secundária, é o produto da manifestação daquilo que nos move. É a impressão das rodas de seu cérebro. Mera consequência de cada um.

Algumas pessoas comparam essa sensação ao parto. Que toda obra é um parto. Se tirarmos a mãe e o filho da equação, sobram esforço, sofrimento e a sensação confortante de dever cumprido. A mãe sente felicidade ao ver seu filho. O autor pode sentir essa felicidade, mas pode sentir apenas alívio. Saiu, não está mais reverberando em meu crânio. Com toda a parte sofrida, entretanto, é a única coisa que parece fazer algum sentido, porque é aquilo que, em última análise, lhe define. Soa determinista, mas quem já tentou mais de um caminho na vida e acabou desistindo de algum deles consegue reconhecer quando o que escolheu seguir é o correto. Pode ser o mais difícil, mas é o único que vale a pena. Há quem receba a graça de ter sua rota traçada de primeira e seguir jornada com céu limpo e velas cheias. Há aqueles que ignoram a lógica de sua aptidão natural e vão seguindo a corrente do rio. Há os que sabem que a corrente não vai aonde têm de ir e remam contra. No final, os mais serenos serão aqueles que tentaram externar aquilo que lhes movia.

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O vizinho chato

28/06/2012    Postado em Crônicas, Textos

Todo mundo tem um vizinho chato. E, se não tem, provavelmente é o vizinho chato. Existem dias em que a gente bem ia gostar de poder estalar os dedos e fazer o infeliz sumir da face da terra, e existem os dias em que há apenas a expectativa de ele aparecer para nos chatear. Mas ele está lá e é diversão diária e garantida, só que ao contrário. Não adianta negar, dizer que não é bem assim, que você está cercado de boas pessoas. Dê uma de João Pessoa e negue até dizer chega, mas, lá no fundo, você sabe. Quando alguém fala em vizinho chato, é o nome daquela pessoa que lhe incomoda que vem na sua cabeça. Não é sua culpa. É culpa dele.

Para alguns, existe um tipo mais desagradável de companhia compulsória. Os males crônicos do corpo. Quando eles vêm com a idade, menos mal, não há muito que fazer. Conheci uma senhora que era muito amável, mas literalmente toda vez que a encontrava, ela sentava ao meu lado com uma cestinha de vime trançado cheia de caixas – seus remédios – e dizia para que servia cada um deles. Uma porção de oses, de artrose a osteoporose.

E tem aqueles que nos alcançam mais cedo, frutos de intercorrências da vida ou de hábitos. Eu, mesmo, trago dois ou três exemplares, mas não me lembro de ter falado deles em algum texto. Tem gente que dá nome aos seus males crônicos, batiza mesmo. Eu só convivo com eles e os chamo pelo nome do problema, o nome médico, mesmo. Se é pra batizar alguma coisa, que não seja parte de mim. Por curiosa sugestão de um médico, entretanto, resolvi falar daquele que me incomoda mais. Justamente o que parece ser mais insignificante de todos. Um cisto, uma pequena massa.

Essa coisinha lazarenta, uma manchinha de menos de um centímetro numa folha de ressonância magnética, me tortura há mais de dois anos. Num dia bom, eu sinto ela pressionando um nervo no punho direito. Num dia ruim, escrever uma linha de texto à caneta é doloroso demais. Ele fica em um tendão, pelo que um médico me explicou, e incha em resposta a pequenos movimentos repetitivos. Basicamente, escrever faz esse infeliz crescer e comprimir o nervo que passa logo abaixo.

Outras coisas também provocam a inflamação do cisto, mas o que incomoda mais é a relação entre uma das coisas que mais gosto de fazer e uma das piores dores que já senti na vida. Sem dramas, é pior que dor de coluna. Apenas pense, ilustre leitor(a), naquela dor de choque quando você bate o cotovelo de mau jeito. Agora imagine isso um pouco mais leve, mas sem lhe abandonar um único segundo de seu dia. Bem-vindo ao meu dia bom. No dia ruim, o coisa-ruim cresceu tanto e aperta tanto o nervo que dá vontade de chutar a parede e tentar tirar a atenção do punho por uns instantes.

Evidente que há pessoas com dores e problemas mais sérios. Se a grama do vizinho é mais verde, tenha certeza, a caixa de gordura dele fede mais que a sua. Mas ignorar os problemas que não vão embora é uma atitude idiota. Eles incomodam. Eles não vão embora. Eles vão continuar incomodando. Não sobra nada além de enfrentá-los, tratá-los. Na maior parte das vezes, isso requer esforço e, potencialmente, sacrifício. Mas é isso ou assumir o masoquismo crônico.

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