A gaveta de remédios

26/01/2013    Postado em Crônicas, Textos

Em toda casa há uma gaveta de remédios onde a gente põe coisas necessárias para tratar algo em dado momento, e elas vão se acumulando até que nasça a coragem necessária para uma faxina. Daí, o que se encontra é um monte de coisas completamente inúteis, vencidas como uma metáfora ruim. Em poucos instantes de reorganização, aquele lugar atulhado de onde você não tirava mais um remédio para aquela dor de cabeça tormentosa recupera metade de seu volume útil. Naquele momento, você fica satisfeito e tenta não lembrar que em mais uns seis meses deve procurar, novamente, o analgésico com o mesmo fervor que um arqueólogo escava atrás de um sarcófago.

Se você usa documentos no cotidiano, provavelmente conhece a teoria de que papel se reproduz por partenogênese. Se duvida, escolha uma gaveta para colocar documentos, ponha alguns e aguarde uns meses. Ela provavelmente ficará cheia antes de completar um ano. Não deboche da teoria, ela tem respaldo científico. Todo profissional de humanas deve ter ouvido falar nisso, muitos descobriram a verdade sobre a reprodução de papéis quando precisaram achar uma única folha de papel. Alguns juram que ela estava lá, e não na outra, do outro lado do móvel.

Enfim, o que salva a minha metáfora raquítica é ela ser baseada em fatos reais. Arrumando minha gaveta de remédios esta noite, notei que as únicas embalagens com menos de noventa dias eram dos remédios que uso regularmente. Atire a primeira pedra quem nunca teve de comprar duas caixas de seis comprimidos de antibiótico para tomar sete doses e ficou com as sobras. E aquele estojo de óculos que você guardou porque poderia ser útil. Esse é só um exemplo, eu não uso óculos. Mas alguns usam e devem ter lembrado que, debaixo daquela pilha que começou com duas contas de telefone, tem um estojo plástico com a marca da ótica que lhe vendeu a armação anterior à que está usando agora. E as canetas que as empresas dão de brinde? Quantas dessas e quantas BIC você tem entocadas? Pois é.

Eu ainda não tinha cabelos brancos quando uma pessoa me contou que, indo morar numa cidade de apartamentos pequenos, teve de se adaptar a uma porta. Ou eram duas, o fato é que essa pessoa perdeu dois terços do espaço que estava acostumada a ter, e precisou se virar. Em algum momento, ela conseguiu. Não lembro de tê-la ouvido dizer que fez um bazar e deu fim em metade de suas roupas, então presumo que ela tenha aprendido a organizar o que tinha e se livrado do que não precisava. Eu só entendi a lição que existe nessa história há pouco tempo, mas ela não tem menos valor por isso. A gente não precisa abrir mão de ter coisas, mas também não deve ocupar mais espaço do que o realmente necessário. É contraproducente e impede a chegada de novidades.

Feliz 2013 a todos.

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Nunca pare

17/10/2012    Postado em Crônicas, Textos

Existem máquinas muito antigas, como algumas que remetem à Revolução Industrial, que nunca pararam de funcionar. Há poucos dias, li sobre imensas prensas hidráulicas com meio século de atividade e um transportador de naves usado na Flórida pela NASA desde quando ficou pronto, há coisa de três décadas, e sem data para ser aposentado.

Aposentadoria. Antigamente, era algo que acontecia muito próximo da morte. O cálculo que estimava o momento em que devemos parar de trabalhar era feito com base na expectativa de vida da época. Hoje, vive-se, tranquilamente, vinte anos depois disso, possivelmente mais. O problema é que o corpo humano é tão máquina quanto um relógio a vapor do século dezenove. E, como o relógio, se você lhe tira aquilo que o move, muito provavelmente enferrujará, desenvolverá problemas. Mais rapidamente do que seria natural, deixará de funcionar irremediavelmente.

Se alguém, algum dia, lhe disser que sabe o que é melhor para você, duvide. Se essa pessoa lhe recomendar que você pare de fazer aquilo que lhe move, desobedeça. Mesmo que não seja, disse ele, saudável. Saudável é aquilo que lhe faz bem à mente. Se o corpo discorda, dose, mas nunca deixe de fazer o que lhe faz sentir vivo. Mente sã em corpo são faz sentido, mente inerte em corpo são é desperdício de tempo e espaço. Se, um dia, eu pagar um profissional para ter sua opinião sobre minha saúde e ele opinar que as coisas que me dão vontade de sair da cama, na verdade, me fazem mal, troco de profissional. Porque eu já testemunhei no que dá ouvir gente que se considera dono da razão. Testemunhei o envelhecimento acentuado e precoce de alguém que obedeceu um profissional de saúde e parou de fazer uma das poucas coisas que lhe dava prazer. Sentia dor, desgaste articular, e obedeceu. Parou de vez. Agora, seu corpo tem razoável saúde, para sua idade avançada. Mas não soube dizer meu nome. Morri um pouco hoje, porque percebi que a dor que ela sentia poderia ter sido tratada, gerenciada. Mas o que abriu mão lhe tomou algo que não pode ser recuperado. Hoje, se eu tiver de desejar votos a alguém, eles dirão “nunca pare, nunca deixe que lhe parem, até que seus pulmões parem.”

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Bípedes tristes

16/09/2012    Postado em Diversos

No fim de 2008, nós adotamos uma adorável Lhasa Apso. Não é um adjetivo vazio,  ela é mesmo encantadora. Eu lembro até hoje de cenas como o dia em que ela aprendeu, observando uma teimosa São Bernardo, a segurar a própria correia com a boca quando estava com coleira e queria passear. Vinha nos dar bom dia todas as manhãs e era a última a dormir. Nem sempre queria vir se chamávamos, mas quase sempre me pedia colo quando eu me sentava diante do computador.

 Quando minha esposa, que é asmática, começou a tossir persistentemente, não associamos a nada de casa. A limpeza é bem executada e ela nunca teve alergia a cães. Mas a tosse não ia embora e, após investigação, descobrimos que era isso mesmo, ela desenvolvera alergia e não poderíamos ter mais um cachorro em casa. Ficamos divididos entre a nossa dor e o sentimento de rejeição da nossa cadela, que veio morar conosco com um ano e meio de idade, trazida às pressas por aqueles que a criaram desde filhote depois de nos ter sido oferecida apenas uma semana antes. Por isso mesmo, o cuidado em garantir que ela fosse para um lar onde fosse querida, onde recebesse o amor que merece e que nós lhe demos durante os trinta e oito meses que passou conosco.

 Depois de uns dias buscando,  um amigo, seu veterinário, indicou uma pessoa que poderia triar potenciais adotantes. Fomos até sua casa e lá eu descobri que era a dona da São Bernardo teimosa que mordia a correia. Um peso saiu de minha cabeça, porque sabia que ela gostava de animais e faria o que se propôs, encontrar um lar para aquela cachorra adorável.

 Entregá-la foi uma das coisas mais difíceis que fizemos na vida. Eu fiquei desconsolado de um jeito que minha esposa não teve chance de externar sua tristeza porque isso deixava a minha mais profunda. Evito pensar na minha cadela ao ponto de não colocar aqui seu nome, mas não tive coragem de tirar suas fotos de meu telefone. Vida que segue, não havia modo de ficarmos os três na mesma casa quando ou ela permanecia isolada na varanda ou minha esposa tossia até não poder respirar. Doeu e dói. Acho que procurei notícias dela três vezes desde que a deixei na casa daquela mulher que chegou a se gabar de invadir uma casa para livrar um cachorro de maus tratos.

 Aí, ontem, tomo conhecimento de que essa mulher, pouco tempo depois de, ela própria, adotar minha cadela, como alguém que precisa ter um vilão em suas histórias para poder ser o herói, nos difama em seus comentários nas fotos do animal que lhe entreguei com o coração partido. Chamou de “trique triques” os cuidados que ela recebia, disse que queríamos entregá-la ao primeiro que a quisesse. E disse, por telefone, à minha esposa que queria apenas ter notícias, que não a devolveria, esquecendo que sofremos para abrir mão dela.

 Que pessoa tão triste deve ser essa mulher, para ser tão feroz com quem acredita ser uma ameaça ao afeto que obtém de um animal. Que precisa criar uma história falsa sobre duas pessoas que abriram mão desse afeto porque não tinham escolha e confiaram nela para garantir que nunca faltasse qualquer coisa àquela cadela que ainda amam e da qual ainda sentem saudades. Me faz refletir quantos personagens de suas histórias são realmente vilões e quantos são apenas reflexo de facetas rachadas de uma personalidade cujo único aspecto intacto parece ser o amor aos animais. Se intacto for. Meu consolo é saber que animais não entendem o significado de cada palavra. É saber que, se for pela memória do tempo que passou conosco, aquela cadelinha ainda nos receberia com festa num reencontro.

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