Momento Avestruz

19/04/2013    Postado em Diversos

Todos nós temos ideias ao longo da vida. É bem verdade que algumas delas seriam melhor empregadas não vendo, jamais, a luz do dia. Nem sempre é o que acontece e, às vezes, isso cria momentos bem difíceis. O outro lado – porque sempre existe um – é que, quanto mais vexatória é a história no momento em que acontece, mais divertida ela será anos mais tarde.

É a redenção do “Momento Avestruz”, aquele instante em que tudo o que você mais quer é um buraco grande o bastante para lhe engolir. Imagine, caro leitor, se todos conseguissem ser engolidos nesse momento de vergonha, que nosso planeta seria um gigantesco queijo suíço. Isso estragaria o que se diz às crianças, que a Lua é um queijão. Ela seria, bem, uma Terrinha. Ou, ainda, aquelas pessoas que são tão grandes – e eu conheço algumas – que o buraco do tamanho certo teria de ser feito por um meteoro como o que teria extinguido os dinossauros.

Há alguns anos, uma colega de colégio que não era lá muito quieta, me contou que, durante uma brincadeira à moda das séries japonesas que faziam sucesso entre nós, ela conseguiu abrir um buraco na porta do quarto. Sabendo que sua mãe não receberia bem a tentativa de redecorar o ambiente, ela se esforçou um pouco mais e… colocou um quadro tapando o buraco. Sim, um quadro pendurado na porta pareceu-lhe fazer algum sentido. Toda vez que penso em histórias absurdas, lembro desse quadro na porta e tento imaginar como a mãe dela reagiu. Até nos meus pensamentos os gritos são altos. Mas a história dela é mais legal que o meu banho séptico, especialmente porque essa aconteceu comigo.

E o mais curioso sobre essas histórias é que elas não só medem sua traquinagem juvenil, mas quão intensamente você de fato viveu aquele período. O mesmo vale para outras épocas da vida. Mais além das risadas e da nostalgia, são essas as coisas que fazem os mais velhos se reconhecerem nos mais novos e até viver esse tempo mais uma vez. Quando chegar a sua velhice e você der risada de seu filho ralhando com o filho dele por conta de uma estripulia, lembre que você deve isso ao seu momento avestruz de então.

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O Ruído dos Insolentes

11/04/2013    Postado em Crônicas

Eu queria um conto para hoje, mas minhas ideias não puderam competir com a pirotecnia daquele circo em Brasília. É um lugar único, onde a plateia foi toda maquiada de palhaços e que funciona numa escudela gigante, numa demonstração cortante de ironia. Aquilo é nível Machado de Assis, não dá pra competir.

Dentre os talentos que se apresentam naquele circo, há um espetacular coprófono. Ao longo de anos de treino diário e intenso, ele dominou a arte de reverter seu trato digestivo e expelir pelo lado de cima aquilo que nós expelimos pela outra ponta. Prata da casa, mais precisamente trinta moedas dela, ele mostra que não é preciso muito esforço para ofender e espezinhar grupos inteiros de cidadãos, os mesmos de cujos bolsos sai a comida que deveria entrar por onde ele ejeta suas atrocidades. Ele é tão bom nisso que faz parecer ser possível dormir à noite depois de fazê-lo. Segredinho sujo: há quem diga que seu sucesso profissional se deve a uma cirurgia secreta de excisão de consciência. Se procurarem direito, devem achar uma cicatriz como a que Phineas Gage tinha. Algo mais discreto, talvez. Ele não ia querer que isso dividisse a atenção de sua plateia com a performance.

O sucesso dessa atração tem tirado, no entanto, o devido reconhecimento de outros artistas. São centenas deles, e alguns ocupam posições de apoio, mas há três mágicos sensacionais que mereciam nossa atenção. O primeiro deles tem um número que recebe a ajuda do meio-ambiente para ser executado. O ponto alto é quando ele serra o ambiente ao meio. Dizem que ele enfrenta problemas para reverter o truque no final, mas ele rebate dizendo que não são dificuldades técnicas e o truque é assim mesmo.

Os outros dois mágicos trabalham em dupla e operam um sofisticado número de ilusionismo. A plateia fica com a ilusão de que ser condenado pela mais alta corte de justiça do país serve para algo e, quando os holofotes do picadeiro os perdem de vista, nós descobrimos que eles estão escondidos no lugar onde se fala de justiça.

Claro que esses artistas mereciam maior destaque, mas a culpa disso é da equipe responsável pela impressão dos cartazes. Aparentemente, eles nutrem alguma simpatia, uma paixonite, pelos mágicos e os desejam só para si, não deixando que ninguém fale neles. Quando alguém tenta, logo eles desviam o assunto de volta para o novo sucesso da casa. “Olhem como cheira mal a boca dele, olhem como sai marronzinha e grande de sua boca!”, exclamam, maravilhados. Claro, é uma sensação, é um artista e tanto. Mas nós estamos na plateia não é para vê-los? Ou é para que tenham certeza de onde estamos? E o filme que conta essa história, porque aqui agora se faz filme contando história até do pipoqueiro que trabalha na frente do estádio, terá um título inspirado num grande sucesso. Chamar-se-á “O Ruído dos Insolentes”, mas, lamentavelmente, nós não conseguimos um canibal que aceitasse comer os miolos dos nossos artistas. Fica pra outra vez.

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E Golias leva a melhor

09/04/2013    Postado em Diversos

Poucas coisas são mais ultrajantes que alguém com poder cercear, de alguma forma, o direito de outra pessoa. Uma vez, contou-me um segurança de shopping que, ao tentar abordar uma jovem senhora que estacionou em vaga reservada a pessoas com mobilidade reduzida, levou uma bela carteirada – a distinta era juíza. Esse é um exemplo. Outro, também grave, nós vemos quando uma pessoa, ou grupo de pessoas, se vale indiscriminadamente de um benefício e prejudica aqueles que fazem uso legítimo do mesmo. Caso da eterna crise das carteiras de meia-entrada. Ou da imunidade tributária concedida a instituições religiosas.

Normalmente, eu opto por não falar sobre religião. Em meu entender, fé é algo íntimo, privado, pessoal. Como aquelas partes de nosso corpo que guardamos com pudor a maior parte do ano. Algumas pessoas, no entanto, tratam sua fé como as pessoas tratam essas partes durante o carnaval, deixando-a à mostra e esfregando-a nas fuças de quem passa. Por insegurança, intolerância ou qualquer outro motivo que, francamente, não me interessa. Só que não estou falando de fé, no momento, mas da instituição religiosa em si. A congregação que reúne pessoas que, teoricamente, professam a mesma fé.

Teoricamente, porque meia dúzia ali dentro, em alguns casos, parece professar fé, mesmo, é pelo sagrado templo da Casa da Moeda. Fazem do credo alheio um negócio e tentam monetizar toda e qualquer coisa relacionada aos seus dogmas, sem o mais diminuto pudor. Notem que não aponto o dedo a nenhuma congregação, mas todos nós pensaremos no nome de uma ou duas imediatamente após ler tal acusação. É o mesmo que levantar dúvida sobre a honestidade dos políticos, embora eu acredite que o caro leitor terá dificuldade de focar em menos de meia dúzia de nomes, nesse caso.

O fato é: existe a imunidade religiosa e ela beneficia pessoas sérias que professam uma fé mas não ganham nada com ela e, sem a dispensa de recolhimento dos impostos, jamais seriam capazes de dar a segurança de uma sede própria ao seu grupo, ou mesmo de mantê-lo funcionando. Para esses pequenos grupos, até o dinheiro do IPTU faz falta. As grandes empresas da fé não os prejudicam diretamente, é preciso dizer. O grande mal, muito pior que se fosse um ataque direto, acontece quando sua total falta de escrúpulos angaria tanta antipatia que campanhas pedindo o fim da imunidade tributária para congregações religiosas começam a surgir. Nessa hora, Davi perde e Golias leva a melhor.

E, em um momento histórico em que até ateus começam a se reunir em congregações – embora, em seu caso, seja a falta de fé a cola que os une – e vários se voltam contra os demais, isso é particularmente perigoso. Lá no Leste, nós vemos o que a intolerância, tanto religiosa quanto política, provoca a longo prazo, mas isso parece não impedir que alguém tenha a brilhante ideia de juntar todos numa panela de pressão e coloca-la sobre o fogo. E esquecem que todos os credos verdadeiros, todas as morais verdadeiras, pregam a mesma coisa: seja bom, justo, honesto, útil, caridoso, sensato. Eu diria que não pode ser tão difícil, mas essa patota que procura apenas uma oportunidade de comprar briga provaria que estou errado.

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