Fragmentos

16/05/2013    Postado em Crônicas

A capacidade de racionalizar as coisas talvez seja um dos mais importantes artifícios que temos em mãos para seguir adiante quando uma perda se abate sobre nossas cabeças. O raciocínio mais comum, o resignado é a vida, costuma vir justificado por idade, doença ou outro fator que nos pareça explicar a ausência, que nada cura, de alguém que foi parte de nossa história.

Esta não é uma constatação melancólica, embora haja um misto de tristeza e nostalgia em, ao abrir um álbum de retratos, se encontrar o rosto de alguém que não mais encontraremos, porque simplesmente não está mais aqui. Mas, logo em seguida, vêm as memórias, as histórias, o som daquela gargalhada que trovejava.

Cada imagem impressa evoca uma lembrança. Pouco a pouco, você percebe que os índios têm razão, a fotografia captura mesmo a alma. Em cada uma delas, há um fragmento das pessoas. E isso é maravilhoso, porque mesmo quando você já não for capaz de lembrar se tomou seus remédios, olhar para aqueles pedaços de papel trará a visita de pessoas queridas que nunca deveriam ter partido.

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Três Apitos

09/05/2013    Postado em Contos

Desde o tempo em que, passeando com o avô, encontrou num sebo uma edição  impecável do Tesouro da Juventude de 1920, Pedro visita lugares como a Rua Chile periodicamente, em busca de raridades semelhantes. De livros a discos, passando por velhas fotografias, seu acervo conta a história de uma Salvador que ficou na juventude de seu avô e não deixou substituta.  Ao longo dos anos, aprendeu a dissimular seu interesse para despistar o olhar ganancioso dos donos de sebo que pagam uma fração irrisória do que cobram por certos livros, numa das mais antigas expressões da lei de oferta e procura, da qual a usura é nota de rodapé.

Em uma dessas ocasiões, trocou a folga do trabalho para garimpar vinis na quarta-feira, que era dia de pouco movimento e preços mais realistas. Encontrou um disco de Noel Rosa impecável, sem um único arranhão, apenas a etiqueta solta. Logo ao lado, outro disco, de alguém que nunca fez sucesso fora de seu tempo e ele não sabia quem era, mas que devia valer bem pouco e também tinha a etiqueta solta. Não teve dúvidas: trocou os discos de capa e levou-os ao balcão, regateando desconto no Noel todo riscado e naquele pobre desdenhado que levava mais por curiosidade que por interesse. Em casa, embalou o disco de Noel, depois de limpo e com a etiqueta já colada, naquele papel simples e barato usado por vendedores de armarinho e baianas do acarajé e foi visitar o avô, que completava oitenta anos naquela data.

Com um sorriso de morder as orelhas, o doutor Isaías não conseguia decidir de qual presente gostava mais. Claro, um disco original de Noel Rosa em estado de novo era o equivalente musical de um anel de brilhantes, mas ele explodia de alegria com a história da compra do disco, desde a descoberta até a volta que o neto deu naquela raposa velha gananciosa. Deu um abraço apertado em Pedro e pôs o disco para tocar.

“Conhece essa música?”, perguntou-lhe ao som de Três Apitos. Diante da negativa, continuou. “Foi com ela que tive a atenção de sua avó. Cantei para ela, na porta da casa do pai dela, morrendo de medo dele aparecer e me escorraçar dali. Mas ela valia o sacrifício. Eu já tinha emagrecido cinco quilos, por falta de apetite, de tanto pensar nela.”

Abrindo o mesmo sorriso de cinquenta anos antes, D. Nair entra na biblioteca quando ouve a melodia e tira o marido para dançar, enquanto conta a Pedro como ele quase desmaiou no dia em que a pediu em casamento ao sogro. Depois, encaixou o queixo no ombro do companheiro de uma vida, fechou os olhos e deixou que as lembranças a fizessem jovem de novo, ao som daquela velha canção. E Pedro deu-se conta de que foi esse passado trazido de volta o maior presente que pôde dar ao avó naquela noite. Algo que em canto nenhum da cidade ou do mundo ele seria capaz de encontrar.

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Os nossos rumos

25/04/2013    Postado em Crônicas

Da importância do ofício do professor, muito se diz. Seu grau de preparo e seu empenho são determinantes na formação dos alunos que passam pela sala de aula. Um aspecto, no entanto, não me lembro de ter ouvido falar. Um que tem muito a ver com seu lado humano, sua personalidade, e pouco com o que ele leciona.

Parem um instante e tentem lembrar dos seus professores do colégio. Se vocês, como eu, tiverem ao menos dez anos que saíram da escola, já devem começar a ter dificuldade de lembrar alguns rostos. Quase vinte anos, então, é simplesmente impossível descrever como eles se pareciam. Mas, certamente, pelo menos dois vocês devem lembrar. Aquele com quem tinha maior afinidade e aquele por quem desenvolveu aversão.

Claro que, com o nosso ensino colegial se estendendo por treze anos, é pouco provável que existam apenas dois desses professores em suas memórias. Mas o interessante é associar o resultado de nossa educação, quem nos tornamos depois desses anos todos, que rumos escolhemos, a essas pessoas. Se você tem um flerte com determinado tema e um professor que é simplesmente intragável, ou é apenas dono de uma didática mil oitocentista, passa o ano inteiro falando daquilo, é de se esperar que esse flerte simplesmente se apague. Por outro lado, se você gosta de uma matéria ou um ramo profissional que esteja ligado a ela (ou, ainda, algo sobre o que o professor tenha vivência e a partilhe de forma interessante) e esse assunto é tratado na sala de maneira que lhe estimule a estudar mais, pode ser o empurrão que lhe faltava para escolher aquele caminho.

Achei uma pasta com provas do colégio e percebi essa ligação. Eu gostava muito de ciências naturais e exatas, vivia enfiado no laboratório. Até hoje, flerto um bocado com as ciências exatas, mas o que me afastou muito delas foi passar metade do curso de ginásio tendo de lidar com uma professora de personalidade, digamos, difícil. Tive bons professores de física e química mais adiante, mas corri do ramo por pura aversão ao cálculo. Por outro lado, gosto das letras desde muito novo. As professoras de redação foram me cobrando melhorias ao longo dos anos, mas foi uma delas, em particular, que nunca estava realmente satisfeita com o que eu lhe entregava, quem me provocou de verdade. O dia em que arranquei um elogio daquela senhora da risada escandalosa – e escrevo isso porque, se ela ler, saberá que falei dela – foi uma das melhores coisas daquele ano. Acabei indo para a faculdade de direito, mas talvez eu tivesse escolhido melhor o Instituto de Letras. É cedo para dizer. Daqui a dez anos eu revisito o assunto.

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