Síndrome de Lázaro

03/11/2011    Postado em Contos, Textos

Vestia um pesado sobretudo negro de lã. Era uma noite sem luar e, apesar de agasalhado, sentia frio. Gelado até os ossos, sem lembrar como havia chegado numa casa de aparência tão desolada. Olhou para si mesmo e notou que, além do sobretudo de gola levantada, vestia uma calça, sapatos de verniz, gravata borboleta e uma camisa. Tudo negro, menos a camisa, que era branca e não tinha um mísero vinco. Dentes postiços. Era a noite de 31 de outubro, de forma que ele estava fantasiado de vampiro, logicamente. A mesma lógica não seria capaz de lhe explicar seu paradeiro até aquele exato ponto onde estava e a sua última memória era de muitas horas antes, mas isso lhe pareceu estranhamente irrelevante. Abriu o portão e, logo após entrar no quintal, foi cumprimentado pela árvore sem folhas que estava junto à cerca.

Racionalmente, ninguém espera ser cumprimentado por uma árvore, muito menos por uma árvore morta. Felizmente, antes que pudesse duvidar de sua sanidade mental, certificou-se de que era um outro convidado dentro de um tronco falso e que ele estava bem vivo. Sorriu, primeiro aliviado e depois com a constrangedora sensação de que não era competente o bastante em esconder do homem-árvore que não lembrava dele, especialmente considerando que foi cumprimentado pelo prenome quando todos os que o conheceram na vida adulta usavam apenas o sobrenome. O árvore (com o artigo no masculino porque o ocupante da casca era um homem) não pareceu compreender o esquecimento ou estava simplesmente bêbado. A noite estava morna, mas aquele frio continuava a lhe doer os ossos. Crianças vestidas de elfos corriam pelo jardim salpicado de folhas secas carregando lanternas plásticas em formato de abóbora.

Um grande amigo que foi morar fora depois da faculdade e nunca mais lhe deu notícias foi quem abriu a porta da casa. Era – ou queria ser – Hamlet, com direito a um crânio na mão. A magreza excessiva permanecia e continuava sendo escancarada por um sorriso largo e sincero. Um tapa nas costas e a informação de que a caveira não era real vieram a seguir e o tranquilizaram, já que aquele amigo que ele conheceu jamais tocaria em restos mortais de bicho algum, muito menos se fossem humanos. Quis saber das novidades de todos aqueles anos e seu amigo lhe contou que casou com aquela moça bonita que todos evitavam porque tinham medo de irritar alguém com fama de abrir as cartas e fazer vodu. E só a primeira parte da fama era verdadeira, garantiu. Ao vê-la chegando, exclamou um “não morre mais”, que foi recebido com certo constrangimento por seu amigo. Ela, de seu lado, sorriu discretamente e disparou, “não, mesmo”. E tomou-o pelo braço sob o pretexto de reapresenta-lo a todos os colegas que compareceram à festa. Ela própria havia organizado e enviado os convites e estava muito contente de ele ter comparecido.

A casa era da avó de sua anfitriã e foi construída num estilo em que a fachada não deixava ver todo o seu tamanho. Tinha, pois, a largura de um cômodo e meio, mas era longa o bastante para acomodar outros seis. E tinha dois pavimentos, também. Estava cheia de pessoas vestidas das formas mais curiosas. Ela, a esposa de seu amigo, não saiu muito do óbvio e vestiu-se de cartomante, à moda cigana, com saia rodada, de cores vivas e elegantemente enfeitada. Baseado nas fantasias descobriu que o campeão de dominó da faculdade era o Frankenstein, o orador da turma um caça-fantasmas e que frequentou as mesmas aulas do lobisomem e da bruxa de João e Maria. O melhor aluno de sua turma era o corcunda de Notre Dame e a sua professora favorita, numa mostra incrível de bom humor, apareceu-lhe coberta de ataduras envelhecidas. Fez uma máscara para facilitar mostrar o rosto ou ninguém lhe reconheceria, a despeito do que alguns alunos que encontrara lhe haviam insinuado. Essa última tirada arrancou uma longa gargalhada de seu antigo aluno. Mas essa risada o fez sentir algo estranho. A cartomante percebeu. Com a voz calma, disse-lhe que tudo ficaria bem depois de dois gritos e sete pancadas. Ele não entendeu, mas supôs que era alguma referência à decoração da casa. Talvez um relógio modificado. Seus ossos doíam.

Uma mão tão fria quanto o frio que lhe castigava por dentro tocou-lhe o rosto com a suavidade de uma brisa matutina. Virou-se e ficou lívido, mas ninguém poderia dizer porque a densa maquiagem tornava privada qualquer indiscrição de sua pele. Vestida de vampira, como fosse capaz de adivinhar a fantasia que ele usaria naquela noite, ali, diante de seus olhos, estava uma antiga namorada. Uma pessoa com quem ele esteve quase todos os momentos de uma década inteira, desde o colégio até pouco depois da formatura. Não a via desde… desde o acidente. Dois anos após a formatura, quando já pensavam em casamento, ela simplesmente se desligou, durante um almoço. Sentiu uma dor de cabeça repentina e parou de falar, de respirar, de tudo. Um aneurisma havia se rompido. Ela não podia estar ali. Melhor: ele não devia estar ali.

Foi aí que se deu conta de que tudo não passou de um sonho, ou pesadelo, ou uma alucinação, polvilhada de pessoas que não estavam mais vivas. E que ele não era uma delas. Despertou, em meio a um forte cheiro de flores. Sentou-se, descobriu-se na sala de casa, expulsou dois chumaços de algodão das narinas com um espirro violento. Dois gritos, sete baques surdos. Agora sabia que tudo ficaria bem. Para ele, pelo menos.

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Mesa para dois

27/10/2011    Postado em Contos, Textos

Uma mesa comum de restaurante. Nada de especial em suas toalhas ou na vela que divide seu centro com uma flor dentro de um pequeno jarro. É uma mesa com duas cadeiras, em um canto, uma das faces voltada contra a parede. Uma simples mesa para dois.

 Que histórias contaria se pudesse falar? Quantos sorrisos e quantas tristezas terá testemunhado? Sentimentos tão humanos que não são notados pelos que passam junto à mesa ocupada. Incontáveis, anônimos, ignorados. Mas a mesa não os menospreza. É sobre seu tampo que brota a mais pura expressão da humanidade. Quatro cotovelos, quatro mãos entrelaçadas, um estojo, uma aliança. Quantas vezes, quantos casais não selaram compromisso ali? Alguns deles, também sobre seu tampo, romperam laços. Mas é a vida, afinal, e seu amigo coxo, com algumas passeadas, resolverá tudo.

 A mesa que viu amores nascerem e morrerem também viu negócios sendo fechados, notícias boas, notícias ruins, toda sorte de coisas contadas por pares. Às vezes, passava semanas inteiras sem ver ninguém, às vezes era disputadíssima. Ela, que testemunhou a esposa contando ao marido de sua gravidez, o casal de namorados já maduros e ainda com a chama da paixão acesa, o casal que buscava um pouco da intimidade roubada pelos filhos…

 Todo ano, no dia dos namorados, as outras mesas eram desmembradas para atender aos casais, que raramente vinham acompanhados de outro casal. Ela, contudo, jazia tranquilamente no mesmo lugar de sempre, disputada pelos casais. Havia um casal que, anos a fio, comparecia religiosamente na semana do doze de junho. Nunca no dia doze, mas sempre um ou dois dias antes e sempre no almoço. A penumbra que cobria como um véu a mesa os resguardava do mundo. Amantes? Pois sim, como todos os outros casais que lá estiveram antes. Como todos os que virão. Sim, amantes, e no termo mais comum. Viam-se pouco, mas com paixão imensurável. Tinham suas famílias e quiçá o esforço que faziam para poderem encontrar-se tornasse o sentimento de ambos ainda mais forte. A mesa não julga, contudo. Não se prende a detalhes tão pequenos. Tudo o que lhe importa é o sentimento, seja de amor, felicidade, tristeza, sucesso, melancolia, seja do que for. Talvez sua sobrevida deva-se justamente a essa coleção de sentimentos. Talvez seja a penumbra que lhe envolve. Mas… ora, é só uma mesa, ordinária e comum, com uma toalha, um jarro com flor, uma vela e duas cadeiras. O que explica a atração de um casal por um lugar como este, se para um sentimento verdadeiro não há explicação?

(Arquivo pessoal, 2008)

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Não fale com estranhos

20/10/2011    Postado em Crônicas, Textos

Que o mundo é cheio de gente com as mais loucas ideias, todo mundo sabe. Mesmo quem nega e acha que nós vivemos numa sucursal do Éden sabe, porque até as criaturas imaginárias, que essa pessoa muito bem equilibrada diz que vê, devem saber. Mas tem coisas que desafiam a imaginação e a criatividade do ser humano. Coisas que só se vê acontecer num livro de Nelson Rodrigues.

Todo mundo, ou quase, recebeu instruções expressas dos pais, quando criança, de olhar para os dois lados antes de atravessar e não falar com estranhos. A maior parte de nós esqueceu essa recomendação quando entrou na adolescência e passou a achar que sabia de tudo das coisas do mundo e os pais não sabiam de coisa alguma. Pois eu descobri que aquele é um dos mais valiosos conselhos que alguém pode receber. Não literalmente, mas, se o alcance de suas palavras for bastante ampliado, vai passar além do estranho de quem não se conhece ao estranho de quem é… bem, estranho.

É como a outra vez em que um senhor que, desconfio, não regulava muito bem das ideias percebeu que eu estava olhando em sua direção e me pegou pra ouvinte, naquilo que se tornou uma das maiores roubadas em que entrei. O grande problema é que a gente não tem como prever quão estranha é uma pessoa que não era um problema social grave da última vez em que você a viu. Até porque nenhum de nós é inteiramente normal, e a gente tende a se basear nos nossos parâmetros para classificar o grau de insanidade dos outros. A encrenca nasce quando você descobre que falhou em prever um potencial problema ao dar conversa a alguém e acabou armando uma bomba, que vai acabar explodindo mais tarde.

E nessa, aquilo que parecia uma simples atualização de contato profissional termina se revelando um portal interdimensional que lhe atira dentro duma história de Nelson Rodrigues. Evidente que, se eu fosse escolher ser arremessado no meio dos problemas alheios, ia preferir cair num texto de Luiz Fernando Veríssimo. Mas, quando não lhe é brindada a escolha, o jeito é fingir que não está lá, naquele quadro encenado por pacientes do célebre Simão Bacamarte de Machado de Assis, e sair à francesa. Vai saber. O melhor, quando você não conseguiu evitar falar com gente tão estranha, no fim das contas, é deixar que eles falem entre si. Ou berrem. Ou se ataquem. Qualquer coisa, desde que a vida deles fique sendo como é, sem você fazendo parte dela.

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