2012

31/12/2011    Postado em Mensagens

Para o ano novo, não gostaria de contar uma história. Também não gostaria de fazer nenhuma crônica. Deixo, a leitores, amigos e amigos leitores, um voto sincero de que todas as nossas resoluções sinceras se realizem, todos os projetos que sejam pedras lajeando um bom futuro vinguem e frutifiquem e tudo de melhor que nos é reservado venha em 2012 e nos anos que o seguem.

Um excelente fim de 2011 e um início de 2012 ainda melhor.

Fernando Segura

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Natal

22/12/2011    Postado em Contos, Textos

Em um estalo, a torradeira entrega duas fatias de pão. A cozinha tomada pelo cheiro do café recém-coado, o ruído do espremedor de frutas. Há vinte anos, sem interrupção, é o que ele come no desjejum. Nenhuma circunstância, nenhum alto, nenhum baixo em sua vida mudou isso. O último ano foi, certamente, mais silencioso, sem o rádio ligado desde cedo, sem o suave perfume de alfazema, tendo de acordar com metade da cama fria. Lá dentro, ele sabe que nunca preencherá o vazio que ela deixou. Acostuma-se, no máximo, porque nunca foi de se entregar.

Passou os últimos meses tentando não pensar nesta época, mas novembro chegou e trouxe as memórias consigo. Dezembro trouxe a tradição que ele quis ignorar solenemente. Foi até o depósito, no quintal, observou as bolas de vidro coloridas, as luzes, a árvore, mas voltou para dentro da casa de mãos vazias. Nunca montou a decoração sozinho, não faria nada sozinho. Faltam só uns poucos dias e o canto onde a árvore sempre ficou por cerca de um mês a cada ano estava vazio. Colocou a carne para assar, como fazia todos os domingos. Sabia que metade da travessa seria dada aos cachorros, porque não comeria tudo aquilo sozinho. Era comida para dois, e ele era um só.

Uma coisa estava diferente, mas ele ainda não sabia. Com os colchões encostados na parede, de maneira que pudessem tomar sol todos os dias, os quartos que seus filhos ocuparam durante tantos anos estavam exatamente como foram deixados. Ensacados com sabonetes, para não adquirirem cheiro de guardado estavam os lençóis e fronhas. Ele não sabia disso, nem onde estavam, não era seu território. Mas, enquanto a carne assava, achou por bem colocar os colchões sobre as camas. Com tudo em ordem e sem nada para ler ou assistir, parecia a única coisa que restava a ser feita.

Voltando à cozinha, ouviu um carro sendo desligado. Ouviu a voz de uma criança. Não pensou que pudesse lhe dizer qualquer coisa e abaixou-se para retirar a travessa do forno. Fatiava a carne quando ouviu o rangido da porta dos fundos. Depois de tantos anos morando na mesma casa, cada ruído, cada som adquire personalidade própria e alguns ganham até mesmo um nome. O que ele ouviu em seguida era um velho conhecido, mas há muito esquecido. Voz de criança. Dentro de casa. Perguntando incessantemente. Deitando a faca sobre a mesa, abraçou a nora, depois o filho, e ajoelhou-se para cumprimentar a mocinha muito falante. Não a conhecia ainda, às vésperas de seu segundo aniversário. Sorriu como não se via já havia um ano. Sentaram-se todos à mesa e passaram a tarde montando a árvore e decorando a casa, celebrando a vida dos que chegam e lembrando dos que foram.

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Filhotes de Coruja

15/12/2011    Postado em Crônicas, Textos

Culinária é um processo complexo envolvendo ingredientes, receita, preparo e apresentação. A frase não é minha, mas de um chef que foi entrevistado certa vez, numa revista que não lembro mais onde achei. Todos nós cometemos pequenas atrocidades na calada da noite em nossas cozinhas, algo que jamais serviríamos a alguém mas que comemos do mesmo jeito que uma criança raspa o tacho do bolo que acabou de ir ao forno. Essa frase, trazendo uma revelação inconfessável para quem é apaixonado por gastronomia… também não é minha, mas de um crítico culinário. O fato em questão é: todos nós, em algum momento, comeremos um filhote de coruja.

Como este texto não foi escrito por um metaleiro que come morcegos, é evidente o sentido figurado. Filhotes de coruja são algumas das criaturas mais feias que a natureza permitiu existir, atrás apenas do Keith Richards e do Davy Jones (este último tem a seu favor ser um personagem de ficção). Mas eles têm seu valor, porque serão corujas bonitas em algum tempo, e porque são amados pela mamãe coruja. Supondo que a fábula esteja correta e que corujas sejam capazes de amar. O filhote de coruja, portanto, é aquela pequena iguaria que você faz – ou, talvez, comete – no conforto de sua cozinha e come junto ao balcão da pia, meio escondido, porque sente uma pontinha de vergonha dos outros lhe pegarem no ato.

Obviamente, as chances de seu filhote se tornar uma majestosa coruja são mínimas, então fique com a hipótese do amor materno da corujona. Então, aquele queijo curado que deveria ser apreciado da maneira que merece, acompanhado de outros queijos e um pouco de vinho, é fatiado e metido num pão sem-vergonha mas delicioso da padaria de sua esquina, que não é gourmet, não é de portugueses ou italianos e não tem forno a lenha. Ou aquele assado do almoço, antes muito bonito e apetitoso, desfiado e misturado com arroz e farofa. Talvez até mais apetitoso, mas fica feio, bem feio. Ou o supremo sacrilégio, salsichas, macarrão e o molho premiado da sua avó. Não tem importância se ninguém está olhando, certo? O que ajuda a explicar os locais escolhidos para o consumo dessas iguarias.

E é quando ninguém está olhando que fazemos algumas das coisas mais divertidas da vida, como calçar meias pelo avesso e não dar a mínima ou assistir aquele desenho animado que, teoricamente, não é mais para sua idade. Há quem inclua aí o ato de disparar a campainha do vizinho e sair correndo, mas isso não é muito educado. Chinelo com meia. Não, Crocs não pode, é brega até pra usar em casa. Ou talvez seja justamente o ponto dos filhotes de coruja. Feios, matam um de vergonha, mas são tão bons que, quando ninguém está olhando ou quando não se dá a mínima pro que os outros pensam, valem muito a pena. E bom apetite.

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