Diz-me com quem andas

09/02/2012    Postado em Crônicas, Textos

“Você é o que você come” e “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és” são frases muito populares, proverbiais, que nós escutamos ao longo da vida. Normalmente dos pais, professores e médicos, embora estes últimos tenham caído muito em meu critério de obediência depois que flagrei um cardiologista comendo um xis-tudo com bacon duplo. E, como estamos em temporada de “riálite xou”, indo desde aquele-que-não-deve-ser-mencionado ao muito novo projeto, composto de senhoras com grandes quantidades de tempo e dinheiro à disposição, convém avisar já no primeiro parágrafo que este texto não será dedicado a martelar nenhum desses programas. O site que publica para calangos balançarem a cabeça em sinal de concordância tá mais adiante, lá depois da Casa Muito Engraçada do Toquinho, lá dentro dum livro de Nelson Rodrigues.

Silogismos. Se você é o que você come, e absorve o que lê, você é o que você lê. E o que ouve. Sua personalidade e sua criação doméstica traçam os limites, mas você é, verdadeiramente, o que decide que cabe dentro desses limites. E o ser humano tem, neste aspecto, um caráter viral. Aquilo que integra sua essência passa a permear, voluntária ou involuntariamente, quem esteja ao seu redor ou conheça o que você deixou para trás neste mundo. Aí está a presença do segundo provérbio em nossas vidas, embora seja universalmente conhecido por servir de advertência das mães para os filhos, na tentativa de evitar más companhias.

E o grande problema da coexistência dessas duas frases é que o bem ou o mal na segunda é julgado de acordo com o resultado da primeira. Talvez quando for mais velho e (mais) rabugento eu mude de ideia, mas, hoje, eu jamais seria deselegante de declarar em público quais autores me desagradam. É claro que alguém que acompanhe o que escrevo vai pescar referências aos que me agradam, mas não direi explicitamente que desgosto de algum, até por ser profissionalmente deselegante. Sim, eu ainda sou um ilustre desconhecido, mas é o meio em que escolhi viver e tenho de respeitar aqueles que já andaram mais que eu. Por outro lado, eu posso dizer que prefiro escrever textos curtos (o correto seria dizer que não tenho paciência para os longos) e que talvez isso venha de ler Mario Prata, Luis Fernando Verissimo (o verdadeiro, não o da internet), Rubem Fonseca. Por este último, não lembro como, cheguei à excelente Patricia Melo. Pedaços das criações deles todos, vira-e-mexe, vêm à tona, dão um empurrão a uma ideia que estava à deriva, viram referência num texto ou, simplesmente, me divertem, seja por serem engraçados ou por se encaixarem a alguma situação do momento e a coincidência trazer o riso.

O fígado é, talvez o órgão mais importante do nosso corpo. Segundo a medicina chinesa, todas as emoções são processadas por ele, o que explica uma outra frase, “rir desopila o fígado.” Não sei onde achei essa frase, mas é parte do que me levou a optar por uma linha mais leve, mesmo quando o tema do texto é triste. A vida passa rápido, e não faz muito sentido procurar motivos para ser menos alegre. Palavra de temperamental. Então, somos o que comemos, o que vivemos, e, quando uma tampa de bueiro sai voando, você pode ou xingar seu prefeito ou dizer que é um método inovador de transporte vertical. Fazer piada com tragédia alheia não é legal, baixar o calão para fazer “humor”, ofendendo terceiros em nome dum punhado de moedas de prata, é muito deselegante, mas sair do politicamente correto, do corretamente chato, é bom, é divertido, faz bem e, por um bom tempo, tivemos gente que fazia isso muito bem. Vide Costinha, Mazzaropi. Ser o que quisermos não é fazer o que quisermos, mas as duas coisas podem funcionar juntas. Meu primeiro livro está pronto, estou procurando um meio de publicação. Se vender bem, ficarei feliz de morder as orelhas. Se vender pouco, não terei sido o primeiro novato com baixa visibilidade. Mas, no fim da história, se minhas linhas levarem um único leitor além delas, conhecendo outros autores, terá valido a pena.

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A cadência do samba

02/02/2012    Postado em Contos, Textos

Sexta-feira. Dia de vestir branco. Ele não é o único advogado a aparecer no fórum com terno e gravata brancos, camisa azul e sapatos indefectivelmente lustrados, igualmente alvos. Mas, certamente, acredita que é o mais alinhado deles, trajando linho sem uma única ruga. Na roupa. No rosto, o tempo achou lugar para registrar uma longa história. A esta altura da vida, se alguém dentro desse edifício ocupa a mesma função há mais de dez anos, há uma chance quase certeira de ele o conhecer. Não de reconhecer a pessoa e saber que trabalha lá, mas de saber o nome, chegar e cumprimentar, de ser reconhecido e cumprimentado de volta prontamente. Quando ele começou a carreira, apenas uma, talvez duas faculdades formavam seus colegas, de forma que ser conhecido não era difícil. Hoje, não. São tantos, tão numerosos, tão jovens, que exigir lembrança de seus nomes é pedir demais da memória dos antigos funcionários.

Ele não tenta – muito – fingir que não se envaidece com a proximidade que terminou virando uma certa intimidade, com os olhares dos novatos, desejosos de que alguém do outro lado do balcão soubesse seus nomes, que não lhes parecesse invasivo abrir a porta e sentar-se à mesa reservada aos advogados. Ele adentra o cartório com tanta naturalidade, como realmente pertencesse àquele lugar. Não duvide que esse senhor de cabelos engomados e terno branco chegue a saber quantas peças de madeira compõem o piso do lugar. Mas não é na madeira que sua atenção se esconde, que ninguém se engane.

Se os mais velhos lhe conhecem por nome, os funcionários mais novos não são menos prestativos. As funcionárias. Vício antigo, nunca pede nada a um rapaz, só a uma moça. E ali há algumas novatas que não se importam em lhe atender. Pede seus processos, um pouco para cada uma das três, exercita a arte de não se fazer sentir incômodo e, ao mesmo tempo, mantê-las ocupadas, para poder admirar o movimento. Elas vêm, elas vão, e aquele velho advogado de terno branco e olhos atentos não as perde de vista um só minuto. Uma delas apanha um processo e volta ao arquivo, batucando levemente na capa dos autos e rebolando discretamente – mas não muito. E ele senta numa cadeira no meio do cartório e passa meia tarde admirando a cadência bonita do samba.

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Espelhos e miçangas

27/01/2012    Postado em Crônicas, Textos

Salvo ocasiões especiais – e esta não é uma delas – não gosto muito de clichês. Mas aqui vai: o brasileiro é rico. E não estamos falando de riqueza natural, de simpatia do povo, de absolutamente nenhuma característica geográfica ou social. É uma constatação puramente pecuniária. O brasileiro é rico.

Abri minha caixa de correio esta manhã e encontrei dois envelopes de plástico transparente. O primeiro, e menor, veio do meu banco. Meu, não, porque eu sou um reles cliente, dos que mofa na fila toda vez que vai à agência, dos que pagam juros e taxas tão absurdas que só fica faltando o brucutu com taco de madeira na mão para nos cobrar. Esse banco ainda tem a pachorra de posar de bonzinho, praticante de políticas de responsabilidade ambiental, mas, como desta vez e com perturbadora regularidade, manda impressos coloridos e laminados oferecendo coisas que eu já disse que não quero. O que eu quero, um atendimento com a mesma velocidade com que tentam nos empurrar produtos e fazer com que gastemos, eles não fazem.

O segundo envelope, grande, continha uma revista em língua estrangeira, muito bonita, com verniz localizado, mandada por uma grande multinacional que teve a brilhante ideia de criar um sistema de café espresso sem sujeira. Eu gosto muito da minha máquina e do café que ela faz, mas a revista veio mesmo é para poder botar na mesa da sala e dizer que eu falo inglês, sou fino, descolado e gasto uma nota com café. O problema é que eu não sou exatamente fino, sou um bocado antiquado, não gosto dessas coisas de gente esnobe, comprei a máquina porque gosto muito de beber café e, certamente, gasto menos com café do que eles querem fazer parecer. Precisamente porque eles cobram no Brasil mais de três vezes o preço (com impostos) do resto do mundo por cápsula de café e ainda têm o descaramento de colocar a culpa no governo. Vejam bem, o governo não é a virgem do bordel, é a cafetina. Mas essa culpa não é dele.

É nossa. Porque o brasileiro aceita pagar trinta mil num carro que mal devia chegar a quinze. Cigarro e bebidas alcóolicas são mais caros no mundo todo para custear os tratamentos de saúde, mas, mesmo eles, são superfaturados. Sempre botando a culpa no governo. O Executivo e o Congresso Nacional têm responsabilidade pelos lucros obscenos e práticas indecentes das empresas no país, particularmente bens de consumo, automóveis e telecomunicações, mas a carga tributária é mais o bode expiatório que o culpado propriamente dito. Eles dizem que é, a gente acredita, eles cobram até oito vezes o custo final de um livro, a gente paga. E os insumos do livro não são tributados. Nos países sérios, quando o imposto não vem discriminado à parte do preço (ou somado, mas discriminado), as pessoas têm a seu favor a transparência e sabem o valor da alíquota. Tudo, da gasolina à garrafa d’água, é mais caro do que deveria e a culpa sempre vai para os impostos. Mas a gente não assunta, age como crianças de três anos que ouviram essa conversa dos pais e acreditam em cada vírgula. A maior parte do dinheiro que a União e os estados arrecadam anualmente vai pra sabe-lá-onde, o IVA passou da hora de ser implantado em nossa ordem tributária, mas é importante discernir quais são os nossos vilões e onde cada um nos prejudica. É evidente que nós temos de exigir explicações do governo, mas fazer isso não nos libera para sermos as vaquinhas de presépio das empresas. Ouvi dizer que no Japão não há furto de eletrônicos e quase ninguém compra usado porque é tudo muito acessível. Surreal? Para nosso momento, sim. Mas surreal mesmo é um sedã que, lá no Japão, é considerado carro de dona de casa, ser vendido aqui como carro de luxo. E o imperador ainda passeia, todo pimpão, com sua roupa nova. Crente de que ninguém viu que ele saiu com a cueca do Capitão Caverna.

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