A sombra e o rato

24/05/2012    Postado em Crônicas, Textos

Cada época com seu mal e cada geração com seus excessos. Se houve um tempo em que o problema era ousadia demais, agora temos cautela demais. Sofremos por antecipação. Somos como pássaros numa gaiola sem porta. Teoricamente, nada nos impede de sair, mas há uma sombra ali adiante que parece um enorme predador, pacientemente à espreita. Pensamos como seria bom viver fora da gaiola, longe das barras, como seria libertador protestar contra algo que nos fere a alma sem sermos taxados de implicantes, agressivos, politicamente incorretos. Mas lembramos da sombra e do terror que ela representa, num dilema que pode se arrastar por toda uma vida, enchendo nossas vidas com o se e o talvez.

Toda vez que penso nisso, lembro de um filme com Stallone, O Demolidor. No futuro mostrado pelo roteiro, as pessoas usam artefatos curiosos para a higiene pessoal e guardam total isolamento pessoal. Não se tocam. Diabos, tem uma cena onde sexo é feito com a ajuda de uma máquina, sem qualquer contato entre os dois humanos envolvidos. A gente tem se aproximado perigosamente desse cenário. Não, a última parte não parece ser a evolução das salas de bate-papo online. Do que me lembro, vai mais pro lado do atendimento telefônico das operadoras de telefonia e televisão por assinatura. Elas parecem realmente convictas de que a paciência é um órgão sexual.

Uma pedra que posso cantar de olhos fechados: nossa geração será a portadora do maior índice de doenças degenerativas das últimas décadas. Esse ambiente hiperbárico onde ninguém pode ferir os brios de ninguém e meia dúzia, por falta de referência ou excesso de rebeldia, vai pro extremo oposto e quer ofender a todos, frequentemente confundindo isso com humor, isso é doentio. Faz com que a gente guarde dentro da gente coisas que não deviam ficar conosco nem por um dia. Quando, desde suas infâncias, vocês viram propaganda de iogurte especializado em tratar prisão de ventre? No meu tempo, propagadanda de comida era do finado chocolate Surpresa. Esse desafio do iogurte coprogênico passa no horário nobre da TV. E remédios, chego na farmácia e tem um baleiro, daqueles que tinha nas mercearias, cheio de analgésicos. Não é à tôa que vivemos ansiosos e, não raro, deprimidos. A porta da gaiola está aberta, mas ninguém parece se atrever a sair. Se saísse, veria que a sombra vem de um rato, um camundongo. Que não faz medo a ninguém.

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Farinha pouca

08/03/2012    Postado em Crônicas, Diversos

Quem já ouviu falar no ECAD? Também (des)conhecido como Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, esse braço lucrativo da Cosa Nostra organismo obscuro tem por alegada função a arrecadação de valores relativos aos direitos autorais de músicas executadas e despacha às suas vítimas, direto de sua sede no universo paralelo de Fringe Acre, boletos malditos, mais irritantes que a música de seus primos, os pôneis.

A frequência com que o ECAD aparece na imprensa é irregular, mas sempre traz maus sentimentos e resultados ainda piores. Muito como uma prova surpresa na pior matéria de seu curso universitário. Mas o mais incômodo é que, de um lado, atrapalha gente que está trabalhando ou apenas se divertindo e, do outro, não parece beneficiar ninguém. Ou, ao menos, quem deveria receber os tais direitos. Ou os artistas são um bando de ingratos, porque, quando um deles se voltou contra as gravadoras, um monte de grandes nomes saiu na defesa delas. E ninguém parece defender o ECAD, só os boletos malditos.

Uma certa feita, um cantor e compositor me narrou um episódio que ilustra bem a sordidez desse órgão fálico obscuro. Ele aceitou um convite para tocar num evento para levantar fundos para um projeto social. Pouco antes de começar, enquanto passava o som, foi abordado por um sanguessuga fiscal do ECAD dizendo que ele não poderia tocar porque não havia pagado o boleto com a taxa. Uma taxa que seria repassada ao compositor. Que era ele mesmo. Segundo eu soube, o sujeito foi escorraçado pelos organizadores do evento, mas não foi indolor.

Esta semana, eles voltam aos holofotes porque querem começar a cobrar de blogs e sites que executem vídeos de músicas hospedados no Youtube. É claro que isso provocou uma comoção sem tamanho, pelo menos na internet. Mas provocou porque pode ser visto. Ninguém parece se queixar do repasse indelével, na conta do barzinho, da mesmíssima taxa. Que é ridícula, porque o dono do estabelecimento já paga impostos e até a assinatura de TV para pessoas jurídicas já é mais cara para cobrir os direitos de exibição. Farinha pouca, meu pirão primeiro. Pois eu sou escritor, (teoricamente) não ganho nem perco nada diretamente com a porca atuação dum órgão que ninguém sabe a quem presta contas de sua atuação, mas tomo como pessoal seu achaque. Ora, vai que um dia alguém resolve cobrar para que eu publique no site que eu banco do meu bolso o texto que escrevi no computador alimentado pela conta de luz que eu mesmo paguei? E, mesmo que isso nunca aconteça (e é, mesmo, pouco provável, num país de meio continente que perde pra um quarto dele em média de livros lidos por ano), porque deixar passar uma taxa que ninguém sabe para onde vai, apenas porque não saiu (diretamente) do seu bolso? Agora, o flanelinha que lhe extorque vinte reais para estacionar perto do circuito no carnaval, isso incomoda. O preço do combustível, da latinha de cerveja, isso incomoda. A incidência cascateada de impostos ninguém enxerga, mas o preço do smartphone da moda deixa um monte de gente indignado.

Moral da história? Antes da páscoa, ninguém vai lembrar mais do ECAD de novo, só as suas vítimas. E novembro? O que novembro tem a ver com isso? Simples: nada. E tudo. Em novembro as pessoas vão falar de campeonato brasileiro, de que faltam quatro meses pra sair atrás do Chicletão e da periguete moça famosa que teve neném. Dos funcionários públicos superfaturados eleitos um mês antes, ninguém vai lembrar. Nem do ECAD.

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A última que morre

16/02/2012    Postado em Crônicas, Textos

Normalmente, os leitores que visitam o Troca Letra dia de quinta-feira encontram um texto novo. Esta semana, em particular, fiquei satisfeito de não ter atualizado o site, porque as melhores notícias da semana vieram hoje. Em Salvador, o clima é de festa, pelo carnaval que, a esta hora, já começou, na Barra e no Campo Grande. Quem leu o noticiário da tarde viu que, com o voto do ministro Ayres Brito, a constitucionalidade do Ficha Limpa ficou longe das mãos da corja podre que tentou minar seu alcance de todas as formas. Já estará em vigor nas eleições deste ano. Num país cujo povo se mexeu de verdade duas (talvez três) vezes em vinte anos, é uma vitória expressiva.

E não para por aí. Por envolvimento com lobbista, tráfico de influência e outros ingredientes da mesma lama, um desembargador foi aposentado compulsoriamente. Há poucos dias, uma matéria dava conta de associações de magistrados estavam preocupadas com a reforma da lei orgânica da magistratura nacional implicasse na perda de duas regalias que eles consideram importantes. A matéria falava em regalias, a palavra não é minha. Uma delas, as férias de sessenta dias por ano. A outra, a aposentadoria compulsória como pena máxima administrativa. Pois com a punição desse magistrado esta semana, sancionada pelo Conselho Nacional de Justiça, voltaram à pauta os questionamentos sobre essa punição. Todo funcionário público corrupto deve ser punido com demissão e ser impedido de regressar ao serviço público. O magistrado, não, recebe aposentadoria integral. Um jornalista chamou, com propriedade, de prêmio a punição máxima. Mais pessoas vêm falando, e, pelo tom dos discursos, se não caírem os dois meses de férias, cai a aposentadoria compulsória. Deviam ser os dois, mas se essa última, só, cair, já é motivo para festejar.

Então, eu vivo dizendo que [Charles] de Gaulle tinha razão quando disse que o Brasil não é um país sério. Ele morreu negando a autoria, mas nunca convenceu ninguém. E a gente acaba concordando, mesmo, quando vê um senador ser pego com a boca na botija, contratando filha de segundo suplente, e dizendo, mas não provando, que ela nunca recebeu salário quando a imprensa divulgou que ela nunca pôs os pés lá. Quando vê o prefeito ser flagrado bancando o turista em Copacabana e o governador visitava Havana, quando a coisa aqui estava estourando. Mas aí chegam notícias como essas e a gente renova a esperança de que, um dia, de Gaulle (ou quem tenha sido autor da frase) não volte a estar certo.

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