Archive for the ‘Textos’ Category

Entrega

14/03/2013    Postado em Crônicas, Textos
 

Entregar algo não significa desistir. Aquele momento em que você reconhece que determinada situação ou coisa já não está – ou nunca esteve – em suas mãos e dá conta de que o melhor a fazer é, precisamente, parar de agir não representa fraqueza ou derrota.

Fraqueza é nunca agir, viver na inércia, sobre o muro. Derrota é jogar a toalha enquanto ainda há jogadas viáveis no tabuleiro. Enxergar até onde ir, quando esperar um pouco para dar o próximo passo ou simplesmente deixar o tempo produzir seu resultado, na verdade, é bom. É discernimento. É sabedoria. Mas aceitar que o mundo é maior que nossa vontade e que o oceano não acaba no horizonte é uma serenidade que pode custar um ano ou uma vida para atingir-se.

Toda vez que conseguimos nos desprender de uma dessas situações em que nossa ação já é desnecessária e aceitamos genuinamente o resultado, este calha de ser o melhor cenário possível. Pode levar um tempo enxergar e até mais tempo que o que nos resta de vida aceitar, mas é difícil que essa conta não feche. E é assim que não enxergamos que a porta recém aberta na carreira resulta da que fechou, que a chegada de alguém em nossa vida íntima dependia daquele lugar estar disponível e que o fim do sofrimento de um ente querido, pela recuperação ou pela derradeira partida, nunca é algo triste ou ruim. A gente só precisa enxergar fora de nossa perspectiva.

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Mãos ao alto!

07/03/2013    Postado em Contos, Textos
 

– Irmão, cê tem horas?

– Uhum, são…

Ele sentiu o cano frio do revolver na barriga.

– Seguinte, véi, isso é um assalto. Passa a carteira.

Ele passou.

– Vinte conto? Só?

– É, cê sabe como tá perigoso andar com dinheiro.

– Tá insinuando o que, moral? E essa tua carteira chique vale bem mais do que tem dentro dela.

– Fica com ela. Mas deixa os documentos, pode ser?

– Pode. Agora passa o relógio, anda.

– Que relógio?

– Tá me tirando, esperto? E essa marca no pulso é o que? Te parto a cara, viu?

– Eu saí sem relógio, tá no conserto, só fica pronto amanhã.

Bolsos apalpados, nada de relógio.

– E cadê o celular? Ninguém sai sem celular, cadê o teu? Passa logo!

– Rapá, me bati com um colega seu ontem. Celular, cartão de banco… só deixou carteira e documentos.

– Tu é azarado mesmo, hein? Né comigo não. Só tem a aliança, vai ela mesmo.

De olhos arregalados, ele explodiu.

– Mas nem a pau, Juvenal!

– Mermão, tá lembrado quem tá com a arma na mão? Quer morrer, maluco?

– Com a mulher que eu tenho? Faz um favor e atira logo na minha cabeça.

– Tá maluco mesmo, hein?

– Maluco eu seria de chegar sem aliança. Sem carteira, telefone, roupa, tudo bem. Sem aliança? O que ela vai fazer é muito pior que levar tiro. Tu só leva essa me matando, tô dizendo.

Nessa hora, toca o telefone do ladrão e tudo o que se ouve são berros do outro lado da linha.

– Tô te entendendo, véi. Seguinte: dá os vinte, toma esses dez e nunca conte isso pra ninguém ou eu te acho e te encho de porrada.

– Agora você me deixou confuso. Mas tá, valeu, eu acho.

– Confuso vou ficar eu de porrada se me atrasar pra levar o moleque no médico. Se a tua for braba como a minha, melhor tu tomar teu rumo também. Vaza daqui!

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Bom oportunismo

28/02/2013    Postado em Crônicas, Textos
 

O ser humano é um tipo único de animal. A espécie mais próxima tem código genético mais de 95% semelhante ao nosso, mas temos dedos opositores, andamos eretos e temos um cérebro bem mais complexo, capaz de, entre outras coisas, articulação de linguagem oral e escrita – embora haja o perigo latente dessa habilidade cair em desuso, ensina a internet. Temos a pretensa exclusividade da consciência da personalidade e dividimos a noção de finitude com poucos animais, como os elefantes. Ainda assim, temos uma dificuldade tremenda de enxergar além dos nossos horizontes.

O primeiro parágrafo me deu a impressão de que o texto tomou outro rumo, mas isto é uma crônica, de como é difícil para nós, humanos, perceber a real dimensão das coisas que nos acontecem. Parece até fisiológico, é como uma formiga se dar conta de que o gramado não é a Amazônia. Você se atrasa dez minutos e encontra vaga no estacionamento que vive cheio. Passa a vida entre relacionamentos pessoais e profissionais desastrados e, de súbito, algo extraordinário lhe acontece justamente quando você joga a toalha. Como o “não existe almoço grátis”, nada do que nos acontece de bom é gratuito. Provavelmente o mesmo vale pro que nos acontece de mal, mas eu é que não cutuco esse vespeiro.

Ensino médio, Segundo grau, Científico. Varia de acordo com a sua idade, mas nessa época é quando o professor se esgoela para nos ensinar física clássica. Quando você brinca com o pêndulo de Newton e a bola na ponta oposta pula, é o mais didático exemplo de ato e consequência que vai ter. Basicamente, tudo o que fazemos é composto de módulo, direção e sentido. Ainda que não sejamos capazes de visualizar, tudo o que mandamos para o mundo vai voltar. Não é uma questão de “se”, mas de “quando”.

Então, se o seu chefe acordou de bom humor depois de lhe maltratar sistematicamente e lhe deu um aumento, ficar feliz e abraça-lo não é indício de síndrome de Estocolmo, acalme-se. Você plantou, tem todo o direito de colher e ficar feliz por isso. O mesmo para aquela pessoa que lhe cativou depois de anos se esforçando para encontrar alguém, justamente quando você havia desistido. Ou aquele dinheiro que chegou na hora do sufoco. Ou um sanduíche pouco saudável. Se você fez tudo certinho, não há mal nenhum em curtir essas oportunidades que a vida lhe apresentou. São a sua paga. Agradeça e aproveite. Apenas tenha em mente que, se você deveria ter recebido um pedaço de carvão em lugar da bicicleta que achou sob a árvore de Natal, a vida vai lhe cobrar mais adiante. E se, como foi comigo, ela lhe ensinou isso logo cedo, use a visão conquistada a seu favor e a favor dos outros. Mais dos outros, até. Nada passa despercebido e amanhã sempre será outro dia.

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