Archive for the ‘Textos’ Category

O Padroeiro

12/05/2011    Postado em Contos, Textos
 

Existe esse grupo, dentro da espécie humana, dotado de uma singular deficiência visual a que é apropriado chamar miopia quadrienal. Curiosamente, tal incapacidade de enxergar coisas mais distantes que o período de quarenta e oito meses é comum em um tipo específico de profissão na terra do poeta que disse que sabiás cantam em palmeiras. Pessoalmente, eu nunca vi um sabiá pousar numa palmeira, mas já testemunhei vários portadores de miopia quadrienal nesse campo profissional a que me refiro. Um que, estranhamente, também é marcado pela repetitividade de figuras, por razões que me furto a analisar no momento. A política nem sempre é dotada de razão, afinal.

Enfim, havia um evento de porte jamais testemunhado por quaisquer dos políticos viventes naquele tempo e quem quer que estivesse no comando da máquina pública faria o possível para assinar a chegada daquela festa em sua terra. E, dito isto, mandaria fazer toda sorte de obra e adaptação que se fizesse necessária à realização do evento, mesmo que o custo fosse a falência dos cofres públicos ou o desmoronamento da estrutura meses depois. Contanto que estivesse tudo lindo e maravilhoso na época dos festejos, era disso que o povo iria lembrar. Defunto não tem defeito, dizem, e político sem mandato só é lembrado pelos pontos muito altos ou muito baixos de sua gestão. E até dos muitos baixos as pessoas esquecem, basta uma festinha meses antes da eleição, pois, se a memória dos políticos é quadrienal, a do povo, a do povo… essa dura uns seis meses, e olhe lá.

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Segundo domingo

05/05/2011    Postado em Contos, Textos
 

As flores esperam caprichosamente arranjadas. Buquês de rosas vermelhas, amarelas e brancas, ikebanas de gérberas vermelhas, jarros de orquídeas brancas. Nem bem nasceu o sol e o florista abriu suas portas, já com um cliente à sua espera.

O ambiente frenético já sinalizava que ele próprio não poderia dispensar a equipe e chegar para o almoço a tempo. É dia das mães, e a bancada teve de ser inteiramente reposta antes das nove da manhã, enquanto um misto de calma e impaciência permeava a clientela. No chão, nos fundos, pedaços de caules, folhas, retalhos de fita – não era comum a bagunça no dia-a-dia, mas um minuto pode significar um cliente atendido, a depender da pressa dele.

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Bonecos de Bolo (Parte III)

28/04/2011    Postado em Contos, Textos
 

Ela achou um bocado esquisito, entretanto, quando encontrou a dona da melhor loja de vestidos de noiva da cidade e ela lhe disse que tinha visto o escultor logo cedo, e que ele parecia estar muito bem. Não pelo que achou a senhora, mas por ele não ter mencionado nada. Provavelmente, era sobre alguma cliente em comum. Terminou esquecendo o assunto, absorta em trabalho. Uma noiva lhe havia encomendado uma ideia muito boa, mas igualmente trabalhosa. Servir os bem-casados em forma de mini bolos. A receita que escolheu requeria que fossem assados no dia, embora a massa pudesse ser feita com antecedência. Deu cabo do pedido, mas a recíproca foi verdadeira e, naquela noite, falou com seu escultor apenas por telefone e por uns poucos minutos. Tinha até sido convidada para o casamento que ajudou a preparar, mas faltaram-lhe forças.

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