Archive for the ‘Textos’ Category

Mesa para dois

27/10/2011    Postado em Contos, Textos
 

Uma mesa comum de restaurante. Nada de especial em suas toalhas ou na vela que divide seu centro com uma flor dentro de um pequeno jarro. É uma mesa com duas cadeiras, em um canto, uma das faces voltada contra a parede. Uma simples mesa para dois.

 Que histórias contaria se pudesse falar? Quantos sorrisos e quantas tristezas terá testemunhado? Sentimentos tão humanos que não são notados pelos que passam junto à mesa ocupada. Incontáveis, anônimos, ignorados. Mas a mesa não os menospreza. É sobre seu tampo que brota a mais pura expressão da humanidade. Quatro cotovelos, quatro mãos entrelaçadas, um estojo, uma aliança. Quantas vezes, quantos casais não selaram compromisso ali? Alguns deles, também sobre seu tampo, romperam laços. Mas é a vida, afinal, e seu amigo coxo, com algumas passeadas, resolverá tudo.

 A mesa que viu amores nascerem e morrerem também viu negócios sendo fechados, notícias boas, notícias ruins, toda sorte de coisas contadas por pares. Às vezes, passava semanas inteiras sem ver ninguém, às vezes era disputadíssima. Ela, que testemunhou a esposa contando ao marido de sua gravidez, o casal de namorados já maduros e ainda com a chama da paixão acesa, o casal que buscava um pouco da intimidade roubada pelos filhos…

 Todo ano, no dia dos namorados, as outras mesas eram desmembradas para atender aos casais, que raramente vinham acompanhados de outro casal. Ela, contudo, jazia tranquilamente no mesmo lugar de sempre, disputada pelos casais. Havia um casal que, anos a fio, comparecia religiosamente na semana do doze de junho. Nunca no dia doze, mas sempre um ou dois dias antes e sempre no almoço. A penumbra que cobria como um véu a mesa os resguardava do mundo. Amantes? Pois sim, como todos os outros casais que lá estiveram antes. Como todos os que virão. Sim, amantes, e no termo mais comum. Viam-se pouco, mas com paixão imensurável. Tinham suas famílias e quiçá o esforço que faziam para poderem encontrar-se tornasse o sentimento de ambos ainda mais forte. A mesa não julga, contudo. Não se prende a detalhes tão pequenos. Tudo o que lhe importa é o sentimento, seja de amor, felicidade, tristeza, sucesso, melancolia, seja do que for. Talvez sua sobrevida deva-se justamente a essa coleção de sentimentos. Talvez seja a penumbra que lhe envolve. Mas… ora, é só uma mesa, ordinária e comum, com uma toalha, um jarro com flor, uma vela e duas cadeiras. O que explica a atração de um casal por um lugar como este, se para um sentimento verdadeiro não há explicação?

(Arquivo pessoal, 2008)

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Não fale com estranhos

20/10/2011    Postado em Crônicas, Textos
 

Que o mundo é cheio de gente com as mais loucas ideias, todo mundo sabe. Mesmo quem nega e acha que nós vivemos numa sucursal do Éden sabe, porque até as criaturas imaginárias, que essa pessoa muito bem equilibrada diz que vê, devem saber. Mas tem coisas que desafiam a imaginação e a criatividade do ser humano. Coisas que só se vê acontecer num livro de Nelson Rodrigues.

Todo mundo, ou quase, recebeu instruções expressas dos pais, quando criança, de olhar para os dois lados antes de atravessar e não falar com estranhos. A maior parte de nós esqueceu essa recomendação quando entrou na adolescência e passou a achar que sabia de tudo das coisas do mundo e os pais não sabiam de coisa alguma. Pois eu descobri que aquele é um dos mais valiosos conselhos que alguém pode receber. Não literalmente, mas, se o alcance de suas palavras for bastante ampliado, vai passar além do estranho de quem não se conhece ao estranho de quem é… bem, estranho.

É como a outra vez em que um senhor que, desconfio, não regulava muito bem das ideias percebeu que eu estava olhando em sua direção e me pegou pra ouvinte, naquilo que se tornou uma das maiores roubadas em que entrei. O grande problema é que a gente não tem como prever quão estranha é uma pessoa que não era um problema social grave da última vez em que você a viu. Até porque nenhum de nós é inteiramente normal, e a gente tende a se basear nos nossos parâmetros para classificar o grau de insanidade dos outros. A encrenca nasce quando você descobre que falhou em prever um potencial problema ao dar conversa a alguém e acabou armando uma bomba, que vai acabar explodindo mais tarde.

E nessa, aquilo que parecia uma simples atualização de contato profissional termina se revelando um portal interdimensional que lhe atira dentro duma história de Nelson Rodrigues. Evidente que, se eu fosse escolher ser arremessado no meio dos problemas alheios, ia preferir cair num texto de Luiz Fernando Veríssimo. Mas, quando não lhe é brindada a escolha, o jeito é fingir que não está lá, naquele quadro encenado por pacientes do célebre Simão Bacamarte de Machado de Assis, e sair à francesa. Vai saber. O melhor, quando você não conseguiu evitar falar com gente tão estranha, no fim das contas, é deixar que eles falem entre si. Ou berrem. Ou se ataquem. Qualquer coisa, desde que a vida deles fique sendo como é, sem você fazendo parte dela.

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O cachorro

13/10/2011    Postado em Contos, Textos
 

Sem hora específica, o labrador de longos pelos dourados cumpria um ritual diário. Ia até a caixa onde ficavam as suas coisas, nos fundos da casa, apanhava a correia de sua coleira, levava-a à sala e a punha sobre a poltrona de seu dono. Minutos depois, sem nunca esperar demais, ouvia a porta se abrir e, com o cheiro da rua, os passos dos indefectíveis sapatos de couro cheirando a graxa e muito lustrosos. O rosto do dono ele não conhecia nos mínimos detalhes, porque cães não dão muita importância a isso. Mas era capaz de adivinhar até que camisa ele usava. O cheiro. Conhecia o cheiro de seu dono e de cada objeto, e até o ajudava a encontrar algo, porque também sabia os nomes. Era muito fiel, aprendeu desde cedo a comer apenas o que lhe fosse dado por ele, diretamente de suas mãos. Não encostaria os dentes em outra coisa. Cuidava de seu dono e sabia o quanto ele também o cuidava e queria bem.

Dez minutos depois de colocar a correia sobre a poltrona, abriu-se a porta e seu dono o encontrou deitado, cabeça sobre as patas, olhando fixamente em sua direção. O rabo, quieto, começou a abanar pesadamente assim que teve certeza de que havia sido notado. Sabia que seu passeio não começaria de imediato, ele sempre gostava de colocar uma roupa mais leve e um calçado mais confortável, sempre depois de colocar a pasta, a carteira e as chaves sobre uma escrivaninha e abaixar-se para lhe coçar a orelha. Roupa trocada, nenhuma palavra era necessária, pois já era esperado à porta de casa por um cão de correia na boca, ansioso por se exercitar.

Mais do que exercício, ele ficava contente em sentir o chão irregular sob suas patas, o cheiro das flores da casa da vizinha, o cumprimento dos outros moradores da rua, que sempre lhe coçavam a orelha. Sabia, também, que o passeio fazia bem ao seu dono. Menos quando chovia. Se ele sentisse que ia chover, não colocava a correia sob a poltrona, e isso confundiu um pouco seu dono no começo. Ele queria sair para caminhar e levar o cachorro junto, mas o bicho empacava e não havia quem o tirasse do lugar. Uns poucos instantes de insistência e a chuva começava, às vezes branda, às vezes já com violência. E o cão olhava para o humano de um jeito que este tinha a nítida impressão de que estava sendo comunicado de que tinha perdido a aposta. Vencido, sentava-se na poltrona e sua perna recebia a cabeça de seu amigo quadrúpede. Que não pedia atenção. Exigia. Enfiava o focinho por sua mão até que os dedos atingissem a orelha. Nas noites mais frias, deitava-se cobrindo os pés de seu dono enquanto este via a programação da televisão ou lia um livro. Depois, em uma sincronia quase combinada, cochilavam uns pares de minutos e iam para o quarto, o maior para a cama, o menor para sua manta de lã, cuidadosamente disposta ao lado da cabeceira.

Houve um dia em que, sentindo-se mal, ele chegou em casa mais cedo. Tinha febre, um pouco de dor. Encontrou sua poltrona paramentada com a manta que deixou secando no quintal e seus chinelos logo ao lado. O cachorro não estava lá, ao lado da poltrona. Veio rapidamente ao ouvir a porta abrir, trazendo na boca um balde. Foi o tipo de coisa que jamais teria dado certo se combinado, porque o almoço resolveu sair bem na hora em que o balde chegou. Ligeiramente prostrado, limpou a boca com um lenço e se levantou. O cão levou o balde embora para o quintal e voltou para vigiar o dono. Naquela tarde, não colocou a cabeça no colo dele, mas fez com que fosse para a cama e garantiu que estivesse devidamente coberto o tempo inteiro. Ensopado, acordou refeito e percebeu que o cachorro não havia saído de onde esteve a noite inteira, sentado e olhando em sua direção. A manta estava tão esticada quanto na véspera, provando que não fora usada. Sorriu e foi lambido. Saiu para trabalhar sob protestos. O cão latia bastante, mas ele precisava ir, tinha muito a fazer e já se sentia melhor.

Quando o horário que não seguia o relógio chegou, o cachorro foi até os fundos da casa, apanhar sua correia. Com um passo taciturno, chegou ao lado da poltrona, mas não colocou nada sobre a almofada do assento. Nem se deitou aos seus pés. Devagar, foi até o quarto, subiu na cama de seu dono, e deitou a cabeça sobre seu travesseiro. E cheirou. Seguidamente, cheirou, como quem não queria esquecer jamais alguém que, sabia, não poderia voltar, porque havia partido irremediavelmente.

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