Archive for the ‘Textos’ Category

Humanidade

17/11/2011    Postado em Contos, Textos
 

Cedo, quando ainda estariam acordando, chegavam as pessoas. Olheiras, bocejos, crianças nos colos das mães, pescoços relaxados em protesto por terem sido arrancadas da cama tão cedo. Um dia frio, daqueles em que até o sol tem preguiça de aparecer. Em absoluto contraste a este cenário, elegante como deve ser, entra uma senhora de vestido bege com bordados esmeralda. Gentil, mas nunca expansiva, com movimentos calmos, mas sem lentidão e com uma leve maquiagem. Sentou-se para aguardar sua vez.

Chamou a atenção das outras pessoas exatamente por não chamar nenhuma atenção. Era como se nada lhe atingisse, e isso ficou evidente quando a criança no colo da jovem ao seu lado desatou num choro escandaloso. Ela não fez nenhuma expressão de desagrado. Na verdade, praticamente não esboçou qualquer reação. Sem querer constranger a jovem, sorriu-lhe com discreto olhar de compreensão. Não escondia a idade e parecia óbvio que já tivera sua cota de choro infantil quando jovem.

Não parecia ter pressa. Na verdade, não parecia ter nada para fazer naquele lugar. Era um pouco como se tivesse ido para conhecer ou passar o tempo. Trazia apenas uma bolsa-carteira e uma pequena sacola de papel com a marca de renomada grife italiana. Segurava-a com zelo, enquanto a carteira apenas ficava deitada sobre seu colo. Diante de toda sua discrição, aquele gesto deixou claro que o conteúdo da sacola devia ser muito importante.

Esperou apenas alguns minutos antes que lhe dissessem que ela seria a próxima. Sorriu e acenou com a cabeça, abaixando os olhos. Levantou-se, não é possível saber se para beber um copo d’água ou se isso foi apenas uma desculpa para ceder o lugar a outra senhora que chegava naquele momento, andando com certa dificuldade. Quando passava junto ao balcão, um rapaz a convidou para sentar e iniciar o atendimento.

Mesmo diante de uma bancada de madeira, sentou-se cuidando para que o vestido não ficasse de maneira inapropriada. Tirou seus documentos da bolsa-carteira sem, contudo, permitir que a sacola de papel saísse de seu campo visual. Respondeu a todas as perguntas que lhe foram feitas pelo rapaz da mesma forma que agiu desde que chegou. Em dado momento, a resposta não foi verbal. Sorriu de maneira um pouco menos discreta e, como quem abre uma arca do tesouro, retirou, cuidadosamente, da elegante sacola seu conteúdo tão precioso: suas amostras de urina e fezes.

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Duas voltas

11/11/2011    Postado em Crônicas, Textos
 

Todos nós deveríamos ter por obrigação fazer uma faxina em nossas vidas regularmente. Não, a agenda do telefone não conta. Ela existe por causa do que vivemos e não o contrário. Há algumas semanas, uma pessoa me disse que precisava se desfazer da maior parte dos discos que tinha, mas o fator motivacional para a faxina era físico. Faltava-lhe espaço e algo teria de sair. Venho passando por uma faxina maciça nos últimos tempos, culminando com uma limpeza da casa, daquelas que consomem um dia inteiro, e cheguei à conclusão de que o raciocínio está ao contrário. Não tiramos coisas da nossa vida porque temos coisas demais. Ou não deveríamos. Sabe, o problema é exatamente esse: por termos coisas (ou pessoas, se este for o seu caso) nas nossas vidas é que coisas novas deixam de chegar ou acontecer.

É, portanto, para renovar que devemos fazer a limpeza. Eu me desfiz de, talvez, 90% dos meus discos. Destes, pelo menos um quinto já não fazia parte do meu gosto musical, mas ainda estava lá porque, bem, eram meus. Ou assim eu achava. Desde muito cedo, gosto de música. Tive um discman quando você gastava mais dinheiro em um ano com baterias do que o aparelho valia, e ele era caro. Mas a música não faz parte dos discos, eles meramente a contêm. E, assim, eles vão embora. O mesmo vale para impressões de fotos que já estão amareladas ou já perderam o sentido. Ou uma peça de decoração envelhecida demais pelo uso. Qualquer coisa que, sem raciocinar, você não consiga pensar no que ela está fazendo ali, fatalmente, está sobrando. E pode ir embora.

O fato é que não se deve tentar aproveitar tudo. Quem tenta dar um uso a cada coisa que cruza seu caminho ou a guarda para quando isso for possível – e eu guardo esta lição para mim mesmo – devia saber que, em algumas culturas, insetos são comida. Baratas inclusas. Aqui, da forma como eu vejo, baratas só seriam alimento se meu inseticida pudesse se alimentar.

Se você já leu coisas na internet o suficiente, sabe que criou-se um hábito esquisito de dar a uma pessoa o crédito por algo que ela não fez. Em alguns casos, isso é elogioso, mas, na maioria deles, é ofensivo – para quem recebe o crédito de autoria. Em todo caso, isso é assunto para outro texto. E, quando uma pessoa sai de sua zona de conforto para faxinar as coisas, volto a falar de casa porque um sábio chinês (que não era Nietzsche, o alemão, mas Confúcio), disse que antes de mudar o mundo, devemos dar duas voltas em nossa própria casa. Mudar é bom. A água que fica muito tempo parada num jarro, por mais limpa que pareça, fica turva com o passar dos dias e até um limo vai ser formando na borda. A borracha que fica sem uso resseca e torna-se quebradiça. Escolha sua analogia ou sua metáfora, ela provavelmente será verdadeira. E lembre, quando tirar de casa os vários sacos azuis ou pretos, cheios de coisas que não lhe pertencem mais, que novidades vêm por aí.

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Síndrome de Lázaro

03/11/2011    Postado em Contos, Textos
 

Vestia um pesado sobretudo negro de lã. Era uma noite sem luar e, apesar de agasalhado, sentia frio. Gelado até os ossos, sem lembrar como havia chegado numa casa de aparência tão desolada. Olhou para si mesmo e notou que, além do sobretudo de gola levantada, vestia uma calça, sapatos de verniz, gravata borboleta e uma camisa. Tudo negro, menos a camisa, que era branca e não tinha um mísero vinco. Dentes postiços. Era a noite de 31 de outubro, de forma que ele estava fantasiado de vampiro, logicamente. A mesma lógica não seria capaz de lhe explicar seu paradeiro até aquele exato ponto onde estava e a sua última memória era de muitas horas antes, mas isso lhe pareceu estranhamente irrelevante. Abriu o portão e, logo após entrar no quintal, foi cumprimentado pela árvore sem folhas que estava junto à cerca.

Racionalmente, ninguém espera ser cumprimentado por uma árvore, muito menos por uma árvore morta. Felizmente, antes que pudesse duvidar de sua sanidade mental, certificou-se de que era um outro convidado dentro de um tronco falso e que ele estava bem vivo. Sorriu, primeiro aliviado e depois com a constrangedora sensação de que não era competente o bastante em esconder do homem-árvore que não lembrava dele, especialmente considerando que foi cumprimentado pelo prenome quando todos os que o conheceram na vida adulta usavam apenas o sobrenome. O árvore (com o artigo no masculino porque o ocupante da casca era um homem) não pareceu compreender o esquecimento ou estava simplesmente bêbado. A noite estava morna, mas aquele frio continuava a lhe doer os ossos. Crianças vestidas de elfos corriam pelo jardim salpicado de folhas secas carregando lanternas plásticas em formato de abóbora.

Um grande amigo que foi morar fora depois da faculdade e nunca mais lhe deu notícias foi quem abriu a porta da casa. Era – ou queria ser – Hamlet, com direito a um crânio na mão. A magreza excessiva permanecia e continuava sendo escancarada por um sorriso largo e sincero. Um tapa nas costas e a informação de que a caveira não era real vieram a seguir e o tranquilizaram, já que aquele amigo que ele conheceu jamais tocaria em restos mortais de bicho algum, muito menos se fossem humanos. Quis saber das novidades de todos aqueles anos e seu amigo lhe contou que casou com aquela moça bonita que todos evitavam porque tinham medo de irritar alguém com fama de abrir as cartas e fazer vodu. E só a primeira parte da fama era verdadeira, garantiu. Ao vê-la chegando, exclamou um “não morre mais”, que foi recebido com certo constrangimento por seu amigo. Ela, de seu lado, sorriu discretamente e disparou, “não, mesmo”. E tomou-o pelo braço sob o pretexto de reapresenta-lo a todos os colegas que compareceram à festa. Ela própria havia organizado e enviado os convites e estava muito contente de ele ter comparecido.

A casa era da avó de sua anfitriã e foi construída num estilo em que a fachada não deixava ver todo o seu tamanho. Tinha, pois, a largura de um cômodo e meio, mas era longa o bastante para acomodar outros seis. E tinha dois pavimentos, também. Estava cheia de pessoas vestidas das formas mais curiosas. Ela, a esposa de seu amigo, não saiu muito do óbvio e vestiu-se de cartomante, à moda cigana, com saia rodada, de cores vivas e elegantemente enfeitada. Baseado nas fantasias descobriu que o campeão de dominó da faculdade era o Frankenstein, o orador da turma um caça-fantasmas e que frequentou as mesmas aulas do lobisomem e da bruxa de João e Maria. O melhor aluno de sua turma era o corcunda de Notre Dame e a sua professora favorita, numa mostra incrível de bom humor, apareceu-lhe coberta de ataduras envelhecidas. Fez uma máscara para facilitar mostrar o rosto ou ninguém lhe reconheceria, a despeito do que alguns alunos que encontrara lhe haviam insinuado. Essa última tirada arrancou uma longa gargalhada de seu antigo aluno. Mas essa risada o fez sentir algo estranho. A cartomante percebeu. Com a voz calma, disse-lhe que tudo ficaria bem depois de dois gritos e sete pancadas. Ele não entendeu, mas supôs que era alguma referência à decoração da casa. Talvez um relógio modificado. Seus ossos doíam.

Uma mão tão fria quanto o frio que lhe castigava por dentro tocou-lhe o rosto com a suavidade de uma brisa matutina. Virou-se e ficou lívido, mas ninguém poderia dizer porque a densa maquiagem tornava privada qualquer indiscrição de sua pele. Vestida de vampira, como fosse capaz de adivinhar a fantasia que ele usaria naquela noite, ali, diante de seus olhos, estava uma antiga namorada. Uma pessoa com quem ele esteve quase todos os momentos de uma década inteira, desde o colégio até pouco depois da formatura. Não a via desde… desde o acidente. Dois anos após a formatura, quando já pensavam em casamento, ela simplesmente se desligou, durante um almoço. Sentiu uma dor de cabeça repentina e parou de falar, de respirar, de tudo. Um aneurisma havia se rompido. Ela não podia estar ali. Melhor: ele não devia estar ali.

Foi aí que se deu conta de que tudo não passou de um sonho, ou pesadelo, ou uma alucinação, polvilhada de pessoas que não estavam mais vivas. E que ele não era uma delas. Despertou, em meio a um forte cheiro de flores. Sentou-se, descobriu-se na sala de casa, expulsou dois chumaços de algodão das narinas com um espirro violento. Dois gritos, sete baques surdos. Agora sabia que tudo ficaria bem. Para ele, pelo menos.

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