Archive for the ‘Crônicas’ Category

Duas voltas

11/11/2011    Postado em Crônicas, Textos
 

Todos nós deveríamos ter por obrigação fazer uma faxina em nossas vidas regularmente. Não, a agenda do telefone não conta. Ela existe por causa do que vivemos e não o contrário. Há algumas semanas, uma pessoa me disse que precisava se desfazer da maior parte dos discos que tinha, mas o fator motivacional para a faxina era físico. Faltava-lhe espaço e algo teria de sair. Venho passando por uma faxina maciça nos últimos tempos, culminando com uma limpeza da casa, daquelas que consomem um dia inteiro, e cheguei à conclusão de que o raciocínio está ao contrário. Não tiramos coisas da nossa vida porque temos coisas demais. Ou não deveríamos. Sabe, o problema é exatamente esse: por termos coisas (ou pessoas, se este for o seu caso) nas nossas vidas é que coisas novas deixam de chegar ou acontecer.

É, portanto, para renovar que devemos fazer a limpeza. Eu me desfiz de, talvez, 90% dos meus discos. Destes, pelo menos um quinto já não fazia parte do meu gosto musical, mas ainda estava lá porque, bem, eram meus. Ou assim eu achava. Desde muito cedo, gosto de música. Tive um discman quando você gastava mais dinheiro em um ano com baterias do que o aparelho valia, e ele era caro. Mas a música não faz parte dos discos, eles meramente a contêm. E, assim, eles vão embora. O mesmo vale para impressões de fotos que já estão amareladas ou já perderam o sentido. Ou uma peça de decoração envelhecida demais pelo uso. Qualquer coisa que, sem raciocinar, você não consiga pensar no que ela está fazendo ali, fatalmente, está sobrando. E pode ir embora.

O fato é que não se deve tentar aproveitar tudo. Quem tenta dar um uso a cada coisa que cruza seu caminho ou a guarda para quando isso for possível – e eu guardo esta lição para mim mesmo – devia saber que, em algumas culturas, insetos são comida. Baratas inclusas. Aqui, da forma como eu vejo, baratas só seriam alimento se meu inseticida pudesse se alimentar.

Se você já leu coisas na internet o suficiente, sabe que criou-se um hábito esquisito de dar a uma pessoa o crédito por algo que ela não fez. Em alguns casos, isso é elogioso, mas, na maioria deles, é ofensivo – para quem recebe o crédito de autoria. Em todo caso, isso é assunto para outro texto. E, quando uma pessoa sai de sua zona de conforto para faxinar as coisas, volto a falar de casa porque um sábio chinês (que não era Nietzsche, o alemão, mas Confúcio), disse que antes de mudar o mundo, devemos dar duas voltas em nossa própria casa. Mudar é bom. A água que fica muito tempo parada num jarro, por mais limpa que pareça, fica turva com o passar dos dias e até um limo vai ser formando na borda. A borracha que fica sem uso resseca e torna-se quebradiça. Escolha sua analogia ou sua metáfora, ela provavelmente será verdadeira. E lembre, quando tirar de casa os vários sacos azuis ou pretos, cheios de coisas que não lhe pertencem mais, que novidades vêm por aí.

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Não fale com estranhos

20/10/2011    Postado em Crônicas, Textos
 

Que o mundo é cheio de gente com as mais loucas ideias, todo mundo sabe. Mesmo quem nega e acha que nós vivemos numa sucursal do Éden sabe, porque até as criaturas imaginárias, que essa pessoa muito bem equilibrada diz que vê, devem saber. Mas tem coisas que desafiam a imaginação e a criatividade do ser humano. Coisas que só se vê acontecer num livro de Nelson Rodrigues.

Todo mundo, ou quase, recebeu instruções expressas dos pais, quando criança, de olhar para os dois lados antes de atravessar e não falar com estranhos. A maior parte de nós esqueceu essa recomendação quando entrou na adolescência e passou a achar que sabia de tudo das coisas do mundo e os pais não sabiam de coisa alguma. Pois eu descobri que aquele é um dos mais valiosos conselhos que alguém pode receber. Não literalmente, mas, se o alcance de suas palavras for bastante ampliado, vai passar além do estranho de quem não se conhece ao estranho de quem é… bem, estranho.

É como a outra vez em que um senhor que, desconfio, não regulava muito bem das ideias percebeu que eu estava olhando em sua direção e me pegou pra ouvinte, naquilo que se tornou uma das maiores roubadas em que entrei. O grande problema é que a gente não tem como prever quão estranha é uma pessoa que não era um problema social grave da última vez em que você a viu. Até porque nenhum de nós é inteiramente normal, e a gente tende a se basear nos nossos parâmetros para classificar o grau de insanidade dos outros. A encrenca nasce quando você descobre que falhou em prever um potencial problema ao dar conversa a alguém e acabou armando uma bomba, que vai acabar explodindo mais tarde.

E nessa, aquilo que parecia uma simples atualização de contato profissional termina se revelando um portal interdimensional que lhe atira dentro duma história de Nelson Rodrigues. Evidente que, se eu fosse escolher ser arremessado no meio dos problemas alheios, ia preferir cair num texto de Luiz Fernando Veríssimo. Mas, quando não lhe é brindada a escolha, o jeito é fingir que não está lá, naquele quadro encenado por pacientes do célebre Simão Bacamarte de Machado de Assis, e sair à francesa. Vai saber. O melhor, quando você não conseguiu evitar falar com gente tão estranha, no fim das contas, é deixar que eles falem entre si. Ou berrem. Ou se ataquem. Qualquer coisa, desde que a vida deles fique sendo como é, sem você fazendo parte dela.

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Compre Já!

06/10/2011    Postado em Crônicas, Textos
 

Há uns setenta anos, um sujeito lazarento criou uma política de massificação de propaganda baseado no conceito de repetição de algo falso até que fosse considerado verdadeiro. Funcionou tão bem que um país inteiro – bem, quase inteiro – passou a seguir as ideias de um lunático com tanto afinco que arrastaria um trem com os dentes por ele. Na verdade, a coisa funcionou tão bem que houve quem cometesse suicídio quando o doido foi derrotado porque não queria viver num mundo sem ele. Todo mundo que não passou os últimos anos numa masmorra ou numa bolha opaca sabe muito bem do que estamos falando aqui, então não há necessidade de dar nomes aos bigodes. De toda forma, a utilidade deste parágrafo é só atrair alguma atenção para o que vem a seguir. Sim, porque a propaganda deles foi condenada e tudo aquilo que tem a menor ligação com aquele período é tratado como tabu, mas os métodos, comprovadamente eficientes, foram preservados e são usados até hoje.

 A quem duvida, uma constatação simples: carros e mais carros pela rua com adesivos de uma fábrica de produtos alegadamente fitoterápicos. Eles vendem seus pós, cápsulas e outras coisas de engolir ou esfregar no corpo usando uma rede de distribuição que, na verdade, é um muito bem elaborado esquema pirâmide. Funciona assim: o recém-recrutado compra um monte de seu supervisor, que foi o cara que o fisgou, que compra de quem está acima dele na cadeia alimentar da empresa, até que se chegue à ponta, lá no alto, que representa a matriz da empresa. Claro, há a promessa de maiores ganhos à medida em que o sujeito sobe na pirâmide da empresa, que, por ter “supervisores”, “distribuidores” e “representantes” independentes, não tem nenhum ônus trabalhista. Não tem nenhum ônus, na verdade. Eles lucram com o trabalho do cara que acha que um dia será distribuidor, se é que esse é o ponto mais alto da carreira do sujeito no esquema, mas muita gente vai mesmo é á falência no processo. E perde amigos, porque começa a empurrar aqueles cacarecos até pra a estátua no meio do parque. Ela tá lá há cinquenta anos e não envelheceu um dia, mas ele acha que ela pode parecer alguns anos mais nova se engolir um pozinho misturado no suco de manhã cedo. Eventualmente, algum dos novatos arruma clientes pagantes que o sustentem e justifiquem a escolha dele de largar tudo e abrir mão de um cômodo de seu apartamento para vender um negócio que alguém disse pra alguém que disse pra ele que é um sucesso e faz um bem danado à saúde. Quando a frase continua depois de saúde e termina com “financeira do fabricante.”

 A essa altura, metade das pessoas que leu o parágrafo acima lembrou de um carro adesivado, no meio da rua ou estacionado estrategicamente e bloqueando completamente o passeio em uma tentativa de economizar uns trocos com um outdoor, achou graça ou lembrou que não gosta de um vizinho chato que se enquadra no tipo descrito. Da outra metade saem os que não deram a mínima, os que acham que não tem nada demais virar vendedor de empurroterapia (mas só porque nunca foram abordados por um “consultor independente”) e os que embarcaram no esquema, muito provavelmente, estão procurando uma foto minha pra fazer um vodu neste exato momento. A esses, resta o consolo de que não são os únicos agraciados por esquemas que mantêm fabricantes de coisas que param de funcionar quando você para de usar (ou antes disso, quiçá), já que mais pessoas tiveram a mesma ideia. Não confundir com vendas por catálogo, quando dificilmente há atravessadores e é um esquema que eu acho muito simpático porque a senhora que abrigou Edward Mãos de Tesoura, cara meio dark mas muito bacana, era consultora de uma marca de cosméticos muito popular. Eu não vou dizer o nome de marca nenhuma, óbvio, porque elas não precisam de minha propaganda. Se precisarem, que paguem primeiro.

 Falando em (mais) propaganda, tem aqueles canais de compras e os anúncios de loja por telefone. Quatro em cada cinco brasileiros com acesso a televisão por assinatura, segundo o Instituto de Estatística Números Maquiados, que eu acabei de inventar, já compraram ou conhecem alguém que já comprou produtos dessas lojas, devidamente anunciados por pessoas muto competentes na arte de fazer o telespectador acreditar que precisa desesperadamente daquele produto ou que ali, naquele púlpito no meio da tela, está a solução para um problema que muito o aflige. Alguns desses produtos ensinam o consumidor a valorizar muito certas coisas da vida. Como, por exemplo, o espaço que ele tinha sobrando em casa e que agora é ocupado por aquele trambolho, comprado para deixar o feliz proprietário em forma e que será utilizado mesmo é como um cabide moderno. Sim, é o inconfessável. Você compra aquele aparelho que condensa bicicleta, esteira, escadas, levantamento de peso, redime o usuário do pão com manteiga e café com leite da noite anterior, ocupa apenas seis pedras do piso da sala e ainda é desmontável. Você faz isso porque quer ficar sarado ou sarada como a pessoa que demonstra o trambolho na TV enquanto o vendedor fala mais que locutor em final de campeonato. A caixa, imensa, chega. Você abre e descobre um saquinho com cinco ferramentas e um monte de parafusos, o que equivale a um bilhete mal educado da loja, dizendo que aquilo vai ser difícil de montar. Monta e descobre que não só foi difícil como a experiência de vê-lo montado equivale à diferença entre a foto do hambúrguer e o que vem na sua bandeja. E a parte de ele ser desmontável para guardar debaixo da cama, bem… primeiro, eles esquecem de dizer que sua cama tem de ser alta como a da princesa, aquela da ervilha. Segundo, dá tanto trabalho desarmar o treco que na segunda tentativa você decide que ele nem ocupa tanto espaço assim. E larga ele lá no canto. Usa uma, duas, três vezes, e ele começa a criar uma camadinha discreta de pó. Um dia, você apoia seu guarda-chuva nele quando chega de uma rua encharcada. Depois, pendura uma peça de roupa. Com três meses, ele assume oficialmente a condição de cabide feio.

 Mas o que importa mesmo é que a economia continua funcionando, você compra coisas muito úteis (na teoria, pelo menos), emprega toda uma cadeia de distribuição, e até acaba aceitando uma amostra daquele vizinho que começou a vender umas cápsulas de chá verde muito bacanas. Essa última atitude não foi muito esperta, porque ele sabe quantas cápsulas tem no frasco e quantas vezes por dia você deve consumi-las. E, acredite, ele sabe a que horas você chega do trabalho. Para não ser descortês, ainda vai dar o tempo de você tomar uma ducha e jantar, mas pode esperar que seu interfone vai tocar. E vai ser bem na hora em que aquele vendedor simpático na televisão lhe apresenta um revolucionário aparelho de ginástica que vai lhe deixar com o corpo igualzinho ao da modelo sarada no fundo da tela sem que você tenha de mexer um dedo.

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