Archive for the ‘Crônicas’ Category

Chaves velhas

04/04/2013    Postado em Crônicas
 

Você põe a mão no bolso e tira um objeto tão familiar que consegue enxergá-lo com os dedos. Seu chaveiro. A posição de cada chave já nem lhe custa pensar, é como o câmbio do carro, memória muscular. De tal forma que, quando alguém lhe pede uma chave emprestada, você não diz qual, apenas passa os dedos no chaveiro e, segurando a ponta da chave correta, entrega-o à pessoa.

Pode acontecer de uma chave perder sua utilidade, como a que abria a gaveta que você desocupou ao trocar de emprego, ou a que abria a porta de um endereço que não é mais o seu. Algumas vezes, essa percepção vem quando o chaveiro ficou volumoso e passou a incomodar no bolso, forçando uma revisão das chaves que ele carrega. Outras, você resolveu faxinar uma gaveta e encontrou, por acaso, mas nem consegue lembrar que porta ela abria. E nessa hora, como quando alguém deixou escapar que Papai Noel era seu pai fantasiado, a ilusão do tempo se quebra. Como as coisas mudam. Como aquele problema do passado não era um fardo tão pesado quanto aparentava. Ou algo que parecia tão bom e era exatamente tão incômodo quanto lhe alertavam as pessoas. E, claro, existem aquelas chaves que voltam para a gaveta ao fim da faxina. Elas não abrem mais portas, mas as memórias que evocam abrem sorrisos.

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Entrega

14/03/2013    Postado em Crônicas, Textos
 

Entregar algo não significa desistir. Aquele momento em que você reconhece que determinada situação ou coisa já não está – ou nunca esteve – em suas mãos e dá conta de que o melhor a fazer é, precisamente, parar de agir não representa fraqueza ou derrota.

Fraqueza é nunca agir, viver na inércia, sobre o muro. Derrota é jogar a toalha enquanto ainda há jogadas viáveis no tabuleiro. Enxergar até onde ir, quando esperar um pouco para dar o próximo passo ou simplesmente deixar o tempo produzir seu resultado, na verdade, é bom. É discernimento. É sabedoria. Mas aceitar que o mundo é maior que nossa vontade e que o oceano não acaba no horizonte é uma serenidade que pode custar um ano ou uma vida para atingir-se.

Toda vez que conseguimos nos desprender de uma dessas situações em que nossa ação já é desnecessária e aceitamos genuinamente o resultado, este calha de ser o melhor cenário possível. Pode levar um tempo enxergar e até mais tempo que o que nos resta de vida aceitar, mas é difícil que essa conta não feche. E é assim que não enxergamos que a porta recém aberta na carreira resulta da que fechou, que a chegada de alguém em nossa vida íntima dependia daquele lugar estar disponível e que o fim do sofrimento de um ente querido, pela recuperação ou pela derradeira partida, nunca é algo triste ou ruim. A gente só precisa enxergar fora de nossa perspectiva.

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Bom oportunismo

28/02/2013    Postado em Crônicas, Textos
 

O ser humano é um tipo único de animal. A espécie mais próxima tem código genético mais de 95% semelhante ao nosso, mas temos dedos opositores, andamos eretos e temos um cérebro bem mais complexo, capaz de, entre outras coisas, articulação de linguagem oral e escrita – embora haja o perigo latente dessa habilidade cair em desuso, ensina a internet. Temos a pretensa exclusividade da consciência da personalidade e dividimos a noção de finitude com poucos animais, como os elefantes. Ainda assim, temos uma dificuldade tremenda de enxergar além dos nossos horizontes.

O primeiro parágrafo me deu a impressão de que o texto tomou outro rumo, mas isto é uma crônica, de como é difícil para nós, humanos, perceber a real dimensão das coisas que nos acontecem. Parece até fisiológico, é como uma formiga se dar conta de que o gramado não é a Amazônia. Você se atrasa dez minutos e encontra vaga no estacionamento que vive cheio. Passa a vida entre relacionamentos pessoais e profissionais desastrados e, de súbito, algo extraordinário lhe acontece justamente quando você joga a toalha. Como o “não existe almoço grátis”, nada do que nos acontece de bom é gratuito. Provavelmente o mesmo vale pro que nos acontece de mal, mas eu é que não cutuco esse vespeiro.

Ensino médio, Segundo grau, Científico. Varia de acordo com a sua idade, mas nessa época é quando o professor se esgoela para nos ensinar física clássica. Quando você brinca com o pêndulo de Newton e a bola na ponta oposta pula, é o mais didático exemplo de ato e consequência que vai ter. Basicamente, tudo o que fazemos é composto de módulo, direção e sentido. Ainda que não sejamos capazes de visualizar, tudo o que mandamos para o mundo vai voltar. Não é uma questão de “se”, mas de “quando”.

Então, se o seu chefe acordou de bom humor depois de lhe maltratar sistematicamente e lhe deu um aumento, ficar feliz e abraça-lo não é indício de síndrome de Estocolmo, acalme-se. Você plantou, tem todo o direito de colher e ficar feliz por isso. O mesmo para aquela pessoa que lhe cativou depois de anos se esforçando para encontrar alguém, justamente quando você havia desistido. Ou aquele dinheiro que chegou na hora do sufoco. Ou um sanduíche pouco saudável. Se você fez tudo certinho, não há mal nenhum em curtir essas oportunidades que a vida lhe apresentou. São a sua paga. Agradeça e aproveite. Apenas tenha em mente que, se você deveria ter recebido um pedaço de carvão em lugar da bicicleta que achou sob a árvore de Natal, a vida vai lhe cobrar mais adiante. E se, como foi comigo, ela lhe ensinou isso logo cedo, use a visão conquistada a seu favor e a favor dos outros. Mais dos outros, até. Nada passa despercebido e amanhã sempre será outro dia.

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