Archive for the ‘Crônicas’ Category

Fragmentos

16/05/2013    Postado em Crônicas
 

A capacidade de racionalizar as coisas talvez seja um dos mais importantes artifícios que temos em mãos para seguir adiante quando uma perda se abate sobre nossas cabeças. O raciocínio mais comum, o resignado é a vida, costuma vir justificado por idade, doença ou outro fator que nos pareça explicar a ausência, que nada cura, de alguém que foi parte de nossa história.

Esta não é uma constatação melancólica, embora haja um misto de tristeza e nostalgia em, ao abrir um álbum de retratos, se encontrar o rosto de alguém que não mais encontraremos, porque simplesmente não está mais aqui. Mas, logo em seguida, vêm as memórias, as histórias, o som daquela gargalhada que trovejava.

Cada imagem impressa evoca uma lembrança. Pouco a pouco, você percebe que os índios têm razão, a fotografia captura mesmo a alma. Em cada uma delas, há um fragmento das pessoas. E isso é maravilhoso, porque mesmo quando você já não for capaz de lembrar se tomou seus remédios, olhar para aqueles pedaços de papel trará a visita de pessoas queridas que nunca deveriam ter partido.

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Os nossos rumos

25/04/2013    Postado em Crônicas
 

Da importância do ofício do professor, muito se diz. Seu grau de preparo e seu empenho são determinantes na formação dos alunos que passam pela sala de aula. Um aspecto, no entanto, não me lembro de ter ouvido falar. Um que tem muito a ver com seu lado humano, sua personalidade, e pouco com o que ele leciona.

Parem um instante e tentem lembrar dos seus professores do colégio. Se vocês, como eu, tiverem ao menos dez anos que saíram da escola, já devem começar a ter dificuldade de lembrar alguns rostos. Quase vinte anos, então, é simplesmente impossível descrever como eles se pareciam. Mas, certamente, pelo menos dois vocês devem lembrar. Aquele com quem tinha maior afinidade e aquele por quem desenvolveu aversão.

Claro que, com o nosso ensino colegial se estendendo por treze anos, é pouco provável que existam apenas dois desses professores em suas memórias. Mas o interessante é associar o resultado de nossa educação, quem nos tornamos depois desses anos todos, que rumos escolhemos, a essas pessoas. Se você tem um flerte com determinado tema e um professor que é simplesmente intragável, ou é apenas dono de uma didática mil oitocentista, passa o ano inteiro falando daquilo, é de se esperar que esse flerte simplesmente se apague. Por outro lado, se você gosta de uma matéria ou um ramo profissional que esteja ligado a ela (ou, ainda, algo sobre o que o professor tenha vivência e a partilhe de forma interessante) e esse assunto é tratado na sala de maneira que lhe estimule a estudar mais, pode ser o empurrão que lhe faltava para escolher aquele caminho.

Achei uma pasta com provas do colégio e percebi essa ligação. Eu gostava muito de ciências naturais e exatas, vivia enfiado no laboratório. Até hoje, flerto um bocado com as ciências exatas, mas o que me afastou muito delas foi passar metade do curso de ginásio tendo de lidar com uma professora de personalidade, digamos, difícil. Tive bons professores de física e química mais adiante, mas corri do ramo por pura aversão ao cálculo. Por outro lado, gosto das letras desde muito novo. As professoras de redação foram me cobrando melhorias ao longo dos anos, mas foi uma delas, em particular, que nunca estava realmente satisfeita com o que eu lhe entregava, quem me provocou de verdade. O dia em que arranquei um elogio daquela senhora da risada escandalosa – e escrevo isso porque, se ela ler, saberá que falei dela – foi uma das melhores coisas daquele ano. Acabei indo para a faculdade de direito, mas talvez eu tivesse escolhido melhor o Instituto de Letras. É cedo para dizer. Daqui a dez anos eu revisito o assunto.

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O Ruído dos Insolentes

11/04/2013    Postado em Crônicas
 

Eu queria um conto para hoje, mas minhas ideias não puderam competir com a pirotecnia daquele circo em Brasília. É um lugar único, onde a plateia foi toda maquiada de palhaços e que funciona numa escudela gigante, numa demonstração cortante de ironia. Aquilo é nível Machado de Assis, não dá pra competir.

Dentre os talentos que se apresentam naquele circo, há um espetacular coprófono. Ao longo de anos de treino diário e intenso, ele dominou a arte de reverter seu trato digestivo e expelir pelo lado de cima aquilo que nós expelimos pela outra ponta. Prata da casa, mais precisamente trinta moedas dela, ele mostra que não é preciso muito esforço para ofender e espezinhar grupos inteiros de cidadãos, os mesmos de cujos bolsos sai a comida que deveria entrar por onde ele ejeta suas atrocidades. Ele é tão bom nisso que faz parecer ser possível dormir à noite depois de fazê-lo. Segredinho sujo: há quem diga que seu sucesso profissional se deve a uma cirurgia secreta de excisão de consciência. Se procurarem direito, devem achar uma cicatriz como a que Phineas Gage tinha. Algo mais discreto, talvez. Ele não ia querer que isso dividisse a atenção de sua plateia com a performance.

O sucesso dessa atração tem tirado, no entanto, o devido reconhecimento de outros artistas. São centenas deles, e alguns ocupam posições de apoio, mas há três mágicos sensacionais que mereciam nossa atenção. O primeiro deles tem um número que recebe a ajuda do meio-ambiente para ser executado. O ponto alto é quando ele serra o ambiente ao meio. Dizem que ele enfrenta problemas para reverter o truque no final, mas ele rebate dizendo que não são dificuldades técnicas e o truque é assim mesmo.

Os outros dois mágicos trabalham em dupla e operam um sofisticado número de ilusionismo. A plateia fica com a ilusão de que ser condenado pela mais alta corte de justiça do país serve para algo e, quando os holofotes do picadeiro os perdem de vista, nós descobrimos que eles estão escondidos no lugar onde se fala de justiça.

Claro que esses artistas mereciam maior destaque, mas a culpa disso é da equipe responsável pela impressão dos cartazes. Aparentemente, eles nutrem alguma simpatia, uma paixonite, pelos mágicos e os desejam só para si, não deixando que ninguém fale neles. Quando alguém tenta, logo eles desviam o assunto de volta para o novo sucesso da casa. “Olhem como cheira mal a boca dele, olhem como sai marronzinha e grande de sua boca!”, exclamam, maravilhados. Claro, é uma sensação, é um artista e tanto. Mas nós estamos na plateia não é para vê-los? Ou é para que tenham certeza de onde estamos? E o filme que conta essa história, porque aqui agora se faz filme contando história até do pipoqueiro que trabalha na frente do estádio, terá um título inspirado num grande sucesso. Chamar-se-á “O Ruído dos Insolentes”, mas, lamentavelmente, nós não conseguimos um canibal que aceitasse comer os miolos dos nossos artistas. Fica pra outra vez.

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