Archive for the ‘Contos’ Category

O anfitrião

11/08/2011    Postado em Contos, Textos
 

As flores que compõem as coroas parecem já meio mortas, como se o tom vivo, em suas pétalas, ameaçasse ofender a ocasião. Não é uma capela grande, de modo que duas delas, dos familiares, adornavam o caixão e as outras, por falta de opção e, principalmente, de espaço, foram displicentemente acomodadas num canto. A relevância dessa informação é tal que não saberia dizer qual canto. As pessoas que chegam cumprimentam o primeiro que veem pela frente, oferecendo seus sentimentos como quem oferece balas tiradas num punhado cheio de dentro do bolso. Se as pessoas tivesse um mínimo de noção de estatística, saberiam que tamanha displicência, inevitavelmente, causaria algum embaraço. Alguém cumprimentou a viúva do defunto errado. Custou muito deixa-disso, conversa e Lexotan para acalmar a viúva do outro defunto, porque a autora da gafe não sabia que seu antigo namorado tinha morrido, nem muito menos que tinha acabado expressar suas condolências àquela a quem o ajudou a trair meses a fio. “De outra feita, leia a droga da placa, menina”, disse uma velhinha com todo o jeito de quem frequentava o lugar.

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Cinzas

07/07/2011    Postado em Contos, Textos
 

O mar. Parece-me um azul um tanto fúnebre, como se também estivesse de luto, como também fosse dele a minha dor. Não, não sinto dor, foi melhor assim, basta de sofrimento. Sim, sinto algo como uma saudade estranha, que me seca a boca, mas que lembra minha mente que lhe prometi não parar de viver, não havia tempo para lágrimas. Mas houveram lágrimas. O mar foi feito delas. Mas agora já é tarde para elas. Ela se foi e está bem, mas não voltará mais para casa, por isso tenho essa saudade. Olho uma última vez para as cinzas. Atiro-as ao mar. Até logo.

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Encontro

26/05/2011    Postado em Contos, Textos
 

A senhora na cadeira ao lado me pergunta há quanto tempo estou esperando. Olho em volta, a sala de espera cheia, e lhe respondo: “mais do que o necessário.” Ela não parece entender e sorri um sorriso quase histérico, típico de quem é castigado pelo tempo com um mergulho na fonte da incerteza. Abaixo a cabeça e continuo o que estava fingindo fazer. Fingindo. Verdadeiramente, não estou lendo o volume sobre meu colo. Estou contando, em silêncio, segundo a segundo, quanto tempo espero. Tem sido assim há muito tempo. Muito tempo.

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