Archive for the ‘Contos’ Category

O cachorro

13/10/2011    Postado em Contos, Textos
 

Sem hora específica, o labrador de longos pelos dourados cumpria um ritual diário. Ia até a caixa onde ficavam as suas coisas, nos fundos da casa, apanhava a correia de sua coleira, levava-a à sala e a punha sobre a poltrona de seu dono. Minutos depois, sem nunca esperar demais, ouvia a porta se abrir e, com o cheiro da rua, os passos dos indefectíveis sapatos de couro cheirando a graxa e muito lustrosos. O rosto do dono ele não conhecia nos mínimos detalhes, porque cães não dão muita importância a isso. Mas era capaz de adivinhar até que camisa ele usava. O cheiro. Conhecia o cheiro de seu dono e de cada objeto, e até o ajudava a encontrar algo, porque também sabia os nomes. Era muito fiel, aprendeu desde cedo a comer apenas o que lhe fosse dado por ele, diretamente de suas mãos. Não encostaria os dentes em outra coisa. Cuidava de seu dono e sabia o quanto ele também o cuidava e queria bem.

Dez minutos depois de colocar a correia sobre a poltrona, abriu-se a porta e seu dono o encontrou deitado, cabeça sobre as patas, olhando fixamente em sua direção. O rabo, quieto, começou a abanar pesadamente assim que teve certeza de que havia sido notado. Sabia que seu passeio não começaria de imediato, ele sempre gostava de colocar uma roupa mais leve e um calçado mais confortável, sempre depois de colocar a pasta, a carteira e as chaves sobre uma escrivaninha e abaixar-se para lhe coçar a orelha. Roupa trocada, nenhuma palavra era necessária, pois já era esperado à porta de casa por um cão de correia na boca, ansioso por se exercitar.

Mais do que exercício, ele ficava contente em sentir o chão irregular sob suas patas, o cheiro das flores da casa da vizinha, o cumprimento dos outros moradores da rua, que sempre lhe coçavam a orelha. Sabia, também, que o passeio fazia bem ao seu dono. Menos quando chovia. Se ele sentisse que ia chover, não colocava a correia sob a poltrona, e isso confundiu um pouco seu dono no começo. Ele queria sair para caminhar e levar o cachorro junto, mas o bicho empacava e não havia quem o tirasse do lugar. Uns poucos instantes de insistência e a chuva começava, às vezes branda, às vezes já com violência. E o cão olhava para o humano de um jeito que este tinha a nítida impressão de que estava sendo comunicado de que tinha perdido a aposta. Vencido, sentava-se na poltrona e sua perna recebia a cabeça de seu amigo quadrúpede. Que não pedia atenção. Exigia. Enfiava o focinho por sua mão até que os dedos atingissem a orelha. Nas noites mais frias, deitava-se cobrindo os pés de seu dono enquanto este via a programação da televisão ou lia um livro. Depois, em uma sincronia quase combinada, cochilavam uns pares de minutos e iam para o quarto, o maior para a cama, o menor para sua manta de lã, cuidadosamente disposta ao lado da cabeceira.

Houve um dia em que, sentindo-se mal, ele chegou em casa mais cedo. Tinha febre, um pouco de dor. Encontrou sua poltrona paramentada com a manta que deixou secando no quintal e seus chinelos logo ao lado. O cachorro não estava lá, ao lado da poltrona. Veio rapidamente ao ouvir a porta abrir, trazendo na boca um balde. Foi o tipo de coisa que jamais teria dado certo se combinado, porque o almoço resolveu sair bem na hora em que o balde chegou. Ligeiramente prostrado, limpou a boca com um lenço e se levantou. O cão levou o balde embora para o quintal e voltou para vigiar o dono. Naquela tarde, não colocou a cabeça no colo dele, mas fez com que fosse para a cama e garantiu que estivesse devidamente coberto o tempo inteiro. Ensopado, acordou refeito e percebeu que o cachorro não havia saído de onde esteve a noite inteira, sentado e olhando em sua direção. A manta estava tão esticada quanto na véspera, provando que não fora usada. Sorriu e foi lambido. Saiu para trabalhar sob protestos. O cão latia bastante, mas ele precisava ir, tinha muito a fazer e já se sentia melhor.

Quando o horário que não seguia o relógio chegou, o cachorro foi até os fundos da casa, apanhar sua correia. Com um passo taciturno, chegou ao lado da poltrona, mas não colocou nada sobre a almofada do assento. Nem se deitou aos seus pés. Devagar, foi até o quarto, subiu na cama de seu dono, e deitou a cabeça sobre seu travesseiro. E cheirou. Seguidamente, cheirou, como quem não queria esquecer jamais alguém que, sabia, não poderia voltar, porque havia partido irremediavelmente.

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O remédio

22/09/2011    Postado em Contos, Textos
 

O barulho da tranca se abrindo mal é notado, diante da novidade de um médico ir pessoalmente à carceragem. Normalmente, apenas familiares e advogados, mas naquele dia chegou um médico, com a maletinha de couro preto e tudo. Jaleco branco não, ele explicou que não é correto andar por aí vestindo aquilo porque ele termina servindo para carregar doenças e outras imundícies de cá para lá.

Veio ver um paciente que atende há alguns anos. Não é grave, mas, se não tomar os remédios em dia, pode ficar. Epilepsia, talvez, os presos especulavam o que poderia ser, mas ele não diz, sigilo profissional. Só respondeu que não, o homem não estava maluco, ou não estaria nem ali na carceragem. Aguardou uns vinte minutos até liberarem uma sala do ambulatório, a única com mesa, e trazerem seu paciente. Abria a pequena maleta para apanhar o estetoscópio e o receituário. Ele não pretendia usar o estetoscópio no paciente, mas tirou-o da valise assim mesmo. Curiosamente, o remédio que se podia ver quando a tampa foi aberta ficou lá dentro, guardado.

O paciente não é jovem nem velho, alto ou baixo, nada disso. É daqueles que coloca retratista da polícia maluco com sua descrição, por ser um tipo absolutamente comum. Seria um erro tentar montar uma imagem dele em palavras. A única coisa que, essa sim, serve para identifica-lo, é o fato de ele ser portador de algo chamado heterocromia. Tem um olho azul e outro verde. Mas é só. Cumprimentou o médico com um aperto de mão e um olhar completamente distante, mas que, visto atentamente, denunciaria uma atenção incomum no estetoscópio sobre a mesa. Sentou-se.

O médico iniciou uma série de perguntas sobre seu estado de espírito, como e se estava se alimentando ali na carceragem, como estava dormindo e de que jeito, e ele foi respondendo da forma mais direta que podia. Essa cena, quase como uma entrevista médica do exército, de tão seca e distante, era muito estranha se considerarmos que os dois se conhecem há mais de quinze anos. Mas ninguém ali sabia disso e, portanto, nenhuma suspeita nasceu. Mas eles sabiam que estavam sendo vigiados. A maleta obstruía a visão da câmera e impedia que o bloco de receituários fosse visto. Mais tarde, essa obstrução levou à revista do preso, para conferir o que estava escrito na receita que levou junto com a caixa do remédio que recebeu. Mas era só a orientação de uso e nada mais.

O paciente voltou à cela com uma expressão de que obviamente esperava algo, mas percebeu que o médico jamais poderia lhe dizer o que quis ouvir sob a pesada vigilância a que ambos estavam submetidos. E achou que, ao dizer que voltaria em um mês, o médico lhe sinalizava a oportunidade de transmitir alguma mensagem. A existência de uma era o que significava o estetoscópio sobre a mesa. Já na hora de dormir, com a luz da lua entrando pela minúscula janela da cela e todos os presos acomodados como podiam, ele teve vontade de ler a receita que veio junto com a caixa. A princípio, não viu nada demais. Leu de novo, e de novo, até que notou que o nome do remédio na caixa não batia com o que estava escrito no papel. Havia algo a mais no final, um 3 e um D. Tirou a cartela da caixa quase fazendo barulho, porque achou que a mensagem pudesse estar ali dentro, mas na caixa nada havia. Então, quase desistindo, viu o celofane rompido em uma das cápsulas. Terceira à direita. Passava um guarda quando ele tirava a cápsula, mas ele não foi objeto de sua atenção, já tinha sido visto com os remédios antes e ninguém queria que ele tivesse uma crise do que quer que fosse, muito menos que isso gerasse problemas para alguém ali dentro.

Abriu a cápsula. Um pedaço de papel de arroz, desses de decorar bolo, trazia um recado impresso com letra miúda, para aproveitar o espaço. Forçou o rosto para não sorrir. Enrolou o papel de volta para a cápsula e a engoliu. Sentou-se num canto, recostou a cabeça e dormiu a primeira noite inteira em dois meses.

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Despertador

25/08/2011    Postado em Contos, Textos
 

Cala violentamente o despertador com um tapa certeiro à esquerda. Só mais cinco minutos. Tudo o que ela quer é dormir mais cinco minutos. E confia no seu companheiro barulhento para impedir que se atrase. Não devia. Ou devia ter um modelo que funcionasse a pilhas. A companhia elétrica, afinal, não é nem de perto confiável e, se o despertador funciona bem, ainda depende dela para simplesmente funcionar.

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