Archive for the ‘Contos’ Category

O dragão

16/01/2012    Postado em Contos, Textos
 

Dia puxado, mal coube um café e um dedo de prosa. A chuva fecha com chave de chumbo aquela volta escondida de um sol arrependido de ter dado as caras, só para ver sua cena roubada pelas nuvens.

O vento encanado do metrô faz as pessoas ficarem em dúvida sobre ser melhor estar sob ou sobre a terra. Mas melhor com frio que molhado, e lá em cima chove a cântaros. Com o guarda-chuva encharcado, ela se junta a uma das filas que, em instantes, devem virar um apinhado vagão.

Observadora, ela encontra olhares bem mais cansados que o dela, gente animada, gente que nem sequer está lá, passeando nas idéias. A maioria de nós faz-se de cego, são todos tão familiarmente estranhos. Outros analisam as caras e bocas, como ela, que fita a todos sem contudo ostentar um olhar invasivo, vê sem olhar. Um vagão de metrô. Um punhado de vidas e histórias. Um experimento sociológico.

Do frio encanado para a chuva sem vento e as poças de gotas finas, ela sobe as escadas, apressada como quem não quer destoar da paisagem. Entre passos ligeiros e movimentos bruscos para não estragar os sapatos nas poças, finalmente um bafo quente anuncia a porta de seu edifício. Deixa seus pedaços pelo caminho do quarto ao chuveiro quente e só enquanto seca o cabelo, afinal, respira fundo. Abre a porta e dá de frente com o sorriso inesgotável e o abraço apertado de seu filho, que, não sabendo que há um dragão lá fora, salva-a dele todo fim de dia.

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Natal

22/12/2011    Postado em Contos, Textos
 

Em um estalo, a torradeira entrega duas fatias de pão. A cozinha tomada pelo cheiro do café recém-coado, o ruído do espremedor de frutas. Há vinte anos, sem interrupção, é o que ele come no desjejum. Nenhuma circunstância, nenhum alto, nenhum baixo em sua vida mudou isso. O último ano foi, certamente, mais silencioso, sem o rádio ligado desde cedo, sem o suave perfume de alfazema, tendo de acordar com metade da cama fria. Lá dentro, ele sabe que nunca preencherá o vazio que ela deixou. Acostuma-se, no máximo, porque nunca foi de se entregar.

Passou os últimos meses tentando não pensar nesta época, mas novembro chegou e trouxe as memórias consigo. Dezembro trouxe a tradição que ele quis ignorar solenemente. Foi até o depósito, no quintal, observou as bolas de vidro coloridas, as luzes, a árvore, mas voltou para dentro da casa de mãos vazias. Nunca montou a decoração sozinho, não faria nada sozinho. Faltam só uns poucos dias e o canto onde a árvore sempre ficou por cerca de um mês a cada ano estava vazio. Colocou a carne para assar, como fazia todos os domingos. Sabia que metade da travessa seria dada aos cachorros, porque não comeria tudo aquilo sozinho. Era comida para dois, e ele era um só.

Uma coisa estava diferente, mas ele ainda não sabia. Com os colchões encostados na parede, de maneira que pudessem tomar sol todos os dias, os quartos que seus filhos ocuparam durante tantos anos estavam exatamente como foram deixados. Ensacados com sabonetes, para não adquirirem cheiro de guardado estavam os lençóis e fronhas. Ele não sabia disso, nem onde estavam, não era seu território. Mas, enquanto a carne assava, achou por bem colocar os colchões sobre as camas. Com tudo em ordem e sem nada para ler ou assistir, parecia a única coisa que restava a ser feita.

Voltando à cozinha, ouviu um carro sendo desligado. Ouviu a voz de uma criança. Não pensou que pudesse lhe dizer qualquer coisa e abaixou-se para retirar a travessa do forno. Fatiava a carne quando ouviu o rangido da porta dos fundos. Depois de tantos anos morando na mesma casa, cada ruído, cada som adquire personalidade própria e alguns ganham até mesmo um nome. O que ele ouviu em seguida era um velho conhecido, mas há muito esquecido. Voz de criança. Dentro de casa. Perguntando incessantemente. Deitando a faca sobre a mesa, abraçou a nora, depois o filho, e ajoelhou-se para cumprimentar a mocinha muito falante. Não a conhecia ainda, às vésperas de seu segundo aniversário. Sorriu como não se via já havia um ano. Sentaram-se todos à mesa e passaram a tarde montando a árvore e decorando a casa, celebrando a vida dos que chegam e lembrando dos que foram.

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Bom gosto ruim

01/12/2011    Postado em Contos, Textos
 

A fome aperta. O vazio de seu estômago perde apenas para o da despensa. Pensa em ir a um restaurante, mas a ideia de sentar à mesa sozinho, para uma refeição completa, num salão cheio de gente, lhe é tão deprimente quanto beber sozinho no canto de um boteco sujo. Não vai conseguir ignorar a fome e sabe disso, mas com a chuva que faz lá fora, entregador nenhum virá à sua porta. O jeito é fazer como seus ancestrais e sair para caçar a comida.

O supermercado. Estacionamento coberto, então não é apenas um caçador modernizado, mas um que não precisa ficar encharcado. Mas a modernidade tem seu peso e esse homem que traz um telefone onde seus ancestrais portavam uma lança não tem vontade nem de cozinhar. Quer mesmo é sentar-se diante da televisão com um prato de comida pronta no colo e uma garrafa de refrigerante ou outra coisa muito gelada e que não tenha gosto de purgante travestido de refrigerante de uva. Se o mal do século passado era a tuberculose, o deste século é a comodidade.

Passeia pelos corredores de gôndolas em busca da caça que não precisará limpar nem colocar no espeto. Tirar da embalagem, no máximo colocar no forno por uns instantes, e comer. O cheiro do frango na televisão de cachorro da rotisseria é convidativo, mas ele sente uma preguiça profunda de limpar as coisas só de olhar aquela gordura pingando. E frango com farofa é almoço, ele quer é jantar. Poderia preparar uma macarronada, mas isso implicaria panelas e tempo no fogão, nada a que ele esteja disposto. A comida não precisa ter qualidade nessa noite. Precisa encher a barriga e ser fácil de fazer. Chegando na seção de congelados, enevoada e fria, ele encontra o que parece se encaixar melhor no que procura. Frango Xadrez.

Definiu o prato, vai à cata da sobremesa e da bebida. Gosta muito de um refrigerante específico, clone de um outro muito famoso. O sabor é detestável, mas é, estranhamente, o que faz aquele líquido escuro ser tão bom. Lembra o refrigerante em garrafa de cerveja que bebia no armazém na cidade dos avós, que era ruim, mas era doce e a única coisa que havia para servir às crianças no único bar da região. Tinha esse refrigerante de uva, também, mas que ninguém além da filha do dono do bar conseguia tragar e que causou-lhe um trauma tamanho que, até hoje, é incapaz de encostar naquela garrafa roxa.

Sobremesas prontas são uma roubada. Ponto. Raríssimas as exceções, e quando há alguma, o preço é alto. Mas ele está disposto a comer uma sobremesa depois do frango e não gastar muito. As opções congeladas não o agradam em nada, de modo que parte para a seção de farinhas, onde ficam aqueles sacos de mistura pronta, do tipo que se coloca água, um ovo, mexe-se um pouco e se põe para assar. Esperava não ter de lavar nada, mas lembrou que passou pelas formas de alumínio descartáveis, então escolheu um pacote de bolo de chocolate. O ovo e a água ele tinha em casa. Pegou a forma e passou no caixa rápido. Tudo isso feito sob a trilha sonora de cantando na chuva. As telhas, as telhas cantavam sob a surra que levavam da chuva.

As instruções do frango diziam que o forno devia ser pré-aquecido. Obedeceu, enquanto misturava o pó do bolo com o ovo e a água. Era muito difícil acreditar que aquela gororoba marrom tivesse qualquer potencial para se transformar em algo comestível. Colocou as duas assadeiras no forno. O tempo de preparo era semelhante, o que era bom, pois sua mãe lhe ensinou que comer bolo quente dá dor de barriga. Ele se apegou à possibilidade de apenas ter dor de barriga se comesse o bolo ainda quente, torcendo para que fosse seguro fazê-lo depois da massa esfriar.

Quando tirou a caixa de papel com o frango xadrez do forno, por um momento, achou que sua embalagem tinha vindo defeituosa. Depois percebeu que precisaria de uma lupa para ver os pedaços de frango, frequentemente menores que as gotas de gordura boiando no molho escuro e coalhado de cenoura e outros vegetais. Os que ele gostava mais, claro, vinham em menor número. O frango quase não veio, mesmo. Mas não se queixou. Era aquilo que ele tinha comprado, embora a fotografia da caixa lembrasse muito a diferença entre o que há nos cartazes das lanchonetes de shopping center e o que é servido na bandeja. Percebeu que comer com garfo e faca era um esforço inútil e rendeu-se à colher.

Ah, a sobremesa. Doce momento regado a refrigerante ruim com gosto de infância e risco de indigestão. Cortou direto da forma um pedaço do bolo ainda morno e completou o copo. Ao menos parte de sua refeição seria feita usando um garfo. O primeiro pedaço inundou sua língua com gostos que iam de gema de ovo ao adstringente sabor de farinha crua. Era tão ruim quanto parecia, aquele bolo de saco. Talvez pior. Mas ele comeu, e repetiu, porque tinha o mesmo gosto da torta que sua antiga namorada lhe preparou para comemorar quando passou no vestibular, há muitos anos. Gosto de saudade. Mas lembrou de como aquilo tudo terminou, continuou sentindo a língua travada pela farinha e jogou o resto do que estava em seu prato no lixo. Ruim demais. O único gosto ruim de que gostava, concluiu, era o do refrigerante que lhe lembrava as férias de infância na cidade dos avós.

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