Archive for the ‘Contos’ Category

Um pouco de emoção

31/05/2012    Postado em Contos, Textos
 

As noites de domingo são um cenário propício para alguém desejar um pouco de emoção. A segunda-feira logo ali na esquina, a programação hediondamente tediosa da televisão, um sentimento meio que universal de tédio, várias olhadas no relógio para saber se já é hora de ir deitar. Não se deve dormir cedo demais no domingo ou a segunda começará antes do sol nascer. E ninguém quer que um dia aborrecido dure mais do que o estritamente necessário. Mas aquele sentimento de “falta um pouco de emoção” permanece, e o filme porcamente dublado de algum ator bombado e decadente explodindo coisas definitivamente não é a resposta.

Um zumbido grave e um vulto entram pela janela. Desafiando a aerodinâmica, ela entra voando de pé e pousa na parede. Mexe as antenas. Queria emoção, eu cheguei. Não era essa a emoção que você queria, mas ela trouxe. Num pinote, você levanta da cadeira, corre, apanha a vassoura. Ela não está mais naquele lugar. Onde? Onde foi parar? E de quem foi a ideia brilhante de incluir na criação do mundo um bicho tão nojento, feio e que voa tão mal? Voa, a
lazarenta voa. Pega o veneno. Uma arma em cada mão, mas nenhum escudo. Ela aparece, vem em sua direção, você desvia e quase dá com a cabeça na parede. Ela se esconde atrás do sofá. Hora da ginástica, toca arrastar o sofá. O cheiro do veneno se espalha depressa, parece que o fabricante quer espantar o inseto pelo nariz. Ela se esconde no cortineiro. E tome vassourada no pobre, quem mandou dar guarida a inseto terrorista?

Ela começa a voar de novo, de um lado para o outro, e você lembra da raquete elétrica que serve para matar mosquitos. Estica o braço com a raquete na mão. Ouve um estalo. Isso costuma significar vitória. Mas vem o segundo, o terceiro, quarto… e nada. Borrifa a garrafa de veneno e… a barata pega fogo. E, para seu espanto, sai voando pela janela, em chamas. E a vizinha lhe conta, pela manhã, que uma barata ateou fogo em suas cortinas na noite daquele domingo.

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A cadência do samba

02/02/2012    Postado em Contos, Textos
 

Sexta-feira. Dia de vestir branco. Ele não é o único advogado a aparecer no fórum com terno e gravata brancos, camisa azul e sapatos indefectivelmente lustrados, igualmente alvos. Mas, certamente, acredita que é o mais alinhado deles, trajando linho sem uma única ruga. Na roupa. No rosto, o tempo achou lugar para registrar uma longa história. A esta altura da vida, se alguém dentro desse edifício ocupa a mesma função há mais de dez anos, há uma chance quase certeira de ele o conhecer. Não de reconhecer a pessoa e saber que trabalha lá, mas de saber o nome, chegar e cumprimentar, de ser reconhecido e cumprimentado de volta prontamente. Quando ele começou a carreira, apenas uma, talvez duas faculdades formavam seus colegas, de forma que ser conhecido não era difícil. Hoje, não. São tantos, tão numerosos, tão jovens, que exigir lembrança de seus nomes é pedir demais da memória dos antigos funcionários.

Ele não tenta – muito – fingir que não se envaidece com a proximidade que terminou virando uma certa intimidade, com os olhares dos novatos, desejosos de que alguém do outro lado do balcão soubesse seus nomes, que não lhes parecesse invasivo abrir a porta e sentar-se à mesa reservada aos advogados. Ele adentra o cartório com tanta naturalidade, como realmente pertencesse àquele lugar. Não duvide que esse senhor de cabelos engomados e terno branco chegue a saber quantas peças de madeira compõem o piso do lugar. Mas não é na madeira que sua atenção se esconde, que ninguém se engane.

Se os mais velhos lhe conhecem por nome, os funcionários mais novos não são menos prestativos. As funcionárias. Vício antigo, nunca pede nada a um rapaz, só a uma moça. E ali há algumas novatas que não se importam em lhe atender. Pede seus processos, um pouco para cada uma das três, exercita a arte de não se fazer sentir incômodo e, ao mesmo tempo, mantê-las ocupadas, para poder admirar o movimento. Elas vêm, elas vão, e aquele velho advogado de terno branco e olhos atentos não as perde de vista um só minuto. Uma delas apanha um processo e volta ao arquivo, batucando levemente na capa dos autos e rebolando discretamente – mas não muito. E ele senta numa cadeira no meio do cartório e passa meia tarde admirando a cadência bonita do samba.

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A Primavera

19/01/2012    Postado em Contos, Textos
 

Ah, la vita è bella, veio a uma cabeça que acompanhava a cadência feminina de duas pernas. E o não acompanhar o movimento da cabeça deu ao corpo a certeza de que havia chegado a Primavera. Sentiu-se caminhando num jardim, por entre os sorrisos das flores, mesmo quando, em verdade, estava na calçada de uma avenida tão ruidosa quanto movimentada. Apenas digamos que a beleza pode provocar surdez, pois o ronco dos motores não atraía sua atenção.

Um passo apressado, sem contudo perder o equilíbrio que a mantinha nos saltos, provocava uma batida rápida e compassada como a dos corações que a viam passar diante de seus olhos incrédulos. Não tinha propriamente pressa, mas sentia-se consumida pelo andar frenético do tempo. Percebia-se notada, mas não achava tempo para uma massagem no ego, como a que faz a visão dos pescoços torcidos.

Revisando papéis à beira do rio de gente, ele observa a vista como quem espera um pássaro pousar para fotografá-lo. Inofensivo como o café fumegante em sua xícara, ele testemunha desde sorrisos de gente que atende a uma chamada de alguém querido até o displicente rebolado da gordinha que, agradando ou não, sabe-se notada.

Procurando uma mesa vaga entre tantas pessoas, ela começa a considerar adiar seu suco por falta de onde acomodar-se. Então, um maço de papéis abaixa e revela um olhar a oferecer-lhe a cadeira vaga diante da mesa. Ela, que não fala com estranhos, aceitou a oferta com um sorriso encabulado de quem viu seus pensamentos devassados.

Ele não pôde deixar de notar seus belos olhos amendoados em uma expressão aliviada de quem descansou os pés por um instante. Amaldiçoando sua agenda e o fato de ter pedido a conta, ele ficaria e tentaria saber mais. Não podendo, lamenta por deixar seu bilhete premiado sozinha no meio de tanta gente apressada demais para esperar o café esfriar.

Ela não esconde que aquela figura compenetrada de cabelos finos e curtos a interessava. Olhos debruçados no papel e, por vezes, nas pessoas, ele fingia uma calma agitada desde sua essência. Mal pôde disfarçar seu desapontamento em vê-lo levantar sem saber seu nome. Sem olhar para trás, ele anda apressado em direção ao seu destino ignorado. Voltando os olhos à mesa, ela nota um cartão com um número e uma frase elogiando seus olhos. Ela também achou os dele lindos.

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