Archive for the ‘Contos’ Category

Ouvidos Moucos

14/02/2013    Postado em Contos, Textos
 

Um homem toca em um lugar público. Toca para os passantes em troca de seu tempo, de seus cobres, extrai doce melodia de seu instrumento. Timidamente, o estojo aos seus pés vai sendo tingido por moedas, atiradas a ermo por pessoas ensurdecidas pela pressa.

Ao longo de uma tarde, ele toca o que aprendeu por anos no conservatório. Sons que foram populares e envelheceram, canções atemporais, sons recentes, melodias clássicas. Até que, às dezoito horas, ele parou.

Fechou os olhos, respirou fundo, e, como se sua própria alma cantasse, executou uma Ave Maria de Gounod que simplesmente não se podia ignorar. Por breves minutos, a calçada ficou mais coalhada de pessoas que por todo o dia e o estojo do instrumento foi preenchido com moedas e notas.

Em meio a aplausos, um professor de música, estupefato, rconheceu o rosto de um colega, trabalhando como artista de rua, abordando-lhe enquanto guardava o instrumento e recolhia os ganhos do dia. E ouviu um sorriso discreto explicar que, não, não deixara o conservatório. Aquele instrumento, sim, era de um artista de rua, morto na véspera, e aquela era sua homenagem e o meio que encontrara para garantir um funeral digno a um homem que tocava para almas a despeito dos ouvidos.

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O bote

13/09/2012    Postado em Contos, Textos
 

O olhar injetado. Audição direcionada, ignorando todo ruído que possa representar uma distração. Os músculos prontos para agir, num claro exemplo de reflexos aguçados. Ela sabe que não há espaço para duas pessoas, não há dois primeiros. Dois gatos podem dar o bote no mesmo pássaro, mas somente um deles terá sua refeição. O ruído do movimento aumenta a sensação de urgência e cada estalar de madeira a faz imaginar o momento da queda, a hora em que – é agora! O baque surdo a chama para agir. Só mais um som, e…

“Qua-ren-ta-e-dois!”
BINGO!

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Dois pra lá, dois pra cá

14/06/2012    Postado em Contos, Idéias
 

Ela estava sozinha. Nem todo mundo que vai ao cinema desacompanhado está solitário, mas ela parecia só. Comprou um copo de guaraná e um chocolate, nenhuma pipoca. A sessão tinha pouca gente, ela sentou no meio de uma fila e, três degraus acima e abaixo de sua poltrona, não havia ninguém.

Era um filme triste, um romance desses para ser visto com alguém que se possa abraçar com ternura, desses feitos para que se dê valor ao que se tem. Mas sua única companhia era o copo gelado. Tão logo as luzes se apagaram e o som das vinhetas invadiu a sala, destampou-o e derramou sobre o guaraná duas garrafinhas de uísque, daquelas de hotel. Lembrou da voz de Elis Regina, mexeu o copo con o canudo e deu um longo gole.

O interessante desses grandes cinemas é que, mesmo com poucas pessoas na sala, ninguém parece lhe notar. Ela estava, naquele momento, grata por isso, pois ninguém tentaria entender o que fazia uma mulher, tão bonita e bem arrumada, numa sala de cinema, no meio da tarde, completamente sozinha. E ela não teria de esconder de ninguém o vermelho em seus olhos, o nó na garganta, o sulco profundo no dedo anular da mão esquerda, denunciando que ela não deveria estar só, que ela já teve um motivo para estar ali.

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