Archive for the ‘Contos’ Category

Aquarela

30/06/2013    Postado em Contos, Textos
 

No início, recebia visitas em sua casa, tudo sempre muito organizado e emanando hospitalidade. Amigos e parentes aproveitavam sua companhia e visitavam frequentemente. Quanto mais se conhece uma pessoa, entretanto, mais fácil se torna perceber certas particularidades. E elas espantam as pessoas que nunca foram ensinadas a não se envergonhar de suas personalidades. Protocolos, convenções sociais. Entendia o que eram e para que existiam. O que não compreendia era a razão para tanta preocupação em moldar o outro.

Trabalhava com criação. Quem vê as mais belas pinturas num museu não faz ideia de quão caótico pode ser o estúdio de um artista. Aquela roupa bonita que veste para comparecer à vernissage não compõe sua personalidade. É uma concessão feita àqueles que aceitam apenas o resultado de seu processo criativo e não a criação por inteiro. É uma sociedade       que aceita filhos bem criados, mas somente depois de adultos, fazendo o possível para esconder o babador sujo de papa.

Quando percebeu que conter seu caos dentro de gavetas e atrás de portas não seria o suficiente para que as pessoas lhe aceitassem, desistiu de insistir no convívio. Das críticas à sua personalidade, tirou a lição de quem não era capaz de enxergar sua obra desde o primeiro risco, o primeiro parafuso, jamais aceitaria sua visão do mundo ou sua conduta. Contentou-se com a admiração dessas pessoas pela condensação, pelo resultado. Mesmo sabendo que, naquele resultado, pouco já restava de si. Sua arte, verdadeiramente, jaz no processo. Como a arte da Mona Lisa está na técnica, não no sorriso. Deixou de se importar com olhos e orgulhos feridos, concentrando-se em sua obra. Ao deixar este mundo, todo sentimento que materializou garantiu que nunca realmente partisse.

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Três Apitos

09/05/2013    Postado em Contos
 

Desde o tempo em que, passeando com o avô, encontrou num sebo uma edição  impecável do Tesouro da Juventude de 1920, Pedro visita lugares como a Rua Chile periodicamente, em busca de raridades semelhantes. De livros a discos, passando por velhas fotografias, seu acervo conta a história de uma Salvador que ficou na juventude de seu avô e não deixou substituta.  Ao longo dos anos, aprendeu a dissimular seu interesse para despistar o olhar ganancioso dos donos de sebo que pagam uma fração irrisória do que cobram por certos livros, numa das mais antigas expressões da lei de oferta e procura, da qual a usura é nota de rodapé.

Em uma dessas ocasiões, trocou a folga do trabalho para garimpar vinis na quarta-feira, que era dia de pouco movimento e preços mais realistas. Encontrou um disco de Noel Rosa impecável, sem um único arranhão, apenas a etiqueta solta. Logo ao lado, outro disco, de alguém que nunca fez sucesso fora de seu tempo e ele não sabia quem era, mas que devia valer bem pouco e também tinha a etiqueta solta. Não teve dúvidas: trocou os discos de capa e levou-os ao balcão, regateando desconto no Noel todo riscado e naquele pobre desdenhado que levava mais por curiosidade que por interesse. Em casa, embalou o disco de Noel, depois de limpo e com a etiqueta já colada, naquele papel simples e barato usado por vendedores de armarinho e baianas do acarajé e foi visitar o avô, que completava oitenta anos naquela data.

Com um sorriso de morder as orelhas, o doutor Isaías não conseguia decidir de qual presente gostava mais. Claro, um disco original de Noel Rosa em estado de novo era o equivalente musical de um anel de brilhantes, mas ele explodia de alegria com a história da compra do disco, desde a descoberta até a volta que o neto deu naquela raposa velha gananciosa. Deu um abraço apertado em Pedro e pôs o disco para tocar.

“Conhece essa música?”, perguntou-lhe ao som de Três Apitos. Diante da negativa, continuou. “Foi com ela que tive a atenção de sua avó. Cantei para ela, na porta da casa do pai dela, morrendo de medo dele aparecer e me escorraçar dali. Mas ela valia o sacrifício. Eu já tinha emagrecido cinco quilos, por falta de apetite, de tanto pensar nela.”

Abrindo o mesmo sorriso de cinquenta anos antes, D. Nair entra na biblioteca quando ouve a melodia e tira o marido para dançar, enquanto conta a Pedro como ele quase desmaiou no dia em que a pediu em casamento ao sogro. Depois, encaixou o queixo no ombro do companheiro de uma vida, fechou os olhos e deixou que as lembranças a fizessem jovem de novo, ao som daquela velha canção. E Pedro deu-se conta de que foi esse passado trazido de volta o maior presente que pôde dar ao avó naquela noite. Algo que em canto nenhum da cidade ou do mundo ele seria capaz de encontrar.

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Mãos ao alto!

07/03/2013    Postado em Contos, Textos
 

– Irmão, cê tem horas?

– Uhum, são…

Ele sentiu o cano frio do revolver na barriga.

– Seguinte, véi, isso é um assalto. Passa a carteira.

Ele passou.

– Vinte conto? Só?

– É, cê sabe como tá perigoso andar com dinheiro.

– Tá insinuando o que, moral? E essa tua carteira chique vale bem mais do que tem dentro dela.

– Fica com ela. Mas deixa os documentos, pode ser?

– Pode. Agora passa o relógio, anda.

– Que relógio?

– Tá me tirando, esperto? E essa marca no pulso é o que? Te parto a cara, viu?

– Eu saí sem relógio, tá no conserto, só fica pronto amanhã.

Bolsos apalpados, nada de relógio.

– E cadê o celular? Ninguém sai sem celular, cadê o teu? Passa logo!

– Rapá, me bati com um colega seu ontem. Celular, cartão de banco… só deixou carteira e documentos.

– Tu é azarado mesmo, hein? Né comigo não. Só tem a aliança, vai ela mesmo.

De olhos arregalados, ele explodiu.

– Mas nem a pau, Juvenal!

– Mermão, tá lembrado quem tá com a arma na mão? Quer morrer, maluco?

– Com a mulher que eu tenho? Faz um favor e atira logo na minha cabeça.

– Tá maluco mesmo, hein?

– Maluco eu seria de chegar sem aliança. Sem carteira, telefone, roupa, tudo bem. Sem aliança? O que ela vai fazer é muito pior que levar tiro. Tu só leva essa me matando, tô dizendo.

Nessa hora, toca o telefone do ladrão e tudo o que se ouve são berros do outro lado da linha.

– Tô te entendendo, véi. Seguinte: dá os vinte, toma esses dez e nunca conte isso pra ninguém ou eu te acho e te encho de porrada.

– Agora você me deixou confuso. Mas tá, valeu, eu acho.

– Confuso vou ficar eu de porrada se me atrasar pra levar o moleque no médico. Se a tua for braba como a minha, melhor tu tomar teu rumo também. Vaza daqui!

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