Passou da hora

18/06/2013 Postado em Idéias, Mensagens, Textos

Em 16 de maio de 2001, o Batalhão de Choque da PMBA, concretizando a profecia de Governador Mangabeira, invadiu o campus da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia com ordens de reprimir protestos contra o então senador Antônio Carlos Magalhães, implicado até os cotovelos no escândalo do painel eletrônico do Senado. Na ocasião, Arx Tourinho, Subprocurador-geral da República, desceu ao viaduto do Canela e terminou agredido pelos policiais. A Choque sitiou um edifício federal a mando de um político. A segunda parte da equação é igualmente familiar e semelhante ao que o grande circuito de imprensa vem tentando esconder. Os manifestantes, dentre os quais a grossa maioria era de estudantes, resistiram, pelejaram, e não desistiram.

A profecia do antigo governador Octávio Mangabeira, nome de batismo da Fonte Nova original, agora substituída por uma que carrega o nome duma coisa aguada que alguém resolveu chamar de cerveja, dizia “pense num absurdo; na Bahia, há precedente.” E é bem isso. 14 de junho de 2013 tem precedente mesmo depois de 1988, é o 16 de maio de 2001. Numa manifestação de democracia, a PM achaca igualmente, sem discriminação social, política ou de ocupação profissional. Ataca estudantes, profissionais liberais e até jornalistas que foram registrar o ocorrido. De novo, a mando de políticos, por interesses que pervertem a sua própria finalidade enquanto instituição.

Polícia é, para a sociedade, como aquele cão vigia, alerta, leal aos seus, protetor, zeloso. Polícia tem de ter maturidade, discernimento, retidão. Policial que agride, mesmo se provocado, com força desproporcional, que ataca quem deveria defender, mesmo que seguindo ordens, que fere direitos que deveria garantir não é mais que um infeliz que desonra sua função, sua farda, seu propósito. Policial que protege interesse político à custa de achacar cidadãos covardemente é tão torpe quanto babá que bate em criança, médico que mata paciente, advogado que lesa cliente. É a corja de sua classe, a completa desonra daquilo que representa.

E, logo, como os urubus que planam nas correntes de ar quente para poupar esforço, os grandes conglomerados de imprensa começam a mudar o tom. Primeiro, isoladamente, por meio de seus “colunistas independentes”. Aos poucos, quando notarem que o barco daqueles que lhes alimentam ameaça adernar, não apenas abandonam seus benfeitores como alegam isenção e ajudam a naufragá-los de vez. Perniciosos, querem apenas sobreviver. Fizeram isso em 64, novamente em 88 e em cada evento de mudança política que ocorreu desde então. Por favor, duvide das minhas palavras. A dúvida é o que nos mantém alertas. Procure artigos das grandes semanárias datados de 1989 e, depois, de 1992. 2001 e 2008. Forme sua opinião, uma que não seja emprestada de uma facção política.

Alguém começou a propagar a ideia ridícula de que discutir política é como discutir futebol. Certamente com o mesmo intento do varejo financeiro ao criar o parcelamento sem juros, uma das formas mais engenhosamente Houdinianas de lesar o consumidor. Eu não saberia dizer o que há de apaixonante no futebol, mas sei que as pessoas falam dele por paixão. Política não tem nada de paixão. É razão, debate, ideias. Toda vez, e eu realmente fecho a porta às exceções, que alguém fala de política com paixão, um cheiro de peixe podre estupra-me as narinas. Existem aqueles que defendem ideais com fervor, como Ruy Barbosa. Quando alguém fala de política apaixonadamente, deixe-o falar por tempo o bastante e ele vai citar um nome. Seja de um partido, de um livro ou seu autor ou de um político, esse nome surgirá. E, com ele, a origem daquilo que o apaixonou na política. Provavelmente, algo fictício, criado com o único propósito de angariar simpatizantes.

Testemunhei isso muito detidamente nos meus anos de faculdade. Pessoas defendendo apaixonadamente o que lhes disseram ser uma ideologia. Mais adiante, as mesmas pessoas usando verba dos Centros Acadêmicos para fins alheios à atividade e aos interesses dos estudantes que os elegeram como representantes. Era notória a relação de vovó e netinho dessas pessoas com a Universidade, alguns chegando a ter sua bolsa de estudos mantida mesmo perdendo matérias por falta. Em campanha, uma das chapas apareceu com adesivos coloridos. Custavam uma fortuna em dinheiro de estudante. Deixando-os à vontade para falar, vem à tona o nome. Um partido, cujo nome omito para que, como os outros, apodreça e caia no ostracismo, mandou imprimir. Na sua gráfica própria, e sem cobrar nada por isso. A finalidade era clara, angariar novos membros para sua ala jovem. A tática dos espelhinhos e miçangas, eficaz desde 1500. Uma outra pessoa que conheço dessa época, que defendia fervorosa e incondicionalmente determinado partido, segredou-me anos mais tarde que foi trabalhar para o diretório estadual após receber sua inscrição na OAB e demitiu-se algum tempo depois. O motivo: eles provavelmente queriam o mesmo fervor altruista, já que lhe atrasaram um trimestre inteiro de salário. E não creio que por falta de verba.

Ser político, portanto, não tem nenhuma ligação com partidarismo. Ser político é reunir-se com outras pessoas que partilham dos mesmos objetivos e organizar-se para atingí-los. Não existe reunião verdadeira de ideias afins porque uma ideia dificilmente se replica com a mesma forma em duas cabeças. Digo isso como quem cria personagens e sabe que, se não descrever a cor do cabelo, dois leitores podem imaginá-lo de cores distintas. E isso é normal. O que não é normal é essa perversão chamada partidarismo, onde meia dúzia convence o resto do rebanho e não tarda a mostrar as unhas. Basta ler nas entrelinhas, procurar o que a imprensa omite. Nem o sindicalismo é legítimo. Viciados pelo pernicioso imposto sindical, usam discursos inflamados cheios de “luta” e “categoria” para contentar-se com migalhas. Não pode ser acidente. Uma pessoa que não trabalha não pode representar trabalhadores. Uma agremiação sustentada pelo Estado não vai morder a mão que o alimenta. E nada fala mais claramente contra o partidarismo que as alianças incestuosas entre políticos que estiveram a um passo de fazer bonecos de vodu uns dos outros há vinte anos, talvez menos, e aparecem sorridentes e aos abraços, insultando nossa inteligência. Os partidos de nosso país, se alguma vez tiveram legitimidade, não passam, hoje, de um teatro cínico de gente que se reveza nos papéis de mocinhos e bandidos para nos distrair enquanto levam nossas carteiras. E nem um movimento legítimo como o que se instalou pelo país afora escapa dos sanguessugas que buscam colocar sua marca de qualquer forma, persistentes como mosquitos. Mas esses, coitados. Massa de manobra. A solução para eles é colocar o flautista pra correr e esperar que se dissipem. Em 2001, ACM terminou renunciando ao mandato. O carlismo virou fumaça e se dissipou. Torço que 2013 faça o mesmo com o partidarismo. Passou da hora, e nós merecemos.

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