Aquarela

30/06/2013 Postado em Contos, Textos

No início, recebia visitas em sua casa, tudo sempre muito organizado e emanando hospitalidade. Amigos e parentes aproveitavam sua companhia e visitavam frequentemente. Quanto mais se conhece uma pessoa, entretanto, mais fácil se torna perceber certas particularidades. E elas espantam as pessoas que nunca foram ensinadas a não se envergonhar de suas personalidades. Protocolos, convenções sociais. Entendia o que eram e para que existiam. O que não compreendia era a razão para tanta preocupação em moldar o outro.

Trabalhava com criação. Quem vê as mais belas pinturas num museu não faz ideia de quão caótico pode ser o estúdio de um artista. Aquela roupa bonita que veste para comparecer à vernissage não compõe sua personalidade. É uma concessão feita àqueles que aceitam apenas o resultado de seu processo criativo e não a criação por inteiro. É uma sociedade       que aceita filhos bem criados, mas somente depois de adultos, fazendo o possível para esconder o babador sujo de papa.

Quando percebeu que conter seu caos dentro de gavetas e atrás de portas não seria o suficiente para que as pessoas lhe aceitassem, desistiu de insistir no convívio. Das críticas à sua personalidade, tirou a lição de quem não era capaz de enxergar sua obra desde o primeiro risco, o primeiro parafuso, jamais aceitaria sua visão do mundo ou sua conduta. Contentou-se com a admiração dessas pessoas pela condensação, pelo resultado. Mesmo sabendo que, naquele resultado, pouco já restava de si. Sua arte, verdadeiramente, jaz no processo. Como a arte da Mona Lisa está na técnica, não no sorriso. Deixou de se importar com olhos e orgulhos feridos, concentrando-se em sua obra. Ao deixar este mundo, todo sentimento que materializou garantiu que nunca realmente partisse.



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