Archive for junho 20th, 2013

As coxinhas e o vinagre

20/06/2013    Postado em Comentários, Textos
 

Depois que Washington Olivetto deixou o cativeiro, muito se falou nas coxinhas do Frangó. Um elogio seu foi divulgado e a fama dos salgados correu o país. Eu era mais novo, tinha acabado de entrar na Faculdade de Direito, e durante anos alimentei o desejo de experimentar uma daquelas coxinhas. Fui a São Paulo várias vezes desde então, mas nunca tive oportunidade de ir à Freguesia do Ó averiguar a veracidade das alegações daquele senhor cujo paladar foi tão comentado naquela época. Foi em 2005 que eu finalmente tive a chance de experimentar um dos ícones da gastronomia paulistana – o sanduíche de mortadela do Mercado Municipal. Mas, chegando lá, o dono do meu coração e posseiro de meu estômago foi, mesmo, o sanduíche de lascas de pernil.

Tal é a influência de uma opinião que acontece isso, você tem vontade de experimentar tal prato, adotar tal ideia. Às vezes, nem é uma opinião, mas a pessoa lhe indica um objeto com tal competência que você termina comprando. Não se envergonhe, você não é o único. Quantas pessoas pegaram o telefone depois de ver um anúncio do Bottini? O fato é que tanto o meio quanto a sugestão das pessoas são fatores poderosos na formação de nossas opiniões e escolhas. Assim, é preciso ter muito cuidado com elas. Ou, ao menos, com as importantes. Compare, como você compara o sanduíche da foto com o da sua bandeja.

Você não escolhe com quem vai casar com base na opinião de um terceiro, porque precisa formar convicções cegamente baseadas na opinião de um colunista? Ideias são bichos traiçoeiros. Quem trabalha com elas sabe que têm vida própria. O sujeito pode morrer dizendo de sua isenção. Ele não é. Ele não pode ser. Não se ele escreve baseado numa ideia. Não se ele escreve para um veículo com agenda política. Nenhum de nós é interno de berçário, somos capazes de compreender que todo veículo de imprensa de grande porte neste país tem uma agenda política. Pode até não ser clara à primeira vista, mas ela sempre existe. O que é natural, já que pertence a humanos, que são seres políticos. Você tem uma agenda política, eu tenho, ele tem. Ela pode beirar a simploriedade, mas pondere e verá que ela existe.

Pondere mais um pouco, analise os acontecimentos da última semana. Eles estarão nos livros de História de seus netos. Há um certo consenso em alguns tópicos, como o fim da corrupção – algo que, realmente, não pede lá muita reflexão – mas há coisas controversas. Esse papo de impeachment que vem surgindo nos últimos dois dias é um deles. Não vi ninguém falando disso até o domingo, mas logo na segunda-feira, surgiu a conversa aqui e ali. De onde veio isso? Qual a semente dessa ideia? A quem aproveita o impeachment da presidente (sim, com e; dane-se a lei ególatra dela)? Ainda teríamos de esperar 2014 para escolher novos representantes. Até lá, sobra quem? Temer? Renan? Nutro severa antipatia pelas políticas populistas de sua gestão. Alinhado com os manifestantes, antipatizo ainda mais com os gastos públicos para a realização dum evento que, digam o que disserem, não é do Brasil. É da FIFA. É um nível e uma natureza de desperdício de nosso dinheiro tão profundo que eu não consigo encontrar um adjetivo que não torne obrigatória a censura deste texto para menores de dezoito anos. Sim, é por aí.

Mas nem isso é tão perigoso. Nós lidamos com corruptos desde o tempo de Gregório de Mattos. Mal e porcamente, mas sua natureza nos é familiar. O perigo reside em atitudes impensadas e ideias emprestadas. Do colunista de ideias reacionárias que ventila – eles nunca realmente propõem, mas plantam a ideia nos leitores, na expressão de uma arte manipulativa centenária – soluções rápidas mas que estupram as instituições democráticas. Estupram mas não matam, então tudo bem? Não, tomem a história como exemplo. A Bastilha caiu porque o povo tinha fome. Mas o povo, na verdade, foi guiado, manobrado, por uma dúzia de intelectuais. E então, quando aquelas ideias radicais plantadas para tirar o povo da inércia frutificaram, cabeças começaram a rolar até dentro do movimento. Literalmente. Também vi falarem numa modalidade neomalufista – rouba, mas faz – do já entrou, agora deixa. Usar o dinheiro dos turistas para tapar o rombo dos superfaturamentos e outros absurdos. Por que esse conformismo? É tão mais produtivo incitar quem tiver prova dos desvios, anonimamente, que seja, a apresenta-las ao Ministério Público. Fazer correr na Internet. Afirmo categoricamente, se coisas dessa natureza vazarem, a divulgação é garantida. Alguém que queira expor maquiagem contábil de concessionárias, denunciar propina, apresentar documentação comprovando improbidade administrativa. Não devemos nada a quem lesa o erário. É, precisamente, o contrário. E, como li ontem, se nós conservarmos a lição de que, indo às ruas para protestar pacificamente, conseguimos resultados, já terá valido a pena. Embora eu tenha mais fé nas pessoas do que apenas isso.

Dia desses, próxima vez que pisar os pés em Sampa, talvez, finalmente, eu consiga experimentar a famosa coxinha. Isso se algum outro prato não prender minha atenção no caminho.

Sem Comentários