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Três Apitos

09/05/2013    Postado em Contos
 

Desde o tempo em que, passeando com o avô, encontrou num sebo uma edição  impecável do Tesouro da Juventude de 1920, Pedro visita lugares como a Rua Chile periodicamente, em busca de raridades semelhantes. De livros a discos, passando por velhas fotografias, seu acervo conta a história de uma Salvador que ficou na juventude de seu avô e não deixou substituta.  Ao longo dos anos, aprendeu a dissimular seu interesse para despistar o olhar ganancioso dos donos de sebo que pagam uma fração irrisória do que cobram por certos livros, numa das mais antigas expressões da lei de oferta e procura, da qual a usura é nota de rodapé.

Em uma dessas ocasiões, trocou a folga do trabalho para garimpar vinis na quarta-feira, que era dia de pouco movimento e preços mais realistas. Encontrou um disco de Noel Rosa impecável, sem um único arranhão, apenas a etiqueta solta. Logo ao lado, outro disco, de alguém que nunca fez sucesso fora de seu tempo e ele não sabia quem era, mas que devia valer bem pouco e também tinha a etiqueta solta. Não teve dúvidas: trocou os discos de capa e levou-os ao balcão, regateando desconto no Noel todo riscado e naquele pobre desdenhado que levava mais por curiosidade que por interesse. Em casa, embalou o disco de Noel, depois de limpo e com a etiqueta já colada, naquele papel simples e barato usado por vendedores de armarinho e baianas do acarajé e foi visitar o avô, que completava oitenta anos naquela data.

Com um sorriso de morder as orelhas, o doutor Isaías não conseguia decidir de qual presente gostava mais. Claro, um disco original de Noel Rosa em estado de novo era o equivalente musical de um anel de brilhantes, mas ele explodia de alegria com a história da compra do disco, desde a descoberta até a volta que o neto deu naquela raposa velha gananciosa. Deu um abraço apertado em Pedro e pôs o disco para tocar.

“Conhece essa música?”, perguntou-lhe ao som de Três Apitos. Diante da negativa, continuou. “Foi com ela que tive a atenção de sua avó. Cantei para ela, na porta da casa do pai dela, morrendo de medo dele aparecer e me escorraçar dali. Mas ela valia o sacrifício. Eu já tinha emagrecido cinco quilos, por falta de apetite, de tanto pensar nela.”

Abrindo o mesmo sorriso de cinquenta anos antes, D. Nair entra na biblioteca quando ouve a melodia e tira o marido para dançar, enquanto conta a Pedro como ele quase desmaiou no dia em que a pediu em casamento ao sogro. Depois, encaixou o queixo no ombro do companheiro de uma vida, fechou os olhos e deixou que as lembranças a fizessem jovem de novo, ao som daquela velha canção. E Pedro deu-se conta de que foi esse passado trazido de volta o maior presente que pôde dar ao avó naquela noite. Algo que em canto nenhum da cidade ou do mundo ele seria capaz de encontrar.

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