Archive for abril, 2013

E Golias leva a melhor

09/04/2013    Postado em Diversos
 

Poucas coisas são mais ultrajantes que alguém com poder cercear, de alguma forma, o direito de outra pessoa. Uma vez, contou-me um segurança de shopping que, ao tentar abordar uma jovem senhora que estacionou em vaga reservada a pessoas com mobilidade reduzida, levou uma bela carteirada – a distinta era juíza. Esse é um exemplo. Outro, também grave, nós vemos quando uma pessoa, ou grupo de pessoas, se vale indiscriminadamente de um benefício e prejudica aqueles que fazem uso legítimo do mesmo. Caso da eterna crise das carteiras de meia-entrada. Ou da imunidade tributária concedida a instituições religiosas.

Normalmente, eu opto por não falar sobre religião. Em meu entender, fé é algo íntimo, privado, pessoal. Como aquelas partes de nosso corpo que guardamos com pudor a maior parte do ano. Algumas pessoas, no entanto, tratam sua fé como as pessoas tratam essas partes durante o carnaval, deixando-a à mostra e esfregando-a nas fuças de quem passa. Por insegurança, intolerância ou qualquer outro motivo que, francamente, não me interessa. Só que não estou falando de fé, no momento, mas da instituição religiosa em si. A congregação que reúne pessoas que, teoricamente, professam a mesma fé.

Teoricamente, porque meia dúzia ali dentro, em alguns casos, parece professar fé, mesmo, é pelo sagrado templo da Casa da Moeda. Fazem do credo alheio um negócio e tentam monetizar toda e qualquer coisa relacionada aos seus dogmas, sem o mais diminuto pudor. Notem que não aponto o dedo a nenhuma congregação, mas todos nós pensaremos no nome de uma ou duas imediatamente após ler tal acusação. É o mesmo que levantar dúvida sobre a honestidade dos políticos, embora eu acredite que o caro leitor terá dificuldade de focar em menos de meia dúzia de nomes, nesse caso.

O fato é: existe a imunidade religiosa e ela beneficia pessoas sérias que professam uma fé mas não ganham nada com ela e, sem a dispensa de recolhimento dos impostos, jamais seriam capazes de dar a segurança de uma sede própria ao seu grupo, ou mesmo de mantê-lo funcionando. Para esses pequenos grupos, até o dinheiro do IPTU faz falta. As grandes empresas da fé não os prejudicam diretamente, é preciso dizer. O grande mal, muito pior que se fosse um ataque direto, acontece quando sua total falta de escrúpulos angaria tanta antipatia que campanhas pedindo o fim da imunidade tributária para congregações religiosas começam a surgir. Nessa hora, Davi perde e Golias leva a melhor.

E, em um momento histórico em que até ateus começam a se reunir em congregações – embora, em seu caso, seja a falta de fé a cola que os une – e vários se voltam contra os demais, isso é particularmente perigoso. Lá no Leste, nós vemos o que a intolerância, tanto religiosa quanto política, provoca a longo prazo, mas isso parece não impedir que alguém tenha a brilhante ideia de juntar todos numa panela de pressão e coloca-la sobre o fogo. E esquecem que todos os credos verdadeiros, todas as morais verdadeiras, pregam a mesma coisa: seja bom, justo, honesto, útil, caridoso, sensato. Eu diria que não pode ser tão difícil, mas essa patota que procura apenas uma oportunidade de comprar briga provaria que estou errado.

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Chaves velhas

04/04/2013    Postado em Crônicas
 

Você põe a mão no bolso e tira um objeto tão familiar que consegue enxergá-lo com os dedos. Seu chaveiro. A posição de cada chave já nem lhe custa pensar, é como o câmbio do carro, memória muscular. De tal forma que, quando alguém lhe pede uma chave emprestada, você não diz qual, apenas passa os dedos no chaveiro e, segurando a ponta da chave correta, entrega-o à pessoa.

Pode acontecer de uma chave perder sua utilidade, como a que abria a gaveta que você desocupou ao trocar de emprego, ou a que abria a porta de um endereço que não é mais o seu. Algumas vezes, essa percepção vem quando o chaveiro ficou volumoso e passou a incomodar no bolso, forçando uma revisão das chaves que ele carrega. Outras, você resolveu faxinar uma gaveta e encontrou, por acaso, mas nem consegue lembrar que porta ela abria. E nessa hora, como quando alguém deixou escapar que Papai Noel era seu pai fantasiado, a ilusão do tempo se quebra. Como as coisas mudam. Como aquele problema do passado não era um fardo tão pesado quanto aparentava. Ou algo que parecia tão bom e era exatamente tão incômodo quanto lhe alertavam as pessoas. E, claro, existem aquelas chaves que voltam para a gaveta ao fim da faxina. Elas não abrem mais portas, mas as memórias que evocam abrem sorrisos.

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