Os nossos rumos

25/04/2013 Postado em Crônicas

Da importância do ofício do professor, muito se diz. Seu grau de preparo e seu empenho são determinantes na formação dos alunos que passam pela sala de aula. Um aspecto, no entanto, não me lembro de ter ouvido falar. Um que tem muito a ver com seu lado humano, sua personalidade, e pouco com o que ele leciona.

Parem um instante e tentem lembrar dos seus professores do colégio. Se vocês, como eu, tiverem ao menos dez anos que saíram da escola, já devem começar a ter dificuldade de lembrar alguns rostos. Quase vinte anos, então, é simplesmente impossível descrever como eles se pareciam. Mas, certamente, pelo menos dois vocês devem lembrar. Aquele com quem tinha maior afinidade e aquele por quem desenvolveu aversão.

Claro que, com o nosso ensino colegial se estendendo por treze anos, é pouco provável que existam apenas dois desses professores em suas memórias. Mas o interessante é associar o resultado de nossa educação, quem nos tornamos depois desses anos todos, que rumos escolhemos, a essas pessoas. Se você tem um flerte com determinado tema e um professor que é simplesmente intragável, ou é apenas dono de uma didática mil oitocentista, passa o ano inteiro falando daquilo, é de se esperar que esse flerte simplesmente se apague. Por outro lado, se você gosta de uma matéria ou um ramo profissional que esteja ligado a ela (ou, ainda, algo sobre o que o professor tenha vivência e a partilhe de forma interessante) e esse assunto é tratado na sala de maneira que lhe estimule a estudar mais, pode ser o empurrão que lhe faltava para escolher aquele caminho.

Achei uma pasta com provas do colégio e percebi essa ligação. Eu gostava muito de ciências naturais e exatas, vivia enfiado no laboratório. Até hoje, flerto um bocado com as ciências exatas, mas o que me afastou muito delas foi passar metade do curso de ginásio tendo de lidar com uma professora de personalidade, digamos, difícil. Tive bons professores de física e química mais adiante, mas corri do ramo por pura aversão ao cálculo. Por outro lado, gosto das letras desde muito novo. As professoras de redação foram me cobrando melhorias ao longo dos anos, mas foi uma delas, em particular, que nunca estava realmente satisfeita com o que eu lhe entregava, quem me provocou de verdade. O dia em que arranquei um elogio daquela senhora da risada escandalosa – e escrevo isso porque, se ela ler, saberá que falei dela – foi uma das melhores coisas daquele ano. Acabei indo para a faculdade de direito, mas talvez eu tivesse escolhido melhor o Instituto de Letras. É cedo para dizer. Daqui a dez anos eu revisito o assunto.



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