O Ruído dos Insolentes

11/04/2013 Postado em Crônicas

Eu queria um conto para hoje, mas minhas ideias não puderam competir com a pirotecnia daquele circo em Brasília. É um lugar único, onde a plateia foi toda maquiada de palhaços e que funciona numa escudela gigante, numa demonstração cortante de ironia. Aquilo é nível Machado de Assis, não dá pra competir.

Dentre os talentos que se apresentam naquele circo, há um espetacular coprófono. Ao longo de anos de treino diário e intenso, ele dominou a arte de reverter seu trato digestivo e expelir pelo lado de cima aquilo que nós expelimos pela outra ponta. Prata da casa, mais precisamente trinta moedas dela, ele mostra que não é preciso muito esforço para ofender e espezinhar grupos inteiros de cidadãos, os mesmos de cujos bolsos sai a comida que deveria entrar por onde ele ejeta suas atrocidades. Ele é tão bom nisso que faz parecer ser possível dormir à noite depois de fazê-lo. Segredinho sujo: há quem diga que seu sucesso profissional se deve a uma cirurgia secreta de excisão de consciência. Se procurarem direito, devem achar uma cicatriz como a que Phineas Gage tinha. Algo mais discreto, talvez. Ele não ia querer que isso dividisse a atenção de sua plateia com a performance.

O sucesso dessa atração tem tirado, no entanto, o devido reconhecimento de outros artistas. São centenas deles, e alguns ocupam posições de apoio, mas há três mágicos sensacionais que mereciam nossa atenção. O primeiro deles tem um número que recebe a ajuda do meio-ambiente para ser executado. O ponto alto é quando ele serra o ambiente ao meio. Dizem que ele enfrenta problemas para reverter o truque no final, mas ele rebate dizendo que não são dificuldades técnicas e o truque é assim mesmo.

Os outros dois mágicos trabalham em dupla e operam um sofisticado número de ilusionismo. A plateia fica com a ilusão de que ser condenado pela mais alta corte de justiça do país serve para algo e, quando os holofotes do picadeiro os perdem de vista, nós descobrimos que eles estão escondidos no lugar onde se fala de justiça.

Claro que esses artistas mereciam maior destaque, mas a culpa disso é da equipe responsável pela impressão dos cartazes. Aparentemente, eles nutrem alguma simpatia, uma paixonite, pelos mágicos e os desejam só para si, não deixando que ninguém fale neles. Quando alguém tenta, logo eles desviam o assunto de volta para o novo sucesso da casa. “Olhem como cheira mal a boca dele, olhem como sai marronzinha e grande de sua boca!”, exclamam, maravilhados. Claro, é uma sensação, é um artista e tanto. Mas nós estamos na plateia não é para vê-los? Ou é para que tenham certeza de onde estamos? E o filme que conta essa história, porque aqui agora se faz filme contando história até do pipoqueiro que trabalha na frente do estádio, terá um título inspirado num grande sucesso. Chamar-se-á “O Ruído dos Insolentes”, mas, lamentavelmente, nós não conseguimos um canibal que aceitasse comer os miolos dos nossos artistas. Fica pra outra vez.



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