Chaves velhas

04/04/2013 Postado em Crônicas

Você põe a mão no bolso e tira um objeto tão familiar que consegue enxergá-lo com os dedos. Seu chaveiro. A posição de cada chave já nem lhe custa pensar, é como o câmbio do carro, memória muscular. De tal forma que, quando alguém lhe pede uma chave emprestada, você não diz qual, apenas passa os dedos no chaveiro e, segurando a ponta da chave correta, entrega-o à pessoa.

Pode acontecer de uma chave perder sua utilidade, como a que abria a gaveta que você desocupou ao trocar de emprego, ou a que abria a porta de um endereço que não é mais o seu. Algumas vezes, essa percepção vem quando o chaveiro ficou volumoso e passou a incomodar no bolso, forçando uma revisão das chaves que ele carrega. Outras, você resolveu faxinar uma gaveta e encontrou, por acaso, mas nem consegue lembrar que porta ela abria. E nessa hora, como quando alguém deixou escapar que Papai Noel era seu pai fantasiado, a ilusão do tempo se quebra. Como as coisas mudam. Como aquele problema do passado não era um fardo tão pesado quanto aparentava. Ou algo que parecia tão bom e era exatamente tão incômodo quanto lhe alertavam as pessoas. E, claro, existem aquelas chaves que voltam para a gaveta ao fim da faxina. Elas não abrem mais portas, mas as memórias que evocam abrem sorrisos.



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