Ouvidos Moucos

14/02/2013 Postado em Contos, Textos

Um homem toca em um lugar público. Toca para os passantes em troca de seu tempo, de seus cobres, extrai doce melodia de seu instrumento. Timidamente, o estojo aos seus pés vai sendo tingido por moedas, atiradas a ermo por pessoas ensurdecidas pela pressa.

Ao longo de uma tarde, ele toca o que aprendeu por anos no conservatório. Sons que foram populares e envelheceram, canções atemporais, sons recentes, melodias clássicas. Até que, às dezoito horas, ele parou.

Fechou os olhos, respirou fundo, e, como se sua própria alma cantasse, executou uma Ave Maria de Gounod que simplesmente não se podia ignorar. Por breves minutos, a calçada ficou mais coalhada de pessoas que por todo o dia e o estojo do instrumento foi preenchido com moedas e notas.

Em meio a aplausos, um professor de música, estupefato, rconheceu o rosto de um colega, trabalhando como artista de rua, abordando-lhe enquanto guardava o instrumento e recolhia os ganhos do dia. E ouviu um sorriso discreto explicar que, não, não deixara o conservatório. Aquele instrumento, sim, era de um artista de rua, morto na véspera, e aquela era sua homenagem e o meio que encontrara para garantir um funeral digno a um homem que tocava para almas a despeito dos ouvidos.



Deixe seu Comentário