Bom oportunismo

28/02/2013 Postado em Crônicas, Textos

O ser humano é um tipo único de animal. A espécie mais próxima tem código genético mais de 95% semelhante ao nosso, mas temos dedos opositores, andamos eretos e temos um cérebro bem mais complexo, capaz de, entre outras coisas, articulação de linguagem oral e escrita – embora haja o perigo latente dessa habilidade cair em desuso, ensina a internet. Temos a pretensa exclusividade da consciência da personalidade e dividimos a noção de finitude com poucos animais, como os elefantes. Ainda assim, temos uma dificuldade tremenda de enxergar além dos nossos horizontes.

O primeiro parágrafo me deu a impressão de que o texto tomou outro rumo, mas isto é uma crônica, de como é difícil para nós, humanos, perceber a real dimensão das coisas que nos acontecem. Parece até fisiológico, é como uma formiga se dar conta de que o gramado não é a Amazônia. Você se atrasa dez minutos e encontra vaga no estacionamento que vive cheio. Passa a vida entre relacionamentos pessoais e profissionais desastrados e, de súbito, algo extraordinário lhe acontece justamente quando você joga a toalha. Como o “não existe almoço grátis”, nada do que nos acontece de bom é gratuito. Provavelmente o mesmo vale pro que nos acontece de mal, mas eu é que não cutuco esse vespeiro.

Ensino médio, Segundo grau, Científico. Varia de acordo com a sua idade, mas nessa época é quando o professor se esgoela para nos ensinar física clássica. Quando você brinca com o pêndulo de Newton e a bola na ponta oposta pula, é o mais didático exemplo de ato e consequência que vai ter. Basicamente, tudo o que fazemos é composto de módulo, direção e sentido. Ainda que não sejamos capazes de visualizar, tudo o que mandamos para o mundo vai voltar. Não é uma questão de “se”, mas de “quando”.

Então, se o seu chefe acordou de bom humor depois de lhe maltratar sistematicamente e lhe deu um aumento, ficar feliz e abraça-lo não é indício de síndrome de Estocolmo, acalme-se. Você plantou, tem todo o direito de colher e ficar feliz por isso. O mesmo para aquela pessoa que lhe cativou depois de anos se esforçando para encontrar alguém, justamente quando você havia desistido. Ou aquele dinheiro que chegou na hora do sufoco. Ou um sanduíche pouco saudável. Se você fez tudo certinho, não há mal nenhum em curtir essas oportunidades que a vida lhe apresentou. São a sua paga. Agradeça e aproveite. Apenas tenha em mente que, se você deveria ter recebido um pedaço de carvão em lugar da bicicleta que achou sob a árvore de Natal, a vida vai lhe cobrar mais adiante. E se, como foi comigo, ela lhe ensinou isso logo cedo, use a visão conquistada a seu favor e a favor dos outros. Mais dos outros, até. Nada passa despercebido e amanhã sempre será outro dia.



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