A pedra

07/02/2013 Postado em Crônicas, Textos

O cérebro é uma coisa fantástica. A gente cresce ouvindo o clichê “cada cabeça é um mundo” e não faz ideia de como ele é verdadeiro, muito além da personalidade. O cérebro enxerga além das letras, ouve além do som, saboreia sentimentos, digere ideias. E nós estamos tão habituados às suas capacidades que nos esquecemos de dar-lhe a devida manutenção. Como o carro que rodou com o cárter quase vazio por dois meses porque a proprietária anterior nunca havia trocado o óleo. Até hoje não entendi como o motor não foi para o espaço.

A digestão do cérebro é um bocado parecida com a processada por estômago e intestinos. A maior diferença está no que você põe para dentro. Sua cabeça não digere uma lasanha. Mas ela pode digerir a ideia de uma lasanha, o cheiro, a sua satisfação em cobrir a língua de lasanha quente. Essa digestão também vai gerar subprodutos, vai nutrir e… vai gerar detritos. Sim, seu cérebro defeca. Não quimicamente, talvez, nem verbalmente – embora alguns humoristas insistam em nos provar o exato oposto. Mas eles ficam lá dentro e, depois de um tempo, começam a impedir que as coisas novas fluam. Se você remói um sentimento por muito tempo, vai ficando difícil se empolgar com algo que, antes, lhe trazia alegria. Se você não tira uma ideia da cabeça, ela obstrui a passagem das outras, como uma borra de tinta seca na ponta da caneta.

A beleza desse cenário reside em duas coisas. Primeira e, talvez, mais importante: tal como sua pele, o cérebro regenera. Eu ia dizer “tal como o fígado do Jaguar”, mas há suspeitas de que ele seja mutante. Se você remove o corpo estranho que provocou a reação, logo tudo voltará ao seu normal. E, quando o estrago for irremediável, ele ainda pode dar um jeito, compensar, redistribuir.

A segunda coisa é: a cura de uma constipação mental pode não ter nada a ver com a sua causa. Aparentemente. Se uma frustração emocional lhe afligiu, você não precisa verbalizar isso a noite inteira para o pobre garçom cujo braço você agarrou com a determinação de uma criança pequena que não quer ficar sozinha no primeiro dia de aula. Especialmente se você souber tocar violão e achar que fica bem de chapéu de peão.

O importante é desobstruir a cuca, tirar essas coisas inúteis, que nos tiram o sono e impedem sorrisos e ideias, do caminho. Da maneira que melhor lhe aprouver. Fotografar, pintar, escrever prosa, poesia, sujar a cara de graxa debaixo do carro, jogar bola. O que realmente é relevante não é a forma, mas o resultado. Se o que lhe relaxa é lavar uma pilha de louça, detergente a postos! Uma vez, no colégio, um professor contou sobre a entrevista em que Drummond falava sobre a origem da pedra daquele poema famoso. Não vou contar o que ele disse. Mas a gente precisa manter o caminho livre delas. Ou não vai conseguir evitar os tropeços. E quem gosta de tropeço é dono de clínica ortopédica.



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