Nunca pare

17/10/2012 Postado em Crônicas, Textos

Existem máquinas muito antigas, como algumas que remetem à Revolução Industrial, que nunca pararam de funcionar. Há poucos dias, li sobre imensas prensas hidráulicas com meio século de atividade e um transportador de naves usado na Flórida pela NASA desde quando ficou pronto, há coisa de três décadas, e sem data para ser aposentado.

Aposentadoria. Antigamente, era algo que acontecia muito próximo da morte. O cálculo que estimava o momento em que devemos parar de trabalhar era feito com base na expectativa de vida da época. Hoje, vive-se, tranquilamente, vinte anos depois disso, possivelmente mais. O problema é que o corpo humano é tão máquina quanto um relógio a vapor do século dezenove. E, como o relógio, se você lhe tira aquilo que o move, muito provavelmente enferrujará, desenvolverá problemas. Mais rapidamente do que seria natural, deixará de funcionar irremediavelmente.

Se alguém, algum dia, lhe disser que sabe o que é melhor para você, duvide. Se essa pessoa lhe recomendar que você pare de fazer aquilo que lhe move, desobedeça. Mesmo que não seja, disse ele, saudável. Saudável é aquilo que lhe faz bem à mente. Se o corpo discorda, dose, mas nunca deixe de fazer o que lhe faz sentir vivo. Mente sã em corpo são faz sentido, mente inerte em corpo são é desperdício de tempo e espaço. Se, um dia, eu pagar um profissional para ter sua opinião sobre minha saúde e ele opinar que as coisas que me dão vontade de sair da cama, na verdade, me fazem mal, troco de profissional. Porque eu já testemunhei no que dá ouvir gente que se considera dono da razão. Testemunhei o envelhecimento acentuado e precoce de alguém que obedeceu um profissional de saúde e parou de fazer uma das poucas coisas que lhe dava prazer. Sentia dor, desgaste articular, e obedeceu. Parou de vez. Agora, seu corpo tem razoável saúde, para sua idade avançada. Mas não soube dizer meu nome. Morri um pouco hoje, porque percebi que a dor que ela sentia poderia ter sido tratada, gerenciada. Mas o que abriu mão lhe tomou algo que não pode ser recuperado. Hoje, se eu tiver de desejar votos a alguém, eles dirão “nunca pare, nunca deixe que lhe parem, até que seus pulmões parem.”



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