Archive for setembro 16th, 2012

Bípedes tristes

16/09/2012    Postado em Diversos
 

No fim de 2008, nós adotamos uma adorável Lhasa Apso. Não é um adjetivo vazio,  ela é mesmo encantadora. Eu lembro até hoje de cenas como o dia em que ela aprendeu, observando uma teimosa São Bernardo, a segurar a própria correia com a boca quando estava com coleira e queria passear. Vinha nos dar bom dia todas as manhãs e era a última a dormir. Nem sempre queria vir se chamávamos, mas quase sempre me pedia colo quando eu me sentava diante do computador.

 Quando minha esposa, que é asmática, começou a tossir persistentemente, não associamos a nada de casa. A limpeza é bem executada e ela nunca teve alergia a cães. Mas a tosse não ia embora e, após investigação, descobrimos que era isso mesmo, ela desenvolvera alergia e não poderíamos ter mais um cachorro em casa. Ficamos divididos entre a nossa dor e o sentimento de rejeição da nossa cadela, que veio morar conosco com um ano e meio de idade, trazida às pressas por aqueles que a criaram desde filhote depois de nos ter sido oferecida apenas uma semana antes. Por isso mesmo, o cuidado em garantir que ela fosse para um lar onde fosse querida, onde recebesse o amor que merece e que nós lhe demos durante os trinta e oito meses que passou conosco.

 Depois de uns dias buscando,  um amigo, seu veterinário, indicou uma pessoa que poderia triar potenciais adotantes. Fomos até sua casa e lá eu descobri que era a dona da São Bernardo teimosa que mordia a correia. Um peso saiu de minha cabeça, porque sabia que ela gostava de animais e faria o que se propôs, encontrar um lar para aquela cachorra adorável.

 Entregá-la foi uma das coisas mais difíceis que fizemos na vida. Eu fiquei desconsolado de um jeito que minha esposa não teve chance de externar sua tristeza porque isso deixava a minha mais profunda. Evito pensar na minha cadela ao ponto de não colocar aqui seu nome, mas não tive coragem de tirar suas fotos de meu telefone. Vida que segue, não havia modo de ficarmos os três na mesma casa quando ou ela permanecia isolada na varanda ou minha esposa tossia até não poder respirar. Doeu e dói. Acho que procurei notícias dela três vezes desde que a deixei na casa daquela mulher que chegou a se gabar de invadir uma casa para livrar um cachorro de maus tratos.

 Aí, ontem, tomo conhecimento de que essa mulher, pouco tempo depois de, ela própria, adotar minha cadela, como alguém que precisa ter um vilão em suas histórias para poder ser o herói, nos difama em seus comentários nas fotos do animal que lhe entreguei com o coração partido. Chamou de “trique triques” os cuidados que ela recebia, disse que queríamos entregá-la ao primeiro que a quisesse. E disse, por telefone, à minha esposa que queria apenas ter notícias, que não a devolveria, esquecendo que sofremos para abrir mão dela.

 Que pessoa tão triste deve ser essa mulher, para ser tão feroz com quem acredita ser uma ameaça ao afeto que obtém de um animal. Que precisa criar uma história falsa sobre duas pessoas que abriram mão desse afeto porque não tinham escolha e confiaram nela para garantir que nunca faltasse qualquer coisa àquela cadela que ainda amam e da qual ainda sentem saudades. Me faz refletir quantos personagens de suas histórias são realmente vilões e quantos são apenas reflexo de facetas rachadas de uma personalidade cujo único aspecto intacto parece ser o amor aos animais. Se intacto for. Meu consolo é saber que animais não entendem o significado de cada palavra. É saber que, se for pela memória do tempo que passou conosco, aquela cadelinha ainda nos receberia com festa num reencontro.

1 Comentário