Colocar para fora

12/07/2012 Postado em Crônicas

Alguma vez lhe ocorreu, caro leitor, que a profissão que você tanto quer seguir é, na verdade, a que mais lhe angustia? Quando você simplesmente tem de fazer aquilo ou não vai dormir bem à noite, e, se deixar esse impulso de ação represado por muito tempo, pode chegar à meia idade com uma ferida interna feita de um sentimento triste, de não ter cumprido com seu propósito? E, quando senta diante de suas ferramentas por horas a fio, pondo para fora o que lhe atormenta o cérebro qual um louco na camisa de força que se debate contra as paredes espumadas de sua cela, essa angústia se esvai, e… paz.

Uma paz que dura pouco, bem verdade. Porque o cérebro é uma daquelas máquinas que repousam em baixa rotação mas nunca realmente param. O incômodo é como um balão posto na garganta e inflado. À medida em que ganha pressão, vai se tornando intolerável, e a única maneira de pôr um fim à agonia é colocando para fora. Se você der sorte, tudo flui rapidamente. Mas pode levar tempo. Um dia, um mês, um tempo que ninguém se atreva a estimar. E não importa, realmente, de que prática se está falando. Ela é secundária, é o produto da manifestação daquilo que nos move. É a impressão das rodas de seu cérebro. Mera consequência de cada um.

Algumas pessoas comparam essa sensação ao parto. Que toda obra é um parto. Se tirarmos a mãe e o filho da equação, sobram esforço, sofrimento e a sensação confortante de dever cumprido. A mãe sente felicidade ao ver seu filho. O autor pode sentir essa felicidade, mas pode sentir apenas alívio. Saiu, não está mais reverberando em meu crânio. Com toda a parte sofrida, entretanto, é a única coisa que parece fazer algum sentido, porque é aquilo que, em última análise, lhe define. Soa determinista, mas quem já tentou mais de um caminho na vida e acabou desistindo de algum deles consegue reconhecer quando o que escolheu seguir é o correto. Pode ser o mais difícil, mas é o único que vale a pena. Há quem receba a graça de ter sua rota traçada de primeira e seguir jornada com céu limpo e velas cheias. Há aqueles que ignoram a lógica de sua aptidão natural e vão seguindo a corrente do rio. Há os que sabem que a corrente não vai aonde têm de ir e remam contra. No final, os mais serenos serão aqueles que tentaram externar aquilo que lhes movia.



Deixe seu Comentário