O vizinho chato

28/06/2012 Postado em Crônicas, Textos

Todo mundo tem um vizinho chato. E, se não tem, provavelmente é o vizinho chato. Existem dias em que a gente bem ia gostar de poder estalar os dedos e fazer o infeliz sumir da face da terra, e existem os dias em que há apenas a expectativa de ele aparecer para nos chatear. Mas ele está lá e é diversão diária e garantida, só que ao contrário. Não adianta negar, dizer que não é bem assim, que você está cercado de boas pessoas. Dê uma de João Pessoa e negue até dizer chega, mas, lá no fundo, você sabe. Quando alguém fala em vizinho chato, é o nome daquela pessoa que lhe incomoda que vem na sua cabeça. Não é sua culpa. É culpa dele.

Para alguns, existe um tipo mais desagradável de companhia compulsória. Os males crônicos do corpo. Quando eles vêm com a idade, menos mal, não há muito que fazer. Conheci uma senhora que era muito amável, mas literalmente toda vez que a encontrava, ela sentava ao meu lado com uma cestinha de vime trançado cheia de caixas – seus remédios – e dizia para que servia cada um deles. Uma porção de oses, de artrose a osteoporose.

E tem aqueles que nos alcançam mais cedo, frutos de intercorrências da vida ou de hábitos. Eu, mesmo, trago dois ou três exemplares, mas não me lembro de ter falado deles em algum texto. Tem gente que dá nome aos seus males crônicos, batiza mesmo. Eu só convivo com eles e os chamo pelo nome do problema, o nome médico, mesmo. Se é pra batizar alguma coisa, que não seja parte de mim. Por curiosa sugestão de um médico, entretanto, resolvi falar daquele que me incomoda mais. Justamente o que parece ser mais insignificante de todos. Um cisto, uma pequena massa.

Essa coisinha lazarenta, uma manchinha de menos de um centímetro numa folha de ressonância magnética, me tortura há mais de dois anos. Num dia bom, eu sinto ela pressionando um nervo no punho direito. Num dia ruim, escrever uma linha de texto à caneta é doloroso demais. Ele fica em um tendão, pelo que um médico me explicou, e incha em resposta a pequenos movimentos repetitivos. Basicamente, escrever faz esse infeliz crescer e comprimir o nervo que passa logo abaixo.

Outras coisas também provocam a inflamação do cisto, mas o que incomoda mais é a relação entre uma das coisas que mais gosto de fazer e uma das piores dores que já senti na vida. Sem dramas, é pior que dor de coluna. Apenas pense, ilustre leitor(a), naquela dor de choque quando você bate o cotovelo de mau jeito. Agora imagine isso um pouco mais leve, mas sem lhe abandonar um único segundo de seu dia. Bem-vindo ao meu dia bom. No dia ruim, o coisa-ruim cresceu tanto e aperta tanto o nervo que dá vontade de chutar a parede e tentar tirar a atenção do punho por uns instantes.

Evidente que há pessoas com dores e problemas mais sérios. Se a grama do vizinho é mais verde, tenha certeza, a caixa de gordura dele fede mais que a sua. Mas ignorar os problemas que não vão embora é uma atitude idiota. Eles incomodam. Eles não vão embora. Eles vão continuar incomodando. Não sobra nada além de enfrentá-los, tratá-los. Na maior parte das vezes, isso requer esforço e, potencialmente, sacrifício. Mas é isso ou assumir o masoquismo crônico.



1 Comentário

  1. Marcelo disse:

    Vizinho chato eu tenho, então não sou ele…
    Mas sobre “esse” tipo de vizinho, o meu é a bendita da cristalização ou o famoso ácido úrico. Na última crise, joelho sem dobrar, passei carnaval de cama, dor insuportável!

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