O Hiato

07/06/2012 Postado em Crônicas, Textos

O hiato. Um tipo especial de angústia que nos visita em momentos variados da vida e expõe nossa vulnerabilidade diante de nossa mente e do ambiente em que vivemos. Aquela pergunta que você nunca fez, aquela frase que terminaria um conflito, a última peça de um quebra-cabeça, a ideia que completaria aquele trabalho. Às vezes, nenhuma dessas coisas aparece quando precisamos e aquele vazio se instala, um vazio que se materializa no estômago, frio e retorcido, impotente.

 Não faz muito tempo, algumas pessoas conversavam e uma delas falou que a melhor maneira de ter um filho é parar de tentar. Entenda-se como não esperar mais que aconteça. O mesmo conselho parece valer para outras coisas na vida. Se alguma coisa da vida empaca, o melhor a fazer é ignorá-la até que ela pare de agir como uma criança mimada e faça progressos. Sozinha. Resistir a essa parada forçada, via de regra, prolonga o atraso. Às vezes, as coisas são como massa de pão, não podem ir ao forno sem descansar um pouco, sem fermentar.

É um pouco como artes marciais de defesa. Você usa a força e o movimento do oponente para derrota-lo. Ao contrário de ficar inerte ou resistir, você usa aquilo que é forçado em sua direção como impulso para fazer seu movimento. Funciona, porque, curiosamente, as coisas e pessoas parecem abaixar a guarda quando não enxergam resistência e isso abre campo para fazer aquilo que precisava ser feito desde o início.

Diante de um trabalho que empacou, você pode tentar atravessar a parede usando sua testa ou pode tratar o trabalho como uma carne dura, coloca-la para marinar no tempero e descobrir que isso a deixou mais macia, mais fácil de lidar. Usar o hiato em seu favor ao invés de deixar uma angústia sem causa lhe invadir. Você dorme algumas horas toda noite por um motivo. Às vezes, esse mesmo motivo é tudo que precisamos. Em tudo na vida. Uma pena que nem sempre essa lição venha palatável como uma bandeja de petiscos. Mas tenha por certo: quem a aprendeu, de verdade, a valoriza muito.

 



Deixe seu Comentário