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Dois pra lá, dois pra cá

14/06/2012    Postado em Contos, Idéias
 

Ela estava sozinha. Nem todo mundo que vai ao cinema desacompanhado está solitário, mas ela parecia só. Comprou um copo de guaraná e um chocolate, nenhuma pipoca. A sessão tinha pouca gente, ela sentou no meio de uma fila e, três degraus acima e abaixo de sua poltrona, não havia ninguém.

Era um filme triste, um romance desses para ser visto com alguém que se possa abraçar com ternura, desses feitos para que se dê valor ao que se tem. Mas sua única companhia era o copo gelado. Tão logo as luzes se apagaram e o som das vinhetas invadiu a sala, destampou-o e derramou sobre o guaraná duas garrafinhas de uísque, daquelas de hotel. Lembrou da voz de Elis Regina, mexeu o copo con o canudo e deu um longo gole.

O interessante desses grandes cinemas é que, mesmo com poucas pessoas na sala, ninguém parece lhe notar. Ela estava, naquele momento, grata por isso, pois ninguém tentaria entender o que fazia uma mulher, tão bonita e bem arrumada, numa sala de cinema, no meio da tarde, completamente sozinha. E ela não teria de esconder de ninguém o vermelho em seus olhos, o nó na garganta, o sulco profundo no dedo anular da mão esquerda, denunciando que ela não deveria estar só, que ela já teve um motivo para estar ali.

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