A última que morre

16/02/2012 Postado em Crônicas, Textos

Normalmente, os leitores que visitam o Troca Letra dia de quinta-feira encontram um texto novo. Esta semana, em particular, fiquei satisfeito de não ter atualizado o site, porque as melhores notícias da semana vieram hoje. Em Salvador, o clima é de festa, pelo carnaval que, a esta hora, já começou, na Barra e no Campo Grande. Quem leu o noticiário da tarde viu que, com o voto do ministro Ayres Brito, a constitucionalidade do Ficha Limpa ficou longe das mãos da corja podre que tentou minar seu alcance de todas as formas. Já estará em vigor nas eleições deste ano. Num país cujo povo se mexeu de verdade duas (talvez três) vezes em vinte anos, é uma vitória expressiva.

E não para por aí. Por envolvimento com lobbista, tráfico de influência e outros ingredientes da mesma lama, um desembargador foi aposentado compulsoriamente. Há poucos dias, uma matéria dava conta de associações de magistrados estavam preocupadas com a reforma da lei orgânica da magistratura nacional implicasse na perda de duas regalias que eles consideram importantes. A matéria falava em regalias, a palavra não é minha. Uma delas, as férias de sessenta dias por ano. A outra, a aposentadoria compulsória como pena máxima administrativa. Pois com a punição desse magistrado esta semana, sancionada pelo Conselho Nacional de Justiça, voltaram à pauta os questionamentos sobre essa punição. Todo funcionário público corrupto deve ser punido com demissão e ser impedido de regressar ao serviço público. O magistrado, não, recebe aposentadoria integral. Um jornalista chamou, com propriedade, de prêmio a punição máxima. Mais pessoas vêm falando, e, pelo tom dos discursos, se não caírem os dois meses de férias, cai a aposentadoria compulsória. Deviam ser os dois, mas se essa última, só, cair, já é motivo para festejar.

Então, eu vivo dizendo que [Charles] de Gaulle tinha razão quando disse que o Brasil não é um país sério. Ele morreu negando a autoria, mas nunca convenceu ninguém. E a gente acaba concordando, mesmo, quando vê um senador ser pego com a boca na botija, contratando filha de segundo suplente, e dizendo, mas não provando, que ela nunca recebeu salário quando a imprensa divulgou que ela nunca pôs os pés lá. Quando vê o prefeito ser flagrado bancando o turista em Copacabana e o governador visitava Havana, quando a coisa aqui estava estourando. Mas aí chegam notícias como essas e a gente renova a esperança de que, um dia, de Gaulle (ou quem tenha sido autor da frase) não volte a estar certo.



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