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A cadência do samba

02/02/2012    Postado em Contos, Textos
 

Sexta-feira. Dia de vestir branco. Ele não é o único advogado a aparecer no fórum com terno e gravata brancos, camisa azul e sapatos indefectivelmente lustrados, igualmente alvos. Mas, certamente, acredita que é o mais alinhado deles, trajando linho sem uma única ruga. Na roupa. No rosto, o tempo achou lugar para registrar uma longa história. A esta altura da vida, se alguém dentro desse edifício ocupa a mesma função há mais de dez anos, há uma chance quase certeira de ele o conhecer. Não de reconhecer a pessoa e saber que trabalha lá, mas de saber o nome, chegar e cumprimentar, de ser reconhecido e cumprimentado de volta prontamente. Quando ele começou a carreira, apenas uma, talvez duas faculdades formavam seus colegas, de forma que ser conhecido não era difícil. Hoje, não. São tantos, tão numerosos, tão jovens, que exigir lembrança de seus nomes é pedir demais da memória dos antigos funcionários.

Ele não tenta – muito – fingir que não se envaidece com a proximidade que terminou virando uma certa intimidade, com os olhares dos novatos, desejosos de que alguém do outro lado do balcão soubesse seus nomes, que não lhes parecesse invasivo abrir a porta e sentar-se à mesa reservada aos advogados. Ele adentra o cartório com tanta naturalidade, como realmente pertencesse àquele lugar. Não duvide que esse senhor de cabelos engomados e terno branco chegue a saber quantas peças de madeira compõem o piso do lugar. Mas não é na madeira que sua atenção se esconde, que ninguém se engane.

Se os mais velhos lhe conhecem por nome, os funcionários mais novos não são menos prestativos. As funcionárias. Vício antigo, nunca pede nada a um rapaz, só a uma moça. E ali há algumas novatas que não se importam em lhe atender. Pede seus processos, um pouco para cada uma das três, exercita a arte de não se fazer sentir incômodo e, ao mesmo tempo, mantê-las ocupadas, para poder admirar o movimento. Elas vêm, elas vão, e aquele velho advogado de terno branco e olhos atentos não as perde de vista um só minuto. Uma delas apanha um processo e volta ao arquivo, batucando levemente na capa dos autos e rebolando discretamente – mas não muito. E ele senta numa cadeira no meio do cartório e passa meia tarde admirando a cadência bonita do samba.

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