O dragão

16/01/2012 Postado em Contos, Textos

Dia puxado, mal coube um café e um dedo de prosa. A chuva fecha com chave de chumbo aquela volta escondida de um sol arrependido de ter dado as caras, só para ver sua cena roubada pelas nuvens.

O vento encanado do metrô faz as pessoas ficarem em dúvida sobre ser melhor estar sob ou sobre a terra. Mas melhor com frio que molhado, e lá em cima chove a cântaros. Com o guarda-chuva encharcado, ela se junta a uma das filas que, em instantes, devem virar um apinhado vagão.

Observadora, ela encontra olhares bem mais cansados que o dela, gente animada, gente que nem sequer está lá, passeando nas idéias. A maioria de nós faz-se de cego, são todos tão familiarmente estranhos. Outros analisam as caras e bocas, como ela, que fita a todos sem contudo ostentar um olhar invasivo, vê sem olhar. Um vagão de metrô. Um punhado de vidas e histórias. Um experimento sociológico.

Do frio encanado para a chuva sem vento e as poças de gotas finas, ela sobe as escadas, apressada como quem não quer destoar da paisagem. Entre passos ligeiros e movimentos bruscos para não estragar os sapatos nas poças, finalmente um bafo quente anuncia a porta de seu edifício. Deixa seus pedaços pelo caminho do quarto ao chuveiro quente e só enquanto seca o cabelo, afinal, respira fundo. Abre a porta e dá de frente com o sorriso inesgotável e o abraço apertado de seu filho, que, não sabendo que há um dragão lá fora, salva-a dele todo fim de dia.



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