Espelhos e miçangas

27/01/2012 Postado em Crônicas, Textos

Salvo ocasiões especiais – e esta não é uma delas – não gosto muito de clichês. Mas aqui vai: o brasileiro é rico. E não estamos falando de riqueza natural, de simpatia do povo, de absolutamente nenhuma característica geográfica ou social. É uma constatação puramente pecuniária. O brasileiro é rico.

Abri minha caixa de correio esta manhã e encontrei dois envelopes de plástico transparente. O primeiro, e menor, veio do meu banco. Meu, não, porque eu sou um reles cliente, dos que mofa na fila toda vez que vai à agência, dos que pagam juros e taxas tão absurdas que só fica faltando o brucutu com taco de madeira na mão para nos cobrar. Esse banco ainda tem a pachorra de posar de bonzinho, praticante de políticas de responsabilidade ambiental, mas, como desta vez e com perturbadora regularidade, manda impressos coloridos e laminados oferecendo coisas que eu já disse que não quero. O que eu quero, um atendimento com a mesma velocidade com que tentam nos empurrar produtos e fazer com que gastemos, eles não fazem.

O segundo envelope, grande, continha uma revista em língua estrangeira, muito bonita, com verniz localizado, mandada por uma grande multinacional que teve a brilhante ideia de criar um sistema de café espresso sem sujeira. Eu gosto muito da minha máquina e do café que ela faz, mas a revista veio mesmo é para poder botar na mesa da sala e dizer que eu falo inglês, sou fino, descolado e gasto uma nota com café. O problema é que eu não sou exatamente fino, sou um bocado antiquado, não gosto dessas coisas de gente esnobe, comprei a máquina porque gosto muito de beber café e, certamente, gasto menos com café do que eles querem fazer parecer. Precisamente porque eles cobram no Brasil mais de três vezes o preço (com impostos) do resto do mundo por cápsula de café e ainda têm o descaramento de colocar a culpa no governo. Vejam bem, o governo não é a virgem do bordel, é a cafetina. Mas essa culpa não é dele.

É nossa. Porque o brasileiro aceita pagar trinta mil num carro que mal devia chegar a quinze. Cigarro e bebidas alcóolicas são mais caros no mundo todo para custear os tratamentos de saúde, mas, mesmo eles, são superfaturados. Sempre botando a culpa no governo. O Executivo e o Congresso Nacional têm responsabilidade pelos lucros obscenos e práticas indecentes das empresas no país, particularmente bens de consumo, automóveis e telecomunicações, mas a carga tributária é mais o bode expiatório que o culpado propriamente dito. Eles dizem que é, a gente acredita, eles cobram até oito vezes o custo final de um livro, a gente paga. E os insumos do livro não são tributados. Nos países sérios, quando o imposto não vem discriminado à parte do preço (ou somado, mas discriminado), as pessoas têm a seu favor a transparência e sabem o valor da alíquota. Tudo, da gasolina à garrafa d’água, é mais caro do que deveria e a culpa sempre vai para os impostos. Mas a gente não assunta, age como crianças de três anos que ouviram essa conversa dos pais e acreditam em cada vírgula. A maior parte do dinheiro que a União e os estados arrecadam anualmente vai pra sabe-lá-onde, o IVA passou da hora de ser implantado em nossa ordem tributária, mas é importante discernir quais são os nossos vilões e onde cada um nos prejudica. É evidente que nós temos de exigir explicações do governo, mas fazer isso não nos libera para sermos as vaquinhas de presépio das empresas. Ouvi dizer que no Japão não há furto de eletrônicos e quase ninguém compra usado porque é tudo muito acessível. Surreal? Para nosso momento, sim. Mas surreal mesmo é um sedã que, lá no Japão, é considerado carro de dona de casa, ser vendido aqui como carro de luxo. E o imperador ainda passeia, todo pimpão, com sua roupa nova. Crente de que ninguém viu que ele saiu com a cueca do Capitão Caverna.



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