A Primavera

19/01/2012 Postado em Contos, Textos

Ah, la vita è bella, veio a uma cabeça que acompanhava a cadência feminina de duas pernas. E o não acompanhar o movimento da cabeça deu ao corpo a certeza de que havia chegado a Primavera. Sentiu-se caminhando num jardim, por entre os sorrisos das flores, mesmo quando, em verdade, estava na calçada de uma avenida tão ruidosa quanto movimentada. Apenas digamos que a beleza pode provocar surdez, pois o ronco dos motores não atraía sua atenção.

Um passo apressado, sem contudo perder o equilíbrio que a mantinha nos saltos, provocava uma batida rápida e compassada como a dos corações que a viam passar diante de seus olhos incrédulos. Não tinha propriamente pressa, mas sentia-se consumida pelo andar frenético do tempo. Percebia-se notada, mas não achava tempo para uma massagem no ego, como a que faz a visão dos pescoços torcidos.

Revisando papéis à beira do rio de gente, ele observa a vista como quem espera um pássaro pousar para fotografá-lo. Inofensivo como o café fumegante em sua xícara, ele testemunha desde sorrisos de gente que atende a uma chamada de alguém querido até o displicente rebolado da gordinha que, agradando ou não, sabe-se notada.

Procurando uma mesa vaga entre tantas pessoas, ela começa a considerar adiar seu suco por falta de onde acomodar-se. Então, um maço de papéis abaixa e revela um olhar a oferecer-lhe a cadeira vaga diante da mesa. Ela, que não fala com estranhos, aceitou a oferta com um sorriso encabulado de quem viu seus pensamentos devassados.

Ele não pôde deixar de notar seus belos olhos amendoados em uma expressão aliviada de quem descansou os pés por um instante. Amaldiçoando sua agenda e o fato de ter pedido a conta, ele ficaria e tentaria saber mais. Não podendo, lamenta por deixar seu bilhete premiado sozinha no meio de tanta gente apressada demais para esperar o café esfriar.

Ela não esconde que aquela figura compenetrada de cabelos finos e curtos a interessava. Olhos debruçados no papel e, por vezes, nas pessoas, ele fingia uma calma agitada desde sua essência. Mal pôde disfarçar seu desapontamento em vê-lo levantar sem saber seu nome. Sem olhar para trás, ele anda apressado em direção ao seu destino ignorado. Voltando os olhos à mesa, ela nota um cartão com um número e uma frase elogiando seus olhos. Ela também achou os dele lindos.



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