Archive for dezembro, 2011

Primeiro ano

08/12/2011    Postado em Crônicas, Textos
 

Nos últimos meses, três coisas, três conceitos, me povoam os pensamentos com regularidade. Profissão, sonho e hobby. Os conceitos e o que neles as pessoas encaixam. O que é cada um e a que se presta? Qual tem maior importância na vida das pessoas? Principalmente, como diferenciar os três, como saber onde estão os pés. De forma crua, profissão é a atividade que traz retorno, normalmente sob a forma de dinheiro. Digo normalmente porque há aqueles que são voluntários mas não deixam de ser profissionais em seu exercício. Apenas não recebem pela atividade. Sonho é algo que, por mais que se queira fazer, é quase compulsório o reconhecimento de que, no horizonte atual, ele não se concretizará. Caso contrário já teria virado projeto, pessoal ou profissional. Hobby, por último, é toda atividade cuja finalidade, para quem a exerce, é lúdica. Um passatempo, que pode ser um jogo de carteado ou uma oficina mecânica para recuperar carros antigos. Mas se a vida pudesse ser compartimentada assim, nós seríamos peixes Betta dentro de um aquário.

É simples de ver como isso funciona na prática. Muitas pessoas seguem um rumo profissional muito diferente do que sonhavam ou projetavam e, para compensar, passaram a fazer aquilo de que realmente gostavam como hobby assim que suas vidas lhes permitiram. Quando isso não acontece, ou bem há o conformismo ou há a frustração. É muito improvável que alguém consiga fazer algo sem paixão por toda uma vida profissional, o que dá uns 35 anos, em média, e não colher nenhum fruto negativo por isso. Algumas pessoas conseguem ver para onde seu barco está rumando e traçam uma nova rota, mas não é sempre assim. Quanto maior o sucesso profissional desses que deixam a vida correr alheia à sua vontade, quase que invariavelmente, mais caros seus passatempos. Claro que não há uma regra geral e existem pessoas felizes com o que fazem das 8 às 18 e ainda arrumam tempo para investir em outra coisa. Um industrial famoso aposentou-se e arrumou um passatempo curioso: foi ser dono de uma fábrica de motocicletas. Acontece.

O equívoco reside em confundir sucesso com dinheiro. Há os casos em que simplesmente não há escolha, mas não é deles que estamos tratando aqui. As pessoas desistem de seguir para onde queriam e ficam com o caminho que outras pessoas, ou sua própria ambição, lhe indicaram visando, unicamente, retorno financeiro. Conforto é ótimo, mas não é sucesso. Carros que custam um apartamento são bonitos, mas não são sucesso. Aliás, é bom que se diga, muitas vezes são comprados não para serem guiados pelo dono, mas para ostentar. Para dizer “cheguei lá”. Não, não chegou. Quem diz, não é, e quem é, não diz. Calha que a melhor medida do sucesso pessoal ou profissional das pessoas é o brilho nos olhos. O mesmo brilho quando fala de alguém a quem se quer bem invariavelmente aparece quando fala de uma carreira que segue de corpo e alma. Dinheiro não é a alma do negócio. A paixão de quem toca o negócio é. Ele pode ganhar bem fazendo algo que detesta, mas o risco de sua saúde se deteriorar mais cedo é muito maior. Quem faz o que escolheu pelo olhar e não pela carteira, por outro lado, tem as mesmas chances de ser bem sucedido. Porque não há cansaço que vença um cérebro instigado. Não há esforço maior que a paz de espírito que a realização profissional traz.

Há coisa de dezoito meses, abandonei uma carreira que muita gente batalha para conseguir seguir. Uma profissão onde vejo amigos trabalharem doze horas por dia e ainda obterem satisfação. Mas, simplesmente, não era o meu caso. Estava infeliz e dei todos os tempos e tentei todos os ângulos dentro daquilo que pude antes de concluir que aquilo não era mesmo para mim. Tem horas que você sabe, sem precisar racionalizar, que uma atividade lhe fará mal no longo prazo. Não é um problema ficar infeliz por um tempo, não faz mal. Infeliz sempre é problema, sim, e deve ser resolvido antes que o corpo comece a pagar a conta. Então eu saí de uma carreira disputada, num mercado com excesso de novatos todos os anos e poucas vagas para bons trabalhos, e fui investir em uma carreira à qual as pessoas dão pouco valor. Algo que fiz por anos, mas por prazer, e que me ajudou a tolerar os breves anos em que trabalhei com algo que detestava. Não foi uma transição fácil, acredito que já falei disso antes, e precisei ponderar várias coisas. Uma delas é o inevitável descrédito, já que as pessoas não toleram muito bem uma outra pessoa abandonar tudo o que fez e mudar completamente de direção. Um ano e meio depois, isso deu certo? Duas respostas: sim e ainda não. Sim, deu certo, hoje eu sinto aquela coisa que meus colegas que gostam do que fazem sentiam. É como as músicas escritas por letristas apaixonados, você não entende o que elas dizem até que se apaixone. Não, ainda não deu um resultado muito concreto, além de opiniões de leitores. Claro que surgem dúvidas e claro que tenho medo de que não dê certo e eu tenha de voltar e ouvir que fui viver um sonho. Não é um sonho, é um projeto profissional. O Troca Letra completa um ano nesta sexta-feira e, em breve, espero ter excelentes notícias para trazer aqui. Que mal vai aquele que segue seus instintos? Nenhum. Tudo vai bem. E aqui não vem uma conclusão do tipo “não tentem isso em casa, crianças”. Tentem. Vale a pena. Tudo vale a pena. O Pessoa não poderia estar errado.

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Medo vs. Respeito

06/12/2011    Postado em Idéias, Mensagens
 

Não costumo publicar aqui nada que não seja literário, mas hoje eu quero falar do Esporte Clube Bahia. Talvez seja literário, já que o que aconteceu nesta terça-feira, 6 de dezembro, e, possivelmente, ainda está acontecendo enquanto estas linhas são lidas dança freneticamente entre o ridículo e o ultrajante.

Não sou torcedor do clube e, sendo muito franco, a única coisa que me interessa em futebol é rir dos comentários infelizes de certos narradores. Mas cresci próximo de muitos deles e casei com uma particularmente apaixonada pelo Bahia. Ou Bahêa. E por eles eu soube que o atual gestor, senhor Marcelo Guimarães Filho, havia feito promessa à torcida de abrir o processo eleitoral do clube. O campeonato terminou, a torcida satisfeita com o balanço do time, com o trabalho do presidente, mas a palavra empenhada não foi honrada.

Consta de matéria de grande jornal baiano que, por decisão liminar do juiz Paulo Albiani, a eleição feudal mantida pelo ilustre senhor da palavra quebrada deveria ser suspensa e que um administrador interino por ele indicado deveria assumir a presidência. Decisão cumprida. Legalmente. Moralmente, a história pode ser contada de maneira um pouco diferente, o que é ultrajante. Os detentores de interesses contrários a um processo democrático começaram, quase que imediatamente, uma campanha de medo, incerteza e dúvida. Dizem, segundo palavras deles próprios nas redes sociais, que os jogadores que fizeram a alma do time e a alegria da torcida nesta temporada não ficarão a menos que o impasse se resolva de maneira favorável à manutenção do então gestor. Jogam baixo, jogam su e não apresentam nada concreto além do medo de perder um osso carnudo.

Independente do que acontecer, duas coisas devem ser mantidas em mente. Primeiro, e mais importante, é assim que se conhece o caráter de uma pessoa que tem poder nas mãos. Quem passou pelo regime mitar brasileiro ou estudou o que escapou dos censores tem ao menos uma ideia de como o mecanismo de manutenção do poder funciona. O próximo passo é a força bruta e, depois, o desespero. Gente que tinha o respeito mas escolheu o medo está fadada ao ostracismo, e o tempo é um adversário pacientemente implacável. Segundo, nenhuma forma de opressão à democracia deve persistir. Durante a ditadura espanhola, Franco proibiu o ensino e o uso dos idiomas regionais para enfraquecer a resistência. Hoje, eles são ensinados às crianças desde a alfabetização. O que fica por ser apurado é se os torcedores do único time de futebol que admiro, mesmo sem torcer e justamente por causa da torcida, vão apurar os fatos antes de tomar uma posição ou se vão emprenhar pelo ouvido e amarelar. Ouvi muitas frases queixosas de que esse é um momento ruim para esse tipo de acontecimento. Existe mesmo um mau momento para fincar pé no que é seu? Pensem bem.

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Bom gosto ruim

01/12/2011    Postado em Contos, Textos
 

A fome aperta. O vazio de seu estômago perde apenas para o da despensa. Pensa em ir a um restaurante, mas a ideia de sentar à mesa sozinho, para uma refeição completa, num salão cheio de gente, lhe é tão deprimente quanto beber sozinho no canto de um boteco sujo. Não vai conseguir ignorar a fome e sabe disso, mas com a chuva que faz lá fora, entregador nenhum virá à sua porta. O jeito é fazer como seus ancestrais e sair para caçar a comida.

O supermercado. Estacionamento coberto, então não é apenas um caçador modernizado, mas um que não precisa ficar encharcado. Mas a modernidade tem seu peso e esse homem que traz um telefone onde seus ancestrais portavam uma lança não tem vontade nem de cozinhar. Quer mesmo é sentar-se diante da televisão com um prato de comida pronta no colo e uma garrafa de refrigerante ou outra coisa muito gelada e que não tenha gosto de purgante travestido de refrigerante de uva. Se o mal do século passado era a tuberculose, o deste século é a comodidade.

Passeia pelos corredores de gôndolas em busca da caça que não precisará limpar nem colocar no espeto. Tirar da embalagem, no máximo colocar no forno por uns instantes, e comer. O cheiro do frango na televisão de cachorro da rotisseria é convidativo, mas ele sente uma preguiça profunda de limpar as coisas só de olhar aquela gordura pingando. E frango com farofa é almoço, ele quer é jantar. Poderia preparar uma macarronada, mas isso implicaria panelas e tempo no fogão, nada a que ele esteja disposto. A comida não precisa ter qualidade nessa noite. Precisa encher a barriga e ser fácil de fazer. Chegando na seção de congelados, enevoada e fria, ele encontra o que parece se encaixar melhor no que procura. Frango Xadrez.

Definiu o prato, vai à cata da sobremesa e da bebida. Gosta muito de um refrigerante específico, clone de um outro muito famoso. O sabor é detestável, mas é, estranhamente, o que faz aquele líquido escuro ser tão bom. Lembra o refrigerante em garrafa de cerveja que bebia no armazém na cidade dos avós, que era ruim, mas era doce e a única coisa que havia para servir às crianças no único bar da região. Tinha esse refrigerante de uva, também, mas que ninguém além da filha do dono do bar conseguia tragar e que causou-lhe um trauma tamanho que, até hoje, é incapaz de encostar naquela garrafa roxa.

Sobremesas prontas são uma roubada. Ponto. Raríssimas as exceções, e quando há alguma, o preço é alto. Mas ele está disposto a comer uma sobremesa depois do frango e não gastar muito. As opções congeladas não o agradam em nada, de modo que parte para a seção de farinhas, onde ficam aqueles sacos de mistura pronta, do tipo que se coloca água, um ovo, mexe-se um pouco e se põe para assar. Esperava não ter de lavar nada, mas lembrou que passou pelas formas de alumínio descartáveis, então escolheu um pacote de bolo de chocolate. O ovo e a água ele tinha em casa. Pegou a forma e passou no caixa rápido. Tudo isso feito sob a trilha sonora de cantando na chuva. As telhas, as telhas cantavam sob a surra que levavam da chuva.

As instruções do frango diziam que o forno devia ser pré-aquecido. Obedeceu, enquanto misturava o pó do bolo com o ovo e a água. Era muito difícil acreditar que aquela gororoba marrom tivesse qualquer potencial para se transformar em algo comestível. Colocou as duas assadeiras no forno. O tempo de preparo era semelhante, o que era bom, pois sua mãe lhe ensinou que comer bolo quente dá dor de barriga. Ele se apegou à possibilidade de apenas ter dor de barriga se comesse o bolo ainda quente, torcendo para que fosse seguro fazê-lo depois da massa esfriar.

Quando tirou a caixa de papel com o frango xadrez do forno, por um momento, achou que sua embalagem tinha vindo defeituosa. Depois percebeu que precisaria de uma lupa para ver os pedaços de frango, frequentemente menores que as gotas de gordura boiando no molho escuro e coalhado de cenoura e outros vegetais. Os que ele gostava mais, claro, vinham em menor número. O frango quase não veio, mesmo. Mas não se queixou. Era aquilo que ele tinha comprado, embora a fotografia da caixa lembrasse muito a diferença entre o que há nos cartazes das lanchonetes de shopping center e o que é servido na bandeja. Percebeu que comer com garfo e faca era um esforço inútil e rendeu-se à colher.

Ah, a sobremesa. Doce momento regado a refrigerante ruim com gosto de infância e risco de indigestão. Cortou direto da forma um pedaço do bolo ainda morno e completou o copo. Ao menos parte de sua refeição seria feita usando um garfo. O primeiro pedaço inundou sua língua com gostos que iam de gema de ovo ao adstringente sabor de farinha crua. Era tão ruim quanto parecia, aquele bolo de saco. Talvez pior. Mas ele comeu, e repetiu, porque tinha o mesmo gosto da torta que sua antiga namorada lhe preparou para comemorar quando passou no vestibular, há muitos anos. Gosto de saudade. Mas lembrou de como aquilo tudo terminou, continuou sentindo a língua travada pela farinha e jogou o resto do que estava em seu prato no lixo. Ruim demais. O único gosto ruim de que gostava, concluiu, era o do refrigerante que lhe lembrava as férias de infância na cidade dos avós.

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