Natal

22/12/2011 Postado em Contos, Textos

Em um estalo, a torradeira entrega duas fatias de pão. A cozinha tomada pelo cheiro do café recém-coado, o ruído do espremedor de frutas. Há vinte anos, sem interrupção, é o que ele come no desjejum. Nenhuma circunstância, nenhum alto, nenhum baixo em sua vida mudou isso. O último ano foi, certamente, mais silencioso, sem o rádio ligado desde cedo, sem o suave perfume de alfazema, tendo de acordar com metade da cama fria. Lá dentro, ele sabe que nunca preencherá o vazio que ela deixou. Acostuma-se, no máximo, porque nunca foi de se entregar.

Passou os últimos meses tentando não pensar nesta época, mas novembro chegou e trouxe as memórias consigo. Dezembro trouxe a tradição que ele quis ignorar solenemente. Foi até o depósito, no quintal, observou as bolas de vidro coloridas, as luzes, a árvore, mas voltou para dentro da casa de mãos vazias. Nunca montou a decoração sozinho, não faria nada sozinho. Faltam só uns poucos dias e o canto onde a árvore sempre ficou por cerca de um mês a cada ano estava vazio. Colocou a carne para assar, como fazia todos os domingos. Sabia que metade da travessa seria dada aos cachorros, porque não comeria tudo aquilo sozinho. Era comida para dois, e ele era um só.

Uma coisa estava diferente, mas ele ainda não sabia. Com os colchões encostados na parede, de maneira que pudessem tomar sol todos os dias, os quartos que seus filhos ocuparam durante tantos anos estavam exatamente como foram deixados. Ensacados com sabonetes, para não adquirirem cheiro de guardado estavam os lençóis e fronhas. Ele não sabia disso, nem onde estavam, não era seu território. Mas, enquanto a carne assava, achou por bem colocar os colchões sobre as camas. Com tudo em ordem e sem nada para ler ou assistir, parecia a única coisa que restava a ser feita.

Voltando à cozinha, ouviu um carro sendo desligado. Ouviu a voz de uma criança. Não pensou que pudesse lhe dizer qualquer coisa e abaixou-se para retirar a travessa do forno. Fatiava a carne quando ouviu o rangido da porta dos fundos. Depois de tantos anos morando na mesma casa, cada ruído, cada som adquire personalidade própria e alguns ganham até mesmo um nome. O que ele ouviu em seguida era um velho conhecido, mas há muito esquecido. Voz de criança. Dentro de casa. Perguntando incessantemente. Deitando a faca sobre a mesa, abraçou a nora, depois o filho, e ajoelhou-se para cumprimentar a mocinha muito falante. Não a conhecia ainda, às vésperas de seu segundo aniversário. Sorriu como não se via já havia um ano. Sentaram-se todos à mesa e passaram a tarde montando a árvore e decorando a casa, celebrando a vida dos que chegam e lembrando dos que foram.



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