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Filhotes de Coruja

15/12/2011    Postado em Crônicas, Textos
 

Culinária é um processo complexo envolvendo ingredientes, receita, preparo e apresentação. A frase não é minha, mas de um chef que foi entrevistado certa vez, numa revista que não lembro mais onde achei. Todos nós cometemos pequenas atrocidades na calada da noite em nossas cozinhas, algo que jamais serviríamos a alguém mas que comemos do mesmo jeito que uma criança raspa o tacho do bolo que acabou de ir ao forno. Essa frase, trazendo uma revelação inconfessável para quem é apaixonado por gastronomia… também não é minha, mas de um crítico culinário. O fato em questão é: todos nós, em algum momento, comeremos um filhote de coruja.

Como este texto não foi escrito por um metaleiro que come morcegos, é evidente o sentido figurado. Filhotes de coruja são algumas das criaturas mais feias que a natureza permitiu existir, atrás apenas do Keith Richards e do Davy Jones (este último tem a seu favor ser um personagem de ficção). Mas eles têm seu valor, porque serão corujas bonitas em algum tempo, e porque são amados pela mamãe coruja. Supondo que a fábula esteja correta e que corujas sejam capazes de amar. O filhote de coruja, portanto, é aquela pequena iguaria que você faz – ou, talvez, comete – no conforto de sua cozinha e come junto ao balcão da pia, meio escondido, porque sente uma pontinha de vergonha dos outros lhe pegarem no ato.

Obviamente, as chances de seu filhote se tornar uma majestosa coruja são mínimas, então fique com a hipótese do amor materno da corujona. Então, aquele queijo curado que deveria ser apreciado da maneira que merece, acompanhado de outros queijos e um pouco de vinho, é fatiado e metido num pão sem-vergonha mas delicioso da padaria de sua esquina, que não é gourmet, não é de portugueses ou italianos e não tem forno a lenha. Ou aquele assado do almoço, antes muito bonito e apetitoso, desfiado e misturado com arroz e farofa. Talvez até mais apetitoso, mas fica feio, bem feio. Ou o supremo sacrilégio, salsichas, macarrão e o molho premiado da sua avó. Não tem importância se ninguém está olhando, certo? O que ajuda a explicar os locais escolhidos para o consumo dessas iguarias.

E é quando ninguém está olhando que fazemos algumas das coisas mais divertidas da vida, como calçar meias pelo avesso e não dar a mínima ou assistir aquele desenho animado que, teoricamente, não é mais para sua idade. Há quem inclua aí o ato de disparar a campainha do vizinho e sair correndo, mas isso não é muito educado. Chinelo com meia. Não, Crocs não pode, é brega até pra usar em casa. Ou talvez seja justamente o ponto dos filhotes de coruja. Feios, matam um de vergonha, mas são tão bons que, quando ninguém está olhando ou quando não se dá a mínima pro que os outros pensam, valem muito a pena. E bom apetite.

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