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O beija-flor e a fotografia

24/11/2011    Postado em Crônicas, Textos
 

A fotografia foi uma das invenções mais fantásticas desde a revolução industrial. É graças a ela que muitos de nós chegaram a conhecer as feições dos avós dos nossos avós e parentes mais distantes, até. Antes dela, a única maneira de eternizar um momento era contratando um artista. E o resultado dependia absolutamente do talento do profissional, do tempo disponível e dos retratados terem a capacidade de permanecer imóveis por longos instantes. Hoje, tal capacidade ainda pode ser encontrada naqueles artistas que fazem as estátuas vivas, debaixo do sol escaldante e dentro de uma grossa maquiagem. Isso também ajuda a explicar porque alguns retratos de nobres em museus dão a impressão de que o sujeito tinha unha encravada em todos os dez dedos do pé.

Nem tudo é vantagem com as grandes invenções, entretanto. Os albums de retratos são, década após década, fonte de constrangimento para jovens rapazes toda vez que suas mães resolvem mostrar fotos de infância às suas namoradas. E não adianta reclamar, o costume persiste, firme e forte, há mais de quarenta anos. Brincadeiras com fundo de verdade à parte, a fotografia propiciou o nascimento de uma forma de arte visual distinta da pintura, mas também trouxe um lado negativo. Existe aquele que traz consigo uma câmera e eterniza um momento de maneira estética, sem contudo deixar de apreciar a beleza da cena. O problema está naquele que não é capaz de fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

Quando as câmeras de filme ainda eram maioria, o número limitado de poses e o custo do rolo e da revelação faziam com que as pessoas apreciassem mais e só retratassem aquilo que elas achavam belo ou simplesmente digno de ser lembrado mais tarde. Agora, com a popularização das câmeras digitais, é fácil observar as pessoas clicando freneticamente tudo o que passa diante de seus olhos. Ou lentes. Cada hora é mais comum alguém se deparar com uma foto em sua câmera que simplesmente não lembra de ter batido. É como se ele não estivesse lá.  A ideia de eternizar algo que foi vivenciado perde completamente o sentido, porque quem fez a foto não vivenciou o momento capturado por ela. É como uma memória inútil que nosso cérebro descarta no fim do dia, mas que não foi descartada. Se poder lembrar das coisas for um presente, essa caixa veio vazia.

Toda vez que viajo em férias, faço muitas fotos. Gosto de escolher melhor os ângulos mais tarde, então fotografo as mesmas coisas de formas diversas. E gosto de padrões. Calçamentos de cidades antigas, muros de casas, varandas com grade de ferro trabalhado, tudo em que enxergue alguma estética. O que menos fotografo é gente, principalmente eu mesmo. Acho que fico melhor do lado de trás da câmera. Mas tenho me educado a não andar com ela em riste, como as hordas de turistas mal educados que fazem as pessoas se sentirem no meio de uma conferência de imprensa, em meio aos flashes, em qualquer ponto turístico. Por causa deles é que começam a proibir já em 2012 a entrada de qualquer dispositivo de captura de imagem, não apenas câmeras fotográficas mas também filmadoras, em museus e monumentos históricos. Não. Primeiro, vivencio o momento. Depois, se eu achar que devo, fotografo. Normalmente eu fotografo, mas, primeiro, me faço presente no local. Sem nomes pichados em muros com mais idade que minha árvore genealógica inteira, bem entendido.

Pessoalmente, vou lamentar muito não poder entrar em vários edifícios históricos e museus com uma câmera, mas acho que será uma medida positiva. A maioria das pessoas não tem equipamento adequado para fotografar um beija-flor. O que essas pessoas fazem quando veem um? Observam-no. Tentar retratá-lo vai resultar num par de borrões onde haviam asas, é inútil tentar. O que as pessoas vão voltar a fazer quando entrarem nos museus? Uma parte vai simplesmente perder o interesse e não entrar. O restante vai parar diante dos quadros e tentar captar cada detalhe na memória. Talvez comprar uma reprodução na loja de lembranças. Com o tempo, das fotos isso vai se alastrando às traquitanas que estufam as malas. Teremos apreciado a iluminação daquela bela fonte à noite, quando nossas câmeras não fariam uma foto decente nem por obra divina. Lembraremos não apenas do que vimos, mas do que sentimos quando vimos. Voltaremos com a mala mais leve e a cabeça menos vazia.

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