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Não fale com estranhos

20/10/2011    Postado em Crônicas, Textos
 

Que o mundo é cheio de gente com as mais loucas ideias, todo mundo sabe. Mesmo quem nega e acha que nós vivemos numa sucursal do Éden sabe, porque até as criaturas imaginárias, que essa pessoa muito bem equilibrada diz que vê, devem saber. Mas tem coisas que desafiam a imaginação e a criatividade do ser humano. Coisas que só se vê acontecer num livro de Nelson Rodrigues.

Todo mundo, ou quase, recebeu instruções expressas dos pais, quando criança, de olhar para os dois lados antes de atravessar e não falar com estranhos. A maior parte de nós esqueceu essa recomendação quando entrou na adolescência e passou a achar que sabia de tudo das coisas do mundo e os pais não sabiam de coisa alguma. Pois eu descobri que aquele é um dos mais valiosos conselhos que alguém pode receber. Não literalmente, mas, se o alcance de suas palavras for bastante ampliado, vai passar além do estranho de quem não se conhece ao estranho de quem é… bem, estranho.

É como a outra vez em que um senhor que, desconfio, não regulava muito bem das ideias percebeu que eu estava olhando em sua direção e me pegou pra ouvinte, naquilo que se tornou uma das maiores roubadas em que entrei. O grande problema é que a gente não tem como prever quão estranha é uma pessoa que não era um problema social grave da última vez em que você a viu. Até porque nenhum de nós é inteiramente normal, e a gente tende a se basear nos nossos parâmetros para classificar o grau de insanidade dos outros. A encrenca nasce quando você descobre que falhou em prever um potencial problema ao dar conversa a alguém e acabou armando uma bomba, que vai acabar explodindo mais tarde.

E nessa, aquilo que parecia uma simples atualização de contato profissional termina se revelando um portal interdimensional que lhe atira dentro duma história de Nelson Rodrigues. Evidente que, se eu fosse escolher ser arremessado no meio dos problemas alheios, ia preferir cair num texto de Luiz Fernando Veríssimo. Mas, quando não lhe é brindada a escolha, o jeito é fingir que não está lá, naquele quadro encenado por pacientes do célebre Simão Bacamarte de Machado de Assis, e sair à francesa. Vai saber. O melhor, quando você não conseguiu evitar falar com gente tão estranha, no fim das contas, é deixar que eles falem entre si. Ou berrem. Ou se ataquem. Qualquer coisa, desde que a vida deles fique sendo como é, sem você fazendo parte dela.

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