O remédio

22/09/2011 Postado em Contos, Textos

O barulho da tranca se abrindo mal é notado, diante da novidade de um médico ir pessoalmente à carceragem. Normalmente, apenas familiares e advogados, mas naquele dia chegou um médico, com a maletinha de couro preto e tudo. Jaleco branco não, ele explicou que não é correto andar por aí vestindo aquilo porque ele termina servindo para carregar doenças e outras imundícies de cá para lá.

Veio ver um paciente que atende há alguns anos. Não é grave, mas, se não tomar os remédios em dia, pode ficar. Epilepsia, talvez, os presos especulavam o que poderia ser, mas ele não diz, sigilo profissional. Só respondeu que não, o homem não estava maluco, ou não estaria nem ali na carceragem. Aguardou uns vinte minutos até liberarem uma sala do ambulatório, a única com mesa, e trazerem seu paciente. Abria a pequena maleta para apanhar o estetoscópio e o receituário. Ele não pretendia usar o estetoscópio no paciente, mas tirou-o da valise assim mesmo. Curiosamente, o remédio que se podia ver quando a tampa foi aberta ficou lá dentro, guardado.

O paciente não é jovem nem velho, alto ou baixo, nada disso. É daqueles que coloca retratista da polícia maluco com sua descrição, por ser um tipo absolutamente comum. Seria um erro tentar montar uma imagem dele em palavras. A única coisa que, essa sim, serve para identifica-lo, é o fato de ele ser portador de algo chamado heterocromia. Tem um olho azul e outro verde. Mas é só. Cumprimentou o médico com um aperto de mão e um olhar completamente distante, mas que, visto atentamente, denunciaria uma atenção incomum no estetoscópio sobre a mesa. Sentou-se.

O médico iniciou uma série de perguntas sobre seu estado de espírito, como e se estava se alimentando ali na carceragem, como estava dormindo e de que jeito, e ele foi respondendo da forma mais direta que podia. Essa cena, quase como uma entrevista médica do exército, de tão seca e distante, era muito estranha se considerarmos que os dois se conhecem há mais de quinze anos. Mas ninguém ali sabia disso e, portanto, nenhuma suspeita nasceu. Mas eles sabiam que estavam sendo vigiados. A maleta obstruía a visão da câmera e impedia que o bloco de receituários fosse visto. Mais tarde, essa obstrução levou à revista do preso, para conferir o que estava escrito na receita que levou junto com a caixa do remédio que recebeu. Mas era só a orientação de uso e nada mais.

O paciente voltou à cela com uma expressão de que obviamente esperava algo, mas percebeu que o médico jamais poderia lhe dizer o que quis ouvir sob a pesada vigilância a que ambos estavam submetidos. E achou que, ao dizer que voltaria em um mês, o médico lhe sinalizava a oportunidade de transmitir alguma mensagem. A existência de uma era o que significava o estetoscópio sobre a mesa. Já na hora de dormir, com a luz da lua entrando pela minúscula janela da cela e todos os presos acomodados como podiam, ele teve vontade de ler a receita que veio junto com a caixa. A princípio, não viu nada demais. Leu de novo, e de novo, até que notou que o nome do remédio na caixa não batia com o que estava escrito no papel. Havia algo a mais no final, um 3 e um D. Tirou a cartela da caixa quase fazendo barulho, porque achou que a mensagem pudesse estar ali dentro, mas na caixa nada havia. Então, quase desistindo, viu o celofane rompido em uma das cápsulas. Terceira à direita. Passava um guarda quando ele tirava a cápsula, mas ele não foi objeto de sua atenção, já tinha sido visto com os remédios antes e ninguém queria que ele tivesse uma crise do que quer que fosse, muito menos que isso gerasse problemas para alguém ali dentro.

Abriu a cápsula. Um pedaço de papel de arroz, desses de decorar bolo, trazia um recado impresso com letra miúda, para aproveitar o espaço. Forçou o rosto para não sorrir. Enrolou o papel de volta para a cápsula e a engoliu. Sentou-se num canto, recostou a cabeça e dormiu a primeira noite inteira em dois meses.



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